Força como argumento
É perfeitamente legítimo, e assim aceitável, que um país, qualquer país, coloque em primeiro plano a defesa de seus interesses, em especial no que toca à defesa e economia. Claro, desde que entenda como limite natural os interesses dos demais países, na lembrança elementar de que seus interesses terminam precisamente onde começam os interesses de outros. Fora desses limites naturais restará o abuso, a força como argumento e a impossibilidade de convívio em bases equilibradas e devida harmonia. São reflexões impositivas diante do anúncio, semana passada, da nova estratégia de defesa nacional do Departamento de Guerra dos Estados Unidos.
Trata-se, e assumidamente, da explicitação de políticas destinadas a deter a influência geopolítica de Rússia e China no Ocidente, em especial nas Américas para assegurar ao país plena dominância militar e comercial “do Ártico à América do Sul.” Tudo no contexto do que está sendo chamado de uma nova Estratégia Nacional de Defesa, orientando políticas e mobilizações militares. Algo a ser entendido, de uma forma ou de outra, como um convite à cooperação “de boa fé” especialmente com países vizinhos, mas deixando portas abertas para ações militares onde e quando o país julgar que seus interesses não estejam sendo adequadamente atendidos. Precisamente como aconteceu recentemente na Venezuela, o exemplo de ações que as forças armadas norte-americanas poderão empregar no futuro.
“Garantiremos de forma ativa e destemida os interesses dos Estados Unidos em todo o Hemisfério Ocidental. Atuaremos de boa fé como nossos vizinhos, do Canadá aos parceiros da América Central e do Sul, mas asseguraremos que respeitem e façam a sua parte na defesa de nossos interesses compartilhados. E quando isso não ocorrer estaremos prontos para adotar ações focadas e decisivas que promovam o interesse dos EUA”. Nada mais foi dito e a rigor não seria necessário, restando o entendimento que a postura do Departamento de Defesa reflete a vontade do atual Executivo, faltando a devida chancela do Legislativo e do Judiciário para que ganhe – e exclusivamente na perspectiva interna – alguma legitimidade.
Algo que, se chegar a acontecer, apagará todos os esforços realizados pelos Estados Unidos, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, para assumir justificado protagonismo global – e como efetivamente aconteceu –, amparado na cooperação e no entendimento, na paz e estabilidade consolidadas pela democracia, tendo a prosperidade, a redução de desigualdades como cimento de uma nova ordem em que a paz estaria, e para sempre, em primeiro plano.
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