Ganhou o bom senso
Foi uma vitória “do diálogo, da negociação e da aposta na cooperação e na integração entre países e blocos”. As palavras do presidente Lula em sequência ao anúncio da aprovação, pela União Europeia, do acordo de comércio com o Mercosul, bem refletem o significado maior do evento. Depois de uma espera que consumiu 25 longos anos, os dois blocos estão finalmente prontos para a criação da maior zona de livre comércio no planeta, reunindo 720 milhões de consumidores e nada menos que 25% do Produto Interno Bruto (PIB) global. Terá sido também, poderia ter acrescentado o presidente brasileiro não fossem os rigores das mesuras diplomáticas nestas ocasiões, antes de tudo a vitória do bom senso e da razoabilidade.
Seguir nesta direção, sobretudo num cenário internacional em que o protecionismo e o unilateralismo voltaram ao primeiro plano, com a própria ordem econômica global sob clara ameaça ditada pela política externa dos Estados Unidos, revela também capacidade de reação, preservando valores que até há pouco eram tidos como imutáveis. Assim cabe esperar também, para além das novas oportunidades de comércio e colaboração que vão sendo desenhadas, que o movimento agora concretizado de alguma forma ajude a antecipar algum recuo do unilateralismo. Um alívio num cenário ainda em movimento.
E tal percepção poderá ser ainda mais relevante que propriamente as novas frentes de comércio que serão abertas, independentemente do fato de que o acordo a ser formalizado no próximo dia 17 não traduza unanimidade do bloco europeu, cabendo lembrar que França, Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda foram contra. Não o bastante para impedir o acordo, que dependia da aprovação de países representando pelo menos 65% da população do bloco, mas evidência de uma fragmentação cujos efeitos práticos poderão ser percebidos adiante.
Eis porque cabe, sim, festejar, destacando palavras do chanceler alemão Friedrich Merz para quem o entendimento agora pactuado “é um sinal importante da nossa capacidade estratégica e da nossa capacidade de agir”. Mas cabe também perceber que se portas estarão sendo abertas trazendo novas oportunidades de comércio e colaboração, resistências persistirão e sempre poderão incomodar, mesmo depois de 25 anos de espera, mesmo diante das evidências de que a ordenação política e econômica estabelecida em 1945, ao final da Segunda Guerra, foi exaurida, porém deixando espaços para uma reconstrução mais saudável.
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