Editorial

Jogando para perder

Não dá para simplesmente festejar a arrecadação com as apostas digitais e, ao mesmo tempo, ignorar dados igualmente alarmantes sobre o tema no Brasil
Jogando para perder
Foto: Joédson Alves/ Agência Brasil

Os jogos on-line, legalizados em 2018 e regulados 5 anos mais tarde, envolveram no ano passado, conforme estimativa do Ministério da Fazenda, pelo menos 27,5 milhões de brasileiros, ou 10% da população. A este movimento correspondeu faturamento de R$ 32,2 bilhões e, para o Estado, arrecadação de R$ 9,95 bilhões, consideradas as apostas feitas através de uma das 184 bets legalizadas. São números expressivos, mas que não traduzem adequadamente a realidade, uma vez que – e ainda conforme as contas oficiais – 40% do mercado é absorvido por plataformas ilegais, muitas operadas a partir do exterior.

Não é pouca coisa e definitivamente assunto que merece maiores discussões, seja por conta das apostas drenadas para plataformas ilegais, pelas evidências de que as bets possam estar contaminando o esporte do País com fraudes que têm por objetivo manipular resultados. Também contam questões de saúde pública, sobretudo transtornos que levam ao vício e, assim, a diferentes formas de descontrole pessoal.

Caberia lembrar a propósito – e mais uma vez – estudos realizados no âmbito do Banco Central e que chegaram a apontar que até mesmo recursos provenientes de programas sociais estariam alimentando, e fortemente, a jogatina. Que também afetaria o comércio de bens essenciais, alimentos especialmente, que chegam a acusar queda nas vendas, mesmo tendo havido ganhos expressivos na renda individual.

Nada que, afinal, possa ser simplesmente varrido para debaixo de algum tapete mais felpudo em Brasília, como se fosse assunto de menor importância ou, simplesmente, inconveniente. Nada que também possa ser esquecido diante do impacto positivo na arrecadação justo no momento em que as contas públicas tanto carecem desse tipo de, digamos, vitamina. Também não se pode esquecer as evidências de que as plataformas operam num terreno e em condições que bem podem ser rotuladas como pantanosas, com evidências fortes de envolvimento como manipulações, quase sempre com utilização das redes sociais, que induzem ao erro, minimizando as chances reais dos apostadores. Tudo, claramente, para alimentar uma cadeia de eventos nada desejáveis.

Como foi dito acima, não dá para simplesmente festejar a arrecadação em alta e ao mesmo tempo ignorar vícios de origem que reclamam mais atenção, deixando terreno aberto para distorções que vão se acumulando. Ou, minimamente, para explicar como e porque os critérios em relação à liberação de jogos no País continuem sendo seletivos, deixando de fora cassinos que poderiam movimentar o turismo e toda a cadeia de serviços, da hotelaria aos transportes. Porque enxergar a realidade pode, afinal, fazer muita diferença.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas