Editorial

Lição de história

Crise do setor elétrico em São Paulo reacende o debate sobre concessões privadas
Lição de história
Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil

Faz tempo que as chuvas de verão se transformaram em sinônimo de inundações, com toda sua carga de consequências negativas, para a população de São Paulo. Mas o que era ruim ficou ainda pior para quem escolheu a maior cidade brasileira para viver. Chuvas, com as que acontecem neste início de ano, agora são também sinônimo de interrupção nos serviços de abastecimento de energia elétrica, com apagões que se repetem e podem durar horas infindáveis quando não são contados em dias e atingem centenas de milhares de consumidores.

Cabe recordar, especialmente para quem tem memória curta, que os serviços de geração e distribuição de energia elétrica no País eram operados, até meados do século passado, por empresas estrangeiras, britânicas principalmente. Eram também sinônimos de ineficiência, por conta da falta de investimentos em expansão da capacidade de geração e das redes de distribuição, um quadro de displicência que só foi interrompido quando as antigas concessões caducaram e entraram em operação empresas nacionais, necessariamente estatais uma vez que o setor privado local não tinha fôlego para levar adiante a empreitada.

E foi essa mudança, em que a mineira Cemig foi uma das pioneiras e adiante fonte de inspiração para a criação da Eletrobras e de praticamente todo o sistema elétrico brasileiro, que deu suporte ao ciclo de expansão industrial com seu ápice nos anos 70, ainda no século passado. São fatos que a história registra e confirma, mas também um processo interrompido por quem entendia que as estatais seriam na realidade grande estorvo. E foi assim que o Estado de São Paulo, sítio do maior parque industrial brasileiro, voltou ao regime de concessões, hoje entregue à Enel, empresa de capital italiano que não fez mais que colecionar fracassos retumbantes, a ponto de o prefeito da capital do Estado afirmar que “nem Jesus Cristo” a salvaria, contrariando seu principal executivo que reclamara proteção divina para vencer problemas que hoje parecem bem próximos de um limite crítico.

Tudo a tal ponto que a retirada da concessão, atualmente já em estudos, foi reclamada pelo governador do Estado e pelo prefeito da capital, além de defendida também na esfera federal.

E ser consumada seria, no entendimento geral, apenas uma questão de tempo. E pouco tempo, no que depender da vontade da maioria dos paulistas. Deveria estar sendo também lição e aprendizado, quem sabe para finalmente ensinar que áreas tão sensíveis – e ao lado do tratamento e distribuição de água, assim como na outra ponta a coleta sanitária – são serviços públicos essenciais e assim devem continuar sendo.

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