Editorial

Mudando para pior

Mudanças nas regras de obtenção da habilitação para dirigir tendem a piorar ainda mais o cenário urbano brasileiro
Mudando para pior
Crédito: Alessandro Carvalho/Diário do Comércio

A frota de veículos automotores no País cresceu, a partir da segunda metade do século passado, de maneira um tanto acelerada gerando consequências que podem ser tomadas como indesejadas. Coletivamente o automóvel foi transformado em símbolo de modernidade e de progresso e, individualmente, para muito além das facilidades de locomoção e independência, como evidência de status e sucesso. Aparências que de qualquer forma não alteram o mais relevante. Não houve a necessária contrapartida entre o volume de veículos postos em circulação e a infraestrutura correspondente. Tampouco, provavelmente, melhor entendimento acerca das implicações de tantas mudanças em tão pouco tempo.

A paisagem urbana foi alterada e certamente para pior, com os automóveis rapidamente deixando de ser símbolos de velocidade e autonomia para significarem congestionamentos sem fim e poluição em escala capaz de comprometer o futuro da espécie. Pior, acidentes, nos espaços urbanos e também nas rodovias, numa escala que somente a repetição impede que sejam vistos como uma grande tragédia. Mortes contadas às centenas ou milhares, incapacitações igualmente em escala capaz de comprometer até mesmo serviços públicos de saúde, tudo com implicações econômicas que também não têm como passar despercebidas.

Nesse contexto, surge agora uma novidade. Depois de constatar que milhares de condutores não são portadores da devida habilitação, as autoridades decidiram reduzir custos e simplificar exames de habilitação, com medidas que aos poucos vão sendo postas em prática. Pode fazer algum sentido, com certeza parece ser simpático, mas são decisões que têm implicações e riscos que podem não estar sendo levadas em conta. Porque são mudanças que simplesmente significam o risco de que estarão sendo autorizados a conduzir veículos motoristas não adequadamente preparados para tal.

Embora a frota brasileira de veículos motorizados, leves ou pesados, esteja bem distante das maiores do planeta, considerada a proporção entre veículos e habitantes, o número de acidentes faz do País campeão quase absoluto nesse quesito. Algo que significa em primeiro lugar dor e sofrimento, mas igualmente consequências econômicas indesejadas e muitíssimo relevantes. Tudo isso deve piorar agora, conforme já assinalaram especialistas que não veem com bons olhos a dita simplificação em andamento. Cabe observar, cabe acompanhar atentamente os efeitos das mudanças que estão chegando. Para retroceder se assim recomendar o bom senso.

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