Por onde começar
Manter as taxas de juros em patamares elevados, como vem acontecendo no Brasil ao longo das últimas décadas, pode ser, antes que eficaz antídoto para a inflação, algo equivalente a um lento suicídio. Pela asfixia dos negócios e investimentos, resultando em redução do poder de compra, assim congelando a economia, ainda que seja precisamente este o objetivo declarado e assumido dos patrocinadores das políticas restritivas. Não faz sentido, não existe defesa racional possível, sobretudo diante da informação de que apenas no exercício passado o pagamento de juros e encargos relativos à dívida pública drenou do Tesouro Nacional precisamente um trilhão de reais. De longe, muito longe mesmo, a maior de todas as despesas, sangria impensável para um país que assiste à progressiva deterioração de toda sua infraestrutura, onde faltam recursos para investimentos básicos até mesmo em áreas tão críticas quanto saúde e educação.
Sangria impensável também para quem considera que as mesmas mãos que autorizam e defendem políticas monetárias restritivas e entendem como natural e aceitável que os juros sejam mantidos em patamares que conferem ao País incômodo recorde, são aquelas que pagam encargos equivalentes a um rombo verdadeiramente despropositado. Sem que se perceba inclusive o elementar fato de que, fosse adequado o remédio ministrado, certamente o paciente estaria hoje em melhores condições. E o tão temido fantasma da inflação não estaria nos rondando, como ameaça também sinistra.
Informações mais recentes e que servem de base ao presente comentário indicam que no exercício recém-encerrado a dívida pública bruta do País representava o equivalente a 78,7% do Produto Interno Bruto (PIB), com alta de 2,4% no período. Para o ano, as previsões apontam para crescimento continuado, com o endividamento podendo chegar a 88,5% do PIB. E um crescimento influenciado precisamente pelos gastos com juros, lembrando que cada ponto percentual de elevação na taxa básica de juros (Selic), mantido por doze meses, implica em aumento de R$ 55,9 bilhões nos encargos a pagar.
Ficam assim adiados os melhores sonhos e esquecidas as promessas de reencontro do País com o equilíbrio de suas contas. Conforme informou o Banco Central, o setor público consolidado brasileiro encerrou o ano de 2025 com déficit primário de R$ 55 bilhões – coincidentemente o mesmo valor do aumento de encargos por conta da elevação de um ponto percentual nas taxas de juros – equivalentes a 0,43% do PIB e 15% superior ao rombo do exercício anterior. Tudo para ensinar por onde precisamente deveria estar começando o tão necessário quanto urgente corte de despesas.
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