Editorial

Processo de asfixia

Na esteira dos juros altos, a dívida pública federal chegou a R$ 8,635 trilhões no fim de 2025, crescimento de 18% em relação ao exercício anterior
Processo de asfixia
Crédito: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil

O Tesouro Nacional acaba de informar que a dívida pública federal somava, ao final de 2025, total de R$ 8,635 trilhões, valor correspondente a crescimento de 18% em relação ao exercício anterior. Até dezembro próximo a conta chegará, conforme as previsões agora divulgadas, aos R$ 10,3 trilhões. A participação nesse bolo de títulos atrelados à Selic chegou a 48,3%, percentual que deverá ser reduzido a 46% neste ano. São números que não refletem apenas dados contábeis relativos à administração pública. Antes de mais nada, eles representam – e de longe – a maior despesa da União, superando por larga diferença gastos, por exemplo, com saúde e educação.

E despesas que são impactadas diretamente pela manutenção dos juros em patamares que se contam entre os mais elevados de todo o planeta e que ainda na semana passada o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter no patamar de 15% ao ano, agora com promessas de que cortes poderão começar a acontecer já na reunião do próximo mês. Um remédio amargo e em dose que se aproxima do veneno, impondo sacrifícios para os tomadores de crédito que há muito ultrapassaram a barreira do bom senso.

Quem se der ao trabalho de fazer contas – e este claramente deveria ser exercício impositivo e permanente –certamente ficaria espantado ao saber quanto, em pelo menos duas décadas, a atual política monetária custou ao Brasil e aos brasileiros. Mais que suficiente para fazer pensar, mais que suficiente para determinar quem está ganhando e quem está perdendo. O bastante, deveria ser, para orientar mudanças drásticas. Porque definitivamente não faz o menor sentido continuar carregando uma carga tão pesada quando está em nossas mãos o poder de aliviá-la. E sem a falsa ideia de que este é um sacrifício necessário para que a inflação seja mantida sob rédeas curtas.

Melhor mesmo será levar em conta, como apontam os empresários, que crédito caro reduz poder de compra e freia investimentos, resultando em ambiente de negócios menos dinâmico. Na realidade, um processo longo de asfixia a atividade econômica, algo a ser considerado mesmo diante da volatilidade internacional, dos riscos fiscais internos e dos sempre lembrados riscos de retomada da pressão inflacionária. Mais inteligente seria lembrar o economista Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel em 2023, para quem a política monetária brasileira representa um quase suicídio e impõe ao País pena de morte.

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