Editorial

Remédio que mata

Desaceleração do PIB brasileiro expõe o custo de uma política de juros excessivamente rígida
Remédio que mata
Foto: Reprodução/ Adobe stock

Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro somou R$ 12,7 trilhões no ano passado, valor correspondente à expansão de 2,3% na comparação com o ano de 2024. No triênio anterior a produção interna brasileira teve crescimento de 3,4% em 2024, de 3,2% em 2023 e de exuberantes 4,8% em 2022. A desaceleração agora anotada pode ser debitada em primeiro lugar às incertezas no plano externo, especialmente nas relações de comércio ditadas por novas políticas postas em prática pela administração Trump no ano que passou. Pesaram também restrições internas, especialmente por conta das taxas de juros mantidas em patamares elevados, ou as mais altas no planeta.

Nessa perspectiva, e tendo em conta a política monetária restritiva ditada pelo Banco Central a pretexto de assegurar que a inflação seja mantida em patamares aceitáveis, o aparente fracasso, ou recuo, pode ser classificado como sucesso. Afinal, o objetivo de conter o crescimento da economia foi alcançado, o que entretanto não impediu a ocorrência, em Brasília e mesmo em alguns gabinetes que representam o topo da pirâmide de poder, de algum mal-estar. Gente que acredita e não esconde que o dito remédio amargo dos juros pode ter sido aplicado em dose excessiva, daí resultando em desaceleração mais forte do que o esperado e mais cruel que o desejável.

Um processo, conforme avaliações do ex-ministro Guido Mantega, que provoca pessimismo com relação às perspectivas para o exercício corrente. Para ele, o Banco Central errou no timing para pisar no freio, o que representa “um legado ruim” para o País. E com implicações políticas um tanto incômodas, especialmente em ano eleitoral.

Incômodos que certamente não serão maiores ou mais dolorosos que aqueles enfrentados por empresários brasileiros que dependem de crédito, mas não têm como continuar suportando o custo do dinheiro. Precisamente o mais alto no planeta neste momento e dose mais que suficiente para levar Mantega, ex-ministro da Fazenda, a enxergar a indústria brasileira neste momento “em processo de definhamento”, conforme observações de sua autoria em grupo de estudiosos.

São impressões e sentimentos hoje comuns também nos altos escalões do governo federal, trazendo incômodos que vão muito além das avaliações meramente eleitorais. Indaga-se, na realidade, se as proporções do sacrifício durante tão longo tempo não teria implicado em custo excessivo ou até insuportável. Para fazer crer que o remédio pode ter mesmo se transformado, por conta da dose excessiva, em veneno.

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