Riscos a evitar
O que era esperado e, sabe-se agora, começou a ser planejado ainda no primeiro mandato do presidente Donald Trump, afinal aconteceu. Consumado em poucas horas o ataque a Caracas, na Venezuela, culminou com sequestro do presidente Maduro e sua esposa, rapidamente transferidos para solo norte-americano onde deverão ser julgados sob acusações de participação no narcotráfico. Uma intervenção consumada e que quebrou todas as regras do direito internacional, com o fato inédito de que não foi acompanhada das desculpas próprias dessas ocasiões. Nenhuma promessa de reconstrução da democracia ou de benefícios para a população local, nenhuma referência às condições políticas do país. Assumidamente, sem disfarces, apenas a apropriação das riquezas locais, em especial petróleo, tudo, segundo Trump, sob controle direto de seu país, prometendo assumir a administração local sem intermediários ou disfarces e com advertência de que qualquer resistência será esmagada.
O fato consumado assombrou o planeta, ainda que reações de governos aliados, especialmente da Europa, tenham sido quase protocolares, mesmo que nas entrelinhas ou na frieza de comunicados oficiais possam ser percebidos temores mal disfarçados. E porque, afinal, ignorar e deixar de lado fundamentos elementares do direito internacional e princípios que devem continuar sendo tomados como inerentes à convivência entre nações e suas populações, significa também pôr abaixo a ordenação global, potencializando dessa forma também riscos de uma escalada que bem poderá ser o caminho do fim.
Nessas condições não existe espaço para ganhadores, cabendo considerar experiências pretéritas e a partir do fim da Segunda Guerra. As intervenções levadas a cabo na Coreia, Vietnam, Iraque e Afeganistão, além de ações de menor impacto, inclusive em países latino-americanos como Panamá, produziram um saldo que só pode ser dado como negativo e a custos que racionalmente não têm como ser considerados aceitáveis, mesmo que na perspectiva estadunidense. Muito possivelmente a Venezuela pode estar caminhando na mesma direção.
Cabe esperar, ou desejar, que esta corrida insana seja afinal contida a partir de reações internas nos Estados Unidos, que já são percebidas, sendo bastante lembrar que os ataques da madrugada de sábado e ações posteriores a rigor carecem também de legitimidade congressual.
Ouça a rádio de Minas