Além das commodities: Minas muda estratégia e busca protagonismo global
Minas Gerais tenta redesenhar sua imagem no exterior. No maior evento de inovação do mundo, o Estado apostou na combinação de cultura, tecnologia e negócios para sair da lógica de fornecedor de commodities e se posicionar como um ecossistema de valor.
Esse movimento ganhou forma no South by Southwest (SXSW), realizado em Austin, nos Estados Unidos, entre os dias 14 e 16 de março. Pela primeira vez, Minas Gerais contou com um espaço próprio no evento, considerado o principal encontro global de inovação e criatividade.
Batizado de Casa Minas, o espaço foi estruturado como um ambiente imersivo que combina gastronomia, programação cultural e conteúdo estratégico para promover conexões e abrir oportunidades de negócios.
Muito mais do que um estande que se propõe a promover Minas Gerais como um destino turístico, a Casa Minas é um espaço cenográfico que busca recriar a identidade cultural mineira. A proposta é que, por meio de gastronomia de excelência, programação cultural autêntica e conteúdo estratégico, seja um ambiente que vai além do institucional, possibilitando que as conversas se transformem em parcerias.
Para a então secretária de Estado de Cultura e Turismo, Bárbara Botega, que deixou o cargo na quarta-feira (25), a Casa Minas proporcionou que a cultura e, em especial, a gastronomia mineira, fossem um cartão de apresentação dos valores cultivados pelo Estado, capazes de abrir portas para a apresentação de soluções e oportunidades de investimento.
“Minas precisa ter um posicionamento estratégico enquanto potência na economia criativa, na cultura e no ecossistema de inovação e tecnologia do País. Quando a gente pensa em tecnologia e inovação, passa por ativos que temos como, por exemplo, 75% do nióbio do mundo e a segunda maior reserva de minerais críticos do planeta. A partir de uma base mineral, as conversas com todo esse ecossistema fazem sentido. Ainda assim, o nosso posicionamento fica ainda na base da commodity, quando pode ir muito além. Temos uma força criativa a ser trabalhada. É um desafio esse posicionamento global, quando a imagem do Brasil ainda fica muito relacionada ao sol & mar. Quando apresentamos ao mundo essa força além das commodities, num ecossistema que gera valor, a conversa com quem está pensando no futuro muda”, avalia Bárbara Botega.
Em Austin, a Casa Minas foi montada em um restaurante que já oferecia uma infraestrutura para cozinha. Assim, a cenografia foi facilitada, com as partes da casa realmente funcionando.
Criado para apresentar aos participantes do SXSW as soluções mineiras para problemas globais, o conteúdo foi dividido em quatro pilares:
- Transição energética – Powering the planet: como liderar a nova era da energia sustentável.
- Minerais estratégicos – Do subsolo à sustentabilidade: o papel dos minerais críticos na revolução tecnológica.
- Tecnologia e inovação – Humanidade aumentada: como o mundo está conectando IA, dados e tecnologias do futuro.
- Economia criativa – E se os festivais fossem sistemas econômicos? Da experiência ao ecossistema em territórios criativos.
“Tivemos a sabedoria para reafirmar o modelo de comunicação de Minas com o mundo. Todas as conversas no SXSW retomaram a essência de valor humano na tomada de decisão. Num mundo de IA, o grande diferencial é a capacidade humana. Reforçando a nossa identidade, acertamos no que foi tratado no festival: a valorização e o reforço da verdade. Tivemos uma Casa Minas lotada o tempo todo, com experiências verdadeiras, transportando a essência da cultura mineira para o mundo que estava reunido lá. Novos negócios e pontes foram feitas de diferentes maneiras a partir desses encontros”, revela Bárbara Botega.
De acordo com o gerente de Inovação Aberta da Cemig, Felipe Cardoso dos Reis, a experiência de patrocinar e fazer parte da programação da Casa Minas deu à companhia uma oportunidade de exposição diferente e que promete render muitos e diferentes negócios.
“Entramos na programação oficial do evento, isso revela a importância para a Casa Minas. Apresentamos Minas como construtora do futuro. Quando a gente contava que Minas tem o tamanho da Espanha e que tem 100% da energia limpa, as pessoas se espantavam. No Brasil, o desafio é descarbonizar os processos positivos. Lá fora, a agenda ainda é produzir energia menos suja. Minas é um grande espaço para testar aquilo que vai acontecer no futuro”, pondera Reis.
Durante o evento, a companhia lançou no festival o EnergyGPT, primeira plataforma de inteligência artificial da América Latina dedicada ao setor elétrico. Desenvolvido com investimento de R$ 26 milhões, o sistema passa agora por validação em operação real e já integra rotinas de mais de 200 profissionais. A plataforma utiliza modelos de linguagem treinados em base regulatória da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), normas técnicas e documentação setorial, além de uma ferramenta que permite a criação de agentes personalizados para diferentes fluxos de trabalho. A expectativa é que a solução se torne um dos pilares da digitalização da rede elétrica operada pela empresa.
“A Cemig tem o maior programa de inovação aberta de energia do Brasil. Investimos recursos compatíveis com o que é investido lá fora. Fomos para Austin não só para consumir inovação, mas também para mostrar o que fazemos. Teve uma frente muito forte de IA dentro do evento. Entendemos que a IA tira sentido do que é só obrigação e dá mais sentido ao que é da relação humana, que passa a ser o verdadeiro diferencial, e isso fez muito sentido dentro do evento”, destaca o gerente de Inovação Aberta da Cemig.
Casa Minas leva agenda do Parceiros do Futuro ao cenário global
A atuação da Casa Minas no South by Southwest (SXSW), realizado em Austin, nos Estados Unidos, traduz, na prática, a agenda defendida pelo projeto Parceiros do Futuro, capitaneado pelo Diário do Comércio em parceria com a consultoria Spine, e as discussões em torno da construção da “marca Minas”.
A iniciativa leva ao ambiente internacional os pilares centrais do projeto, como a diversificação econômica, o avanço em tecnologia e sustentabilidade e a integração entre setor produtivo, governo e academia.
Ao combinar cultura, inovação e negócios, a Casa Minas reforça a estratégia de reposicionar o Estado além da base extrativista, apresentando Minas como um ecossistema capaz de gerar valor e atrair investimentos.
Os pilares para o desenvolvimento do Parceiros do Futuro são:
- Diversificação econômica, superação da dependência do extrativismo e agregação de valor a produtos, serviços e cadeias produtivas;
- Tecnologia verde e regeneração, com linhas de crédito especiais e produtos de alto valor agregado;
- Geração de riquezas de forma equilibrada, com o fomento à integração entre academia, setor produtivo, governo e sociedade civil.
Assim, deixar de ser uma “ilustre desconhecida” é uma missão estratégica que o Estado tem de cumprir o mais rápido possível.
Para o diretor de Gestão e Novos Negócios na Agência de Promoção de Investimentos de Minas Gerais (Invest Minas), Gustavo Garcia, a grande contribuição da Casa Minas para o evento foi a apresentação do Estado como um grande ecossistema, que conta com a participação de uma sociedade diversa e hospitaleira.
“Não fomos apenas como governo, mas como ecossistema. O nosso propósito foi posicionar Minas no mercado global, entregando o que é o Estado para o mundo. Soubemos utilizar a nossa hospitalidade para fazer contatos e abrir negociações. O pão de queijo com cafezinho abre muitas portas. Um dos desafios em missões comerciais é dizer quem somos e de onde viemos. Somos ilustres desconhecidos. Os estrangeiros não sabem da nossa potência econômica, como a matriz elétrica renovável, as reservas de minerais críticos, a nossa cultura, por exemplo”, explica Garcia.
Celebrada, a Casa Minas deve ter novas edições adaptadas a novos eventos, com o mesmo propósito estratégico de posicionar Minas Gerais como destino turístico e de investimentos.
“Antes, já tínhamos feito interações estratégicas, como o Bar Minas dentro de Casa Brasil, durante a Copa do Mundo. Essa foi a primeira edição da Casa Brasil, e, mesmo antes do balanço oficial, tenho certeza do sucesso pelo número de convites que estamos recebendo de outros eventos de alcance internacional”, comemora a então secretária de Estado de Cultura e Turismo, Bárbara Botega, que deixou o cargo na quarta (25).
Ouça a rádio de Minas