Parceiros do Futuro

Longe da guerra, Brasil pode ‘vender’ segurança para atrair investimentos

Professor da Fundação Dom Cabral afirma que neutralidade diplomática e atração de capital podem posicionar o País como destino seguro em cenário de tensões globais
Longe da guerra, Brasil pode ‘vender’ segurança para atrair investimentos
Foto: Reprodução Adobe Stock

A política beligerante do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e, em especial, a guerra contra o Irã colocam o mundo inteiro sob pressão e ajudam a consolidar uma nova fase de instabilidade internacional. Em meio ao rearmamento de potências, à escalada de tensões geopolíticas e à reorganização de alianças econômicas, países distantes dos principais focos de conflito podem ganhar relevância estratégica no mapa global de investimentos.

Nesse contexto, o Brasil e Minas Gerais, embora geograficamente afastados do epicentro dessa crise, podem encontrar uma janela de oportunidade. Para isso, porém, será preciso combinar neutralidade diplomática, capacidade de atração de capital, fortalecimento institucional e uma estratégia clara para transformar ativos como minerais críticos, segurança jurídica e localização geográfica em vantagens competitivas.

Numa conversa franca com o Diário do Comércio, o professor de Estratégia da Fundação Dom Cabral (FDC), Paulo Vicente, sustenta que o País deve evitar protagonismo político no conflito e se posicionar como porto seguro em um mundo cada vez mais hostil. Na avaliação dele, Minas também pode agir de forma mais estratégica, estimulando setores ligados a terras raras, semicondutores, software e indústria de maior valor agregado, desde que consiga construir políticas de longo prazo e reforçar sua burocracia profissional.

Paulo Vicente
Foto: Divulgação FDC

A discussão sobre o posicionamento estratégico do Brasil e de Minas Gerais diante da reorganização econômica global dialoga com os temas abordados no projeto Parceiros do Futuro, iniciativa do Diário do Comércio, em parceria com a consultoria Spine, que analisa como empresas, governos e instituições podem ampliar conexões internacionais, atrair investimentos e construir novas agendas de desenvolvimento para o Estado.

Como o Brasil deve se posicionar estrategicamente em um mundo que volta a conviver com disputas entre grandes potências?

Existem duas formas estratégicas de pensar: no nível do País, o que ele pode fazer, e no nível da organização, da empresa. No nível do País, eu acho que a solução é a neutralidade. A gente não tem que se meter nessa guerra. Basicamente, saímos de um ambiente razoavelmente estável, inclusive estabilizado pelos próprios Estados Unidos entre 1945 e 2024, mas que já vinha ficando complicado por conta da guerra da Rússia com a Ucrânia e da pressão da China na Ásia.

A situação já não era mais tão estável assim como foi o ano passado, mas acho que o ponto de ruptura é 2025, com o novo Trump. Ele vai fazer não só a guerra tarifária, como vai começar a ameaçar os próprios aliados, com o início de guerras, a captura de líderes estrangeiros, como no caso do Maduro, na Venezuela, e a morte de outros, como no caso do Irã. Ele já criou um mundo em que manda quem pode, obedece quem tem juízo. Isso me lembra muito o período neocolonial do século XIX. Eu acho que a gente está vivendo um período histórico análogo. E, se isso estiver correto, levará a uma nova guerra mundial em algumas décadas.

Para o Brasil, o que mais interessa é a neutralidade. Ficar de fora. Não só porque não temos interesses na guerra, como também não temos força militar nesse momento. Gostando ou não, vamos ter que nos rearmar nesse novo ambiente mais agressivo. Mas isso é complicado num país que vive com um problema fiscal. Você vai ter que tirar dinheiro de algum lugar para colocar em defesa.

Ao mesmo tempo, esse contexto internacional vai permitir que sejamos vistos como um porto seguro para investimento, um local onde não tem guerra. Brasil, México e Argentina, por obviedade, são os três maiores e, potencialmente, mais beneficiados, mas existem outros países, como Costa Rica, Panamá, Uruguai e Paraguai. Esse é um novo mundo de oportunidade, mas a gente tem que se resguardar para virar a “estratégia do porco-espinho”: não é que não vão querer nos morder, mas o custo da mordida tem que ser alto.

Os Estados Unidos querem barrar a influência da China sobre a América Latina. É um tipo de proteção, mas tem um preço. Não é uma situação totalmente confortável. Isso implica em termos uma defesa, termos armas. O Brasil tem que se equilibrar, mantendo a neutralidade.

Tem aí uma lição para os nossos políticos, particularmente para a Presidência da República, de calar a boca. Houve uma percepção, no começo do governo atual, de querer falar muito, de se colocar como um novo ator global e isso não funcionou. Acho que agora isso também já mudou, já teve a percepção de que, em boca fechada, não entra mosca. E é isso: continuar no canto, se rearmando, cuidando da economia nacional e aproveitando para atrair investimento de fora. Existe um capital que está vindo por conta da aversão ao risco na Ásia, no Oriente Médio e na Europa Oriental. Essa é a forma de tratar estrategicamente isso no nível nacional.

E para as empresas brasileiras, quais oportunidades surgem nesse novo cenário global?

No nível das empresas, vai ter estrangeiro querendo botar dinheiro aqui. Então, a casa precisa estar organizada internamente para aproveitar oportunidades de private equity ou fazer uma joint venture. Temos que buscar parcerias com os nossos vizinhos. Com o Paraguai, isso é o mais óbvio agora, mas também precisamos pensar em parcerias com a Argentina e diminuir essa animosidade inútil que surgiu no Mercosul, que não ajuda ninguém.

Também é importante buscar parcerias com empresas europeias que estão procurando alternativas às empresas americanas e com empresas indianas, que também buscam alternativas à China e aos Estados Unidos.

Isso pode originar, talvez, um novo triângulo entre União Europeia, América Latina e Índia. Assim, o Brasil pode diminuir a dependência da China trocando-a pela Índia, que vai, nos próximos 20 a 30 anos, crescer muito e pode repetir o papel que a China teve nas últimas décadas.

E a gente não pode esquecer os Estados Unidos, que também são um parceiro importante. O segredo é diversificar o portfólio de clientes e fornecedores e ampliar a interação com a Europa e com a Índia.

Dentro dessa estratégia de ampliar parcerias comerciais, a África também pode ganhar relevância para o Brasil?

A dificuldade da África é que eles não têm muito o que exportar para a gente. Então, fica difícil você fazer um comércio em que o navio vai cheio e volta vazio. Então, a gente tem que achar alguns parceiros, como África do Sul, Tanzânia, Quênia, talvez Marrocos e Egito, mas não são todos. Aí, de novo, tem que ter estratégia, pensar quais são os pontos altos. E, mesmo isso, não vai ser nem perto do que é a Europa ou a Índia.

O que aconteceu ao longo do ano passado em relação ao tarifaço, quando o Trump começou aquela movimentação, ainda bem no início do ano? As previsões eram catastróficas, mas, ao fim, o Brasil não se saiu tão mal e houve uma diversificação de parceiros. Então, essa experiência ajuda um pouco?

Para o bem e para o mal, o Brasil é um país fechado. Então, o impacto sobre o PIB não foi tão grande e, além disso, o nosso maior parceiro comercial é a China, depois, os Estados Unidos. O Trump percebeu que essa estratégia não funcionava como ele achava. E, como todo governante, ele depende muito da aprovação interna. Quem está lá num condado no interior não sabe onde ficam a Venezuela ou o Irã. Ele quer saber o preço da gasolina, da comida, se tem mendigo na rua, se tem traficante. É da vida real. E é essa pessoa que vai votar agora nas eleições de meio de mandato e que vai fazer o sucessor do Trump ou não. Então, é para essa população que ele tem que se voltar. Ele faz isso muito bem do ponto de vista midiático. Ele está o tempo todo na mídia, sufocando qualquer outra voz. Mas, se isso começa a dar uma repercussão ruim, na verdade, amplifica o problema.

Como essa guerra contra o Irã bate no dia a dia do cidadão norte-americano e do brasileiro?

Nos últimos 20 anos, os Estados Unidos foram diminuindo a dependência de petróleo daquela região. A partir de 2008, quando o preço bateu 140 dólares, eles desenvolveram o gás de xisto e foram eliminando todas essas dependências. Hoje em dia, eles exportam energia e só uma pequena parte do petróleo do Golfo vai para os Estados Unidos. Mas, quando falta no mundo, o preço do petróleo, que é uma commodity, sobe e acaba batendo na economia. No Brasil, afeta fortemente porque a nossa logística é muito dependente de diesel. Nos Estados Unidos também, o americano adora um carrão e a rede ferroviária deles é bem menor do que a europeia, comparativamente. E isso é uma parte importante da cultura americana. Ele quer encher o tanque sem ter que escolher entre isso e comida, entre isso e jogar boliche.

Agora, pensando em Minas Gerais, nas características do nosso Estado, como produtor de minerais críticos, por exemplo, o Estado tem como agir estrategicamente? Ele pode desenvolver uma estratégia própria diante desse cenário?

Tem como fazer algumas coisas, mas não tem como fazer tudo porque tem atividades que são prerrogativas do governo federal, como defesa e diplomacia internacional, por exemplo. O Estado pode fazer estímulo ao desenvolvimento de alguns setores. Minas tem depósitos de terras raras, por exemplo. Poderíamos tentar atrair investimentos para extração e refino. Também para fábricas de semicondutores. O melhor estímulo, na verdade, é baixar imposto. Agora, se não consegue baixar o imposto como um todo, pode dar alguma prioridade para alguns setores, tentar fazer algumas áreas com alfândega especial, por exemplo. Poderia dar isenção de 10 ou de 20 anos para alguns setores, como o de software. São setores que, em geral, geram valor agregado e bons salários. E aí o Estado vai receber imposto via a renda. Uma doação de terreno pode ser feita até no nível do município.

Como garantir continuidade de políticas estratégicas no Brasil diante da alternância de governos?

O governo muda, mas as estruturas permanecem. Mesmo que elas tenham alguma modificação de prioridade ao longo do tempo, existe uma estrutura burocrática de longo prazo, que ultrapassa o governo. E tem que ter alternância de governo. Isso é da democracia. É desejável que haja alternância de poder. O problema no Brasil é que, geralmente, quando alterna, quem entra quer destruir o que o outro fez.

Durante muitos anos se acreditou que o mundo estava cada vez mais integrado e menos sujeito a crises. Os acontecimentos recentes mostram que essa percepção estava equivocada?

Durante os últimos 30 anos, as pessoas acharam que o mundo não ia ter mais guerra, não ia ter mais crise, que estaria tudo integrado e que os riscos logísticos e militares não existiam mais. Bem-vindos à realidade! A realidade não é opcional, ela meteu o pé na porta e entrou sem ser convidada. A pandemia, a guerra na Ucrânia e agora a guerra no Irã estão mostrando que o mundo não é um ambiente sem riscos, ao contrário. E aí, temos que ter mecanismos de proteção para quando acontecer algum problema. A Europa vai se rearmar fortemente agora. E isso custa muito dinheiro, que vai ter que sair de algum lugar. A questão da energia renovável, por exemplo, ficou totalmente secundária. Já não se fala mais em transição energética, mas em adição energética. A ideia é que vão precisar de todas as formas de energia, das renováveis ao petróleo e à energia nuclear.

Essa cautela internacional explica a postura de vários países que evitam se indispor com a Rússia?

Todo mundo está olhando para lá, e, em algum momento, ou a Rússia vai parar a guerra ou o Putin vai cair. No pós-guerra, existe um cenário em potencial de uma guerra civil ou de trocar um ditador por outro. E muita gente diz o seguinte: “Temos que brigar com Putin, com a oligarquia, mas não com o povo russo”. Isso é uma coisa importante. Quando da Guerra do Paraguai ou da Segunda Guerra Mundial, a posição do Brasil sempre foi contra os ditadores e não contra os países. Eu acho que é uma posição muito correta. Assim, a guerra não era contra o Paraguai, era contra o Solano López. Não era contra a Alemanha, era contra o nazismo.

Como o Brasil deve se posicionar diante da instabilidade política na Venezuela e de seus possíveis desdobramentos regionais?

A Venezuela tem uma situação bem diferente do ponto de vista militar, mas não muito diferente do que acontece no Irã, na China e na Rússia, do ponto de vista político. Os vários inimigos políticos do Putin foram mortos. A China passa por golpes internos de tempos em tempos.

No caso da Venezuela, como é um país bem mais frágil do ponto de vista militar, eles foram lá e conseguiram capturar Maduro. O país já está se aproximando dos Estados Unidos, já se fala em investimento norte-americano. Internamente, é um processo que vai levar anos, e pode ser que a própria oligarquia que permaneceu lá se reorganize e volte ao poder. Cuba é outro país que pode sofrer uma intervenção dos EUA.

Eu acho que o Brasil tem que estar com a mão estendida tanto para a Venezuela quanto para Cuba e ajudar na medida em que for possível. Agora, a gente também não pode fazer isso batendo de frente com os Estados Unidos. Acho que a gente tem que dizer o seguinte: “Olha, somos favoráveis à transição democrática, nós somos um país democrático e estamos aqui para apoiar a transição”. E, é claro, permitir que as nossas empresas entrem nesses países na medida em que eles se tornem viáveis para receber investimento. Na questão da fronteira, mais importante que a Amazônia, talvez, sejam os refugiados venezuelanos, que são muitos no Brasil.

Estamos diante de uma mudança estrutural na ordem econômica e geopolítica global? Qual pode ser o papel estratégico do Brasil nesse novo cenário?

Há uma mudança estrutural, no meu livro eu coloco isso: estamos fechando um ciclo do capitalismo, um ciclo tecnológico. Matematicamente, em 2030, começa o sexto ciclo, que vai até 2080. Esse sexto ciclo tecnológico vai culminar também numa nova crise lá na década de 2070, em que, possivelmente, os Estados Unidos estarão muito mais enfraquecidos. É o que aconteceu com o Reino Unido. Depois da Revolução Industrial, o Reino Unido ainda era uma potência, mas Alemanha, Itália, Japão e Estados Unidos estavam se industrializando. Então, ele já não era a potência hegemônica, e isso foi degringolando até a Primeira Guerra Mundial. Essa hegemonia acaba porque a rede de sistemas de alianças falha. É o que estamos vendo agora. O Brasil tem que ficar de fora e aproveitar isso, se vendendo como um porto que tem segurança jurídica e militar pela distância das zonas de conflito.

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