Em Ouro Preto, marca une patrimônio e inovação
Reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 1980, como Patrimônio Mundial da Humanidade, Ouro Preto (na região Central) foi o primeiro bem cultural brasileiro a receber esse título, valorizando seu conjunto arquitetônico e urbanístico barroco, com destaque para as obras de Aleijadinho. Ali, a marca Minas ganhava um selo de relevância e singularidade.
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Muito mais, porém, que um sítio histórico, a antiga Vila Rica, pulsa modernidade embalada pelo seu parque educacional e um agitado hub de tecnologia. Para o prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo de Araújo Santos (PV), Minas Gerais já nasceu internacional pela exploração do ouro, que fez da cidade uma das mais populosas das Américas no século XVIII e atraiu comerciantes, cientistas, artistas e intelectuais do mundo todo.
Por volta de 1730, Ouro Preto chegou a ter cerca de 40 mil habitantes, número superior ao de Nova York e outras grandes cidades coloniais na época. No início do século IXX, os naturalistas europeus passaram pela região, entre eles, August Saint-Hilarie, que escreveu sobre a degradação ambiental causada pela mineração e registrou o cotidiano e paisagens da antiga capital, alcançando grande repercussão.
“No contexto histórico mundial, Minas tem uma presença destacada porque foi a região que mais produziu ouro no mundo no século XVIII. O ouro que serviu para a reconstrução de Lisboa, abasteceu as construções da Igreja Católica e financiou a revolução industrial. E dois movimentos culturais fundamentais: A poesia Árcade que posiciona Minas na produção cultural das Américas e a Inconfidência Mineira que repercutiu em toda América do Sul”, enumera Ângelo Oswaldo.
No século XX, alguns estudiosos da arte reposicionaram Minas ao considerarem Aleijadinho um dos maiores do mundo, como o francês Germain Bazin, o britânico John Bury, e o argentino Horácio Coppola. Além deles, foi fundamental a visita dos modernistas de 1922, que chamaram a atenção para a riqueza do patrimônio e, mais tarde, as missões da Unesco.
“Ouro Preto é a mais internacional das cidades mineiras, fazendo uma ponte entre os séculos XVIII e XXI. Somos uma cidade viva, não uma ‘Disney colonial’. Somos uma cidade da educação, uma cidade universitária. E onde tem educação, tem ciência, inovação e tecnologia. Então quem pensa que somos uma cidade sentada sobre o passado é porque não conhece nossa história e nem o nosso presente”, defende.
Segundo o gestor público, apesar da força histórica e econômica, Minas Gerais precisa recuperar o prestígio político perdido ao longo das últimas décadas. Para isso seria preciso mostrar o que é produzido no Estado a partir da sua excelência e originalidade, afastando os estereótipos.
“Minas Gerais precisa de um bom projeto de comunicação internacional. Temos muito cacoete e caricatura, falta dar valor real à mineiridade. Minas tem uma presença internacional desde o início e é importante que os produtos mineiros levem a ‘marca Minas’. Temos que ser projetados como uma potência e não folclorizados como vem acontecendo”, alerta o prefeito.
Um olhar estrangeiro, amoroso e cheio de humor sobre a mineiridade
Radicado há 12 anos em Minas Gerais, o humorista pernambucano Paulo Araújo fez da “marca Minas” o seu ganha-pão. Tudo começou a partir do estranhamento aos hábitos locais, logo transformado em admiração. Sucesso no teatro e nas redes sociais, com mais de 1,2 milhão de seguidores, o artista trabalha os aspectos da mineiridade com bom humor e respeito. Segundo ele, “como uma espécie de homenagem”.
Morador de Divinópolis, na região Centro-Oeste, ele ainda se espanta com o tamanho e diversidade do território mineiro e com o amálgama que faz com que, apesar da diversidade, das desigualdades entre as regiões e das influências dos estados vizinhos, todos se reconheçam e sejam reconhecidos como mineiros.
“A mineiridade é um estilo de vida tão forte que virou um substantivo. Nem todo lugar tem uma palavra para designar o seu jeito de ser. Assim como o pernambucano, o mineiro tem um orgulho de ser o que é, mas demonstra de maneira diferente. Enquanto o pernambucano e o baiano, por exemplo, gritam, o mineiro usa de uma falsa modéstia, tratando coisas excepcionais e únicas como se fossem normais. Ele não se vangloria, deixa a pessoa experimentar e elogiar e isso é um charme”, opina Araújo.
Tendo como público especialmente a faixa etária acima dos 30 anos, ele também é autor do “Dicionário Mineirês” com mais de 500 expressões locais e foi apresentador de programas de televisão.

A obra, que demandou dez anos de pesquisa, nasceu da dificuldade em se comunicar e da ideia de anotar as expressões e o significado para não esquecer. O sotaque e o linguajar – que tem nuances regionais – são pontos bastante explorados pelo artista. A hospitalidade e a culinária não são apontados como estereótipos, mas, sim, como qualidades reconhecidas por todo o Brasil.
“Por ser um território de passagem e que recebeu gente do mundo todo, Minas desenvolveu uma hospitalidade única. É um povo que aprendeu a receber, oferecer pouso e comida. O mineiro tem sempre o cuidado de apresentar a melhor versão de si e dos seus produtos. Eu vivo da marca Minas Gerais e vejo o quanto ela é respeitada fora, mas o Estado precisa explorar mais os seus pontos positivos. O desafio é como fazer isso em escala mantendo esse tempero que só os mineiros têm, sem massificar, sem perder a identidade”, conclui o humorista.
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