Uso de IA cresce nas empresas, mas transformação esbarra em gestão e capacitação
A inteligência artificial (IA) já ocupa posição estratégica em empresas de diferentes portes e setores, mas transformar o interesse pela tecnologia em resultados concretos ainda é um desafio. O avanço do chamado Shadow AI — uso espontâneo de ferramentas de IA por colaboradores, muitas vezes sem diretrizes formais das organizações — mostra que a tecnologia já faz parte da rotina de trabalho, enquanto as empresas ainda buscam formas de estruturar sua adoção.
Dados do relatório State of AI in HR 2026, da Society for Human Resource Management (SHRM), indicam que 91% dos CHROs consideram a inteligência artificial uma prioridade. Apesar disso, apenas 39% afirmam utilizar algum tipo de ferramenta de IA no próprio RH. Para 67% dos entrevistados, o principal obstáculo não está no orçamento nem na tecnologia, mas na falta de entendimento sobre o que a IA realmente pode fazer.
Na prática, colaboradores já utilizam ferramentas como ChatGPT, Copilot e Gemini para realizar tarefas, buscar informações e aumentar a produtividade. Esse movimento, conhecido como Shadow AI, evidencia uma contradição: enquanto o uso da inteligência artificial avança de forma espontânea, muitas organizações ainda não possuem estratégias claras para orientar e capacitar as equipes e integrar essas ferramentas aos processos de trabalho.
“Projetos de IA não são resumidamente projetos de tecnologia. São projetos de transformação organizacional com tecnologia no meio. Quando a empresa enxerga a IA apenas como a contratação de uma ferramenta, ela ignora fatores decisivos para gerar resultados, como cultura, liderança, comportamento e gestão da mudança”, afirma o diretor de Estratégia e Educação da Performa_IT, Zeh Negri.
A percepção é reforçada pela regra 10/20/70, da Boston Consulting Group (BCG). Segundo o modelo, apenas 10% do sucesso de uma iniciativa de inteligência artificial está relacionado aos algoritmos. Outros 20% dependem da tecnologia e dos dados, enquanto 70% estão ligados às pessoas, aos processos e à gestão da mudança.
Confira os principais desafios da adoção de IA nas empresas:
- falta de entendimento sobre as possibilidades da inteligência artificial;
- ausência de diretrizes para o uso de ferramentas de IA;
- crescimento do Shadow AI dentro das organizações;
- resistência cultural e medo de mudanças;
- falta de capacitação de equipes e lideranças;
- processos pouco estruturados antes da automação;
- dificuldade para transformar projetos de IA em resultados concretos.
Segundo Zeh Negri, um dos principais erros das empresas é acreditar que a simples contratação de uma plataforma será suficiente para promover a transformação. “O que mais tem barrado o uso de IA nas empresas é a cultura. Não é a licença do Copilot, do Gemini ou do ChatGPT. Se as pessoas não estiverem preparadas para aprender, experimentar, errar e incorporar novas formas de trabalho, a tecnologia não gera transformação”, afirma.
Na avaliação da CHRO da Rodonaves, Jordana Albuquerque, o maior obstáculo raramente está na ferramenta. “Normalmente, está na gestão da mudança. As empresas compram tecnologias esperando que o uso aconteça naturalmente, mas esquecem que a adoção depende de cultura, liderança e capacitação. As pessoas precisam entender por que aquela tecnologia foi implementada e qual valor ela gera para elas e para o negócio”, ressalta.
Nesse cenário, o RH ganha protagonismo ao assumir um papel que vai além da gestão de pessoas. A área passa a contribuir diretamente para a preparação das equipes, o desenvolvimento de novas competências e a adaptação das lideranças às novas formas de trabalho.
Para a consultora de RH com experiência em processos de transformação organizacional Ana Tomazelli, a mudança não começa com a instalação de um software. “Transformação real implica escolhas. É preciso entender o que será redesenhado, quais capacitações são necessárias e como tempo, dinheiro e energia serão alocados de forma coerente com o discurso”, afirma.
A implementação também tende a gerar melhores resultados quando começa por experiências menores, em equipes ou processos específicos. Dessa forma, as empresas podem testar aplicações, identificar ganhos e corrigir problemas antes de ampliar o uso da tecnologia.
“Se as pessoas sabem o que fazer, o que olhar e o que entregar, aí sim a tecnologia pode potencializar. Se não sabem, você está automatizando o caos”, diz Ana Tomazelli.
Mais do que aumentar a produtividade, a inteligência artificial pode transformar a maneira como as pessoas trabalham. Nesse processo, competências humanas, como interpretação de contextos, julgamento, adaptação e tomada de decisão, ganham ainda mais importância.
Jordana Albuquerque avalia que a vantagem competitiva não estará apenas em possuir a tecnologia mais avançada, mas também em desenvolver pessoas preparadas para trabalhar em parceria com ela.
Colaborador
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