Descentralização de doações pode ajudar a reduzir desigualdades na filantropia brasileira
O Brasil possui um povo generoso, que se comove com o infortúnio do próximo e, sempre que pode, ainda que não seja com frequência, doa para causas de instituições de cunho social. Todavia, há uma concentração nessas doações que pode favorecer algumas regiões e projetos em relação a outros que também exercem importantes papéis em suas comunidades.
Um estudo do Instituto Pensi para a Fundação José Luiz Setúbal (FJLS), de 2024, indica que as regiões Sul e Sudeste do Brasil são as que mais doam, ficando bem à frente das demais localidades do País. Em 2024, foram doados mais de R$ 23 bilhões. Desse valor, quase R$ 17 bilhões circularam apenas nas regiões Sul e Sudeste do País. Confira abaixo os números de doadores no Brasil:

Enquanto o Sul e o Sudeste lideram com as maiores taxas de doação e um forte crescimento (+10 p.p.), o Nordeste é a única região que apresentou queda no percentual de doadores (-3 p.p.). Já o Norte e Centro-Oeste apresentaram crescimento, mas ainda possuem taxas menores que o Sul/Sudeste.
Confiança, trabalho e olhar mais próximo
Segundo a professora, pesquisadora e empreendedora social Daiany Saldanha, um dos passos para reduzir a concentração de doações é que as instituições trabalhem para criar laços de confiança, mostrar transparência e, acima de tudo, demonstrar que o impacto local trará bons resultados.
“Quase sempre as organizações que estão nos grandes centros estão mais em evidência. Isso acontece pelo comportamento das empresas, por exemplo. Empresas do Norte doam mais para organizações que estão no Sudeste. Por quê? Porque não confiam, falta transparência, é o que elas falam. Então, acho que há um pouco essa relação também. Aí, a gente tem que, ao trabalhar, ao construir essa confiança ali do entorno, em volta delas, mostrar o potencial do projeto”, destaca.
Para o diretor para a América Latina e Caribe do Giving Tuesday (Dia de Doar) e professor na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), João Paulo Vergueiro, é preciso haver um fortalecimento do trabalho de captação para que haja reconhecimento dos projetos.
“Eu, particularmente, acredito que existe um potencial muito maior de doação para as organizações. Ou seja, faltam recursos porque tem muita gente que não doa e muita gente que nem sabe que as organizações se financiam e são independentes a partir das doações. Na verdade, em muitos casos, o que torna uma organização independente financeiramente é receber doações de centenas, milhares de pessoas diferentes que conhecem a organização e acreditam na causa dela”, explica, para em seguida elogiar quem consegue se mobilizar mais.
“Aquelas organizações que estão fazendo um trabalho forte de captação de recursos, que se comunicam e pedem de várias maneiras (por carta, por e-mail, por telefone, no Instagram e em eventos), que investem em estrutura e estratégia de captação, de forma geral, acabam concentrando boa parte dessas doações, desses recursos. É por isso que, quando a gente viaja pelo País, algumas organizações são muito reconhecidas em todo o mundo, porque fazem um trabalho muito bom de pedir, de mobilizar recursos”, conclui.
Veja os principais estímulos à doação

Fonte: Retrato da Solidariedade 2024/Instituto Pensi / Fundação José Luiz Setúbal (FJLS)
Reforço das desigualdades estruturais
A consultora de incentivos fiscais na Conexões Incentivadas, Gleidi Teixeira, afirma que manter essa estrutura concentrada de doações reforça o desequilíbrio de recursos destinados a trabalhos sociais.
Consequências:
- Concentração em grandes centros urbanos;
- Somente proponentes mais estruturados conseguem acesso aos recursos;
- Doações não chegam às periferias, territórios vulneráveis ou grupos historicamente excluídos.
“Quando o doador não olha para a diversidade territorial, acesso, formação e legado, ele acaba reforçando desigualdades, mesmo acreditando estar ‘fazendo o bem’”, comenta.
Principais dificuldades para doar
- Existem muitos bons projetos, mas poucos estruturados;
- O processo burocrático das leis de incentivo e de renúncia fiscal é complexo;
- Gerar credibilidade exige anos de trabalho, regularidade e transparência;
- Tanto o proponente quanto o captador precisam investir muita energia antes mesmo de captar um recurso.
Por isso, a intermediação técnica e estratégica é fundamental para reduzir riscos e aumentar o impacto.
“Doar bem não é só sobre intenção ou imposto. É sobre responsabilidade, estratégia e compromisso com a transformação social. Quando a doação é bem-feita, especialmente via leis de incentivo à cultura, ela fortalece territórios, amplia acesso e gera legado. Quando é malfeita, pode reforçar desigualdades e desperdiçar oportunidades”, finaliza Teixeira.
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