Especialista defende novo modelo de turismo com foco em impacto social
Mais do que atrair visitantes, o turismo precisa melhorar a vida de quem vive nos destinos. Essa é a premissa que orienta o trabalho da turismóloga Marianne Costa, uma das principais vozes do turismo responsável no País. “O turismo responsável é aquele que torna os destinos melhores para se viver e se visitar. Nessa ordem”, resume.
Idealizadora do 1º Fórum Brasileiro de Turismo Responsável, realizado em março, em Belo Horizonte, Marianne Costa defende um modelo de desenvolvimento turístico que vai além do aumento do fluxo de viajantes. Para ela, a atividade precisa ampliar seus impactos positivos, reduzir os negativos e envolver uma rede de atores que inclui comunidades locais, empreendedores, turistas e poder público.
Formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marianne Costa é fundadora e CEO do Grupo Vivejar, que reúne o Instituto Vivejar e a Vivejar Experiências. Consultora e palestrante, também é cofundadora do Coletivo Muda, Coletivo Brasileiro de Turismo Responsável. Durante o fórum, lançou ainda o livro “Umatalhi, cocriando futuros para o turismo responsável no Brasil”, obra coletiva da qual é uma das autoras e que reúne experiências de empreendedores que transformaram seus negócios em instrumentos de impacto social e ambiental.
Em entrevista ao Diário do Comércio, Marianne Costa avalia o potencial de Minas Gerais nesse movimento, fala da importância da governança para estruturar destinos e observa uma mudança no perfil do viajante, cada vez mais atento ao impacto de suas escolhas. Na conversa, ela também destaca experiências lideradas por mulheres empreendedoras que articulam hospitalidade, cuidado e desenvolvimento local, mostrando como pequenas iniciativas podem gerar transformações mais amplas no turismo brasileiro.
Vamos começar do início. O que é turismo responsável?
No Instituto Vivejar, temos a premissa de que o turismo responsável é aquele que torna os destinos melhores para se viver e se visitar. Nessa ordem. Ou seja, é o turismo, é a atividade que é desenvolvida priorizando tornar esses lugares melhores, olhando, prioritariamente, para as pessoas que estão nesses destinos, para a natureza que existe, para o meio ambiente. Então, o turismo responsável é aquele que assume a responsabilidade por ampliar os impactos positivos do turismo e neutralizar o máximo possível os impactos negativos, porque a gente sabe que toda atividade possui impactos negativos.
O turismo responsável é um pilar do turismo sustentável.
A sustentabilidade é um conceito inatingível. Então, no Instituto Vivejar, a gente trabalha a sustentabilidade como essa luz no fundo do caminho, que a gente está sempre perseguindo. E falar de responsabilidade é dizer que esse caminho não tem fim. Sempre temos mais coisas para fazer, mas não no sentido de desanimar, e sim de se provocar, se estimular. É assim que a gente vai realmente provocar uma mudança sistêmica, senão, nós ficaremos sempre numa esfera muito individual ou de uma empresa, mas o que a gente está buscando é uma mudança sistêmica, de setor. Então eu começo no micro, onde eu sou responsável pelos resultados, e, à medida que eu alcanço esses resultados, a minha responsabilidade aumenta. Ela aumenta, ela cresce para trazer os outros, a comunidade, o poder público, para influenciar realmente o sistema no qual eu estou inserido.
A responsabilidade é o tático, o instrumental dessa estratégia, desse farol que é a sustentabilidade?
É muito bacana você dizer isso, porque a gente fala muito nas nossas ações que a tomada de responsabilidade precisa ser proporcional ao seu tamanho. Então, todo mundo pode tomar responsabilidade. Se eu sou um profissional, um guia de turismo, eu ali sozinho, na minha atividade, eu posso tomar responsabilidade, e ela é proporcional ao meu tamanho, à minha condição, inclusive financeira, à minha realidade. Agora, uma grande empresa tem um outro nível de responsabilidade. O que a gente vê hoje, muitas vezes, são organizações muito pequenas tomando muita responsabilidade e até se frustrando porque gostariam de fazer mais, porque têm muita consciência, mas pouco podem. E vemos grandes empresas tomando pequenas atitudes, só que fazendo um grande alarde, que é onde entra ali aquela palavra em inglês que a gente chama de greenwashing, que é, na tradução literal, lavagem verde.
Então, o que a gente vem buscando é exatamente inverter essa lógica. Jogar luz em quem está fazendo muito com pouco e também apoiar para que essas pessoas realmente monetizem essa tomada de responsabilidade, mostrando que elas são boas, que merecem e podem ganhar dinheiro.
Conseguimos ver, ou pelo menos intuir, o papel das empresas de turismo, mas qual é o papel do turista?
Os empreendimentos sustentáveis no turismo se assemelham muito aos alimentos orgânicos, essa é uma boa analogia. Quando nós, consumidores, buscamos alimentos orgânicos, já vem um pacote de valor agregado que diz que ele faz bem para mim e também faz bem para quem me fornece. É um alimento que vem à nossa mesa com técnicas produtivas mais saudáveis para quem planta, e ele já parte do pressuposto de que o produtor está sendo melhor remunerado, além de ter menos atravessadores. Então, eu vejo o turismo responsável como os orgânicos das viagens, porque são destinos e experiências que fazem bem tanto para quem produz quanto para quem consome. O papel do turista é fundamental, e as tendências têm mostrado isso. Hoje, temos um turista mais consciente, entendendo que o seu dinheiro tem um poder de escolha, então ele quer ver o seu dinheiro sendo revertido para o bem. As pessoas estão buscando experiências onde alguém cuide delas e acelere as conexões. Eu vejo o turista buscando experiências mais responsáveis e sustentáveis. Eu trabalho muito apoiando comunidades tradicionais a estruturar ofertas turísticas. Esse não é um processo simples, ele é coletivo e comunitário.
O Brasil e Minas Gerais são territórios muito pródigos em possibilidades, mas resta saber se isso se traduz ou vai se traduzir em oferta.
Eu acho que, sim, a gente está nesse caminho. Apesar de o turismo ainda ser uma pauta muito cooptada pela política partidária, ao longo dos últimos anos, vejo que a gente teve um avanço muito em função de uma política nacional de regionalização do turismo, que fortaleceu as instâncias de governança. Aqui em Minas, a gente já tinha, inclusive, os circuitos antes da política de regionalização nacional. Fizemos a adequação e esse fortalecimento dos circuitos como governanças. Quando você vai para esse lugar de fazer coisas muito rápidas, para resultados curtos, via de regra, isso não é muito sustentável. O desenvolvimento turístico precisa estar aliado a outras áreas, porque o turismo não se faz sozinho.
A Emater vai lançar uma atualização de um guia de rotas rurais. Veja, é um órgão de fomento à agricultura familiar lançando a atualização de um guia de experiências de turismo rural. Então, isso é a cara do turismo e é um símbolo da tomada de responsabilidade. Nesse sentido, vejo que, em Minas Gerais, temos um potencial gigantesco e estamos trabalhando para isso. Estou aqui agora, então falamos nós, porque sou mineira, e vejo agora esse entendimento de que o turismo não é só o grande volume, os ônibus, as excursões, os grandes eventos. Ele é também, como a gente viu no caso do Carnaval em Belo Horizonte, por exemplo, algo que vem se transformando. O Carnaval que acontece em Belo Horizonte é tradicional e mostra como essa organização, essa gestão da governança de várias áreas, pode se tornar uma experiência turística muito interessante e responsável. O fórum mostrou isso, essa sede dos profissionais de Minas Gerais de se conectarem e de fazerem melhor.
No livro, vocês trazem alguns casos interessantes. Qual você destaca?
Tem duas empreendedoras, e aí eu vou sempre ressaltar as mulheres que fazem o turismo realmente acontecer. Digo que o turismo é muito feminino, porque ele está pautado na hospitalidade, no acolhimento, e esses são valores femininos. A primeira delas é a Camila Gonçalves, que tem uma pousada no município de Presidente Figueiredo, a duas horas de Manaus. E, por causa disso, o local acaba sendo um destino de bate-volta. Então, a Camila Gonçalves olhou para isso e encarou isso como um desafio coletivo. A partir disso, ela teve uma tomada de responsabilidade dentro do empreendimento. Ela teve uma questão de gestão de pessoas, de priorizar contratar mulheres, e atua também na gestão de resíduos. Presidente Figueiredo é um destino que não tem coleta seletiva, então ela opta por não comercializar água engarrafada, porque aquilo era lixo para o destino, e ela fornece água para o hóspede. Ela abre mão de uma renda. Isso é muito difícil de fazer, mas ela faz esse cálculo. E aquilo traz um ganho de imagem, um posicionamento e desperta muito interesse do público dela. Então, ela tem uma série de práticas da porta para dentro, digamos assim, que eu acho que estão muito alinhadas com a pessoa que ela é, e, da porta para fora, ela se envolve diretamente na governança do destino. Presidente Figueiredo sempre foi conhecido como um destino desafiador na parte de política pública, considerado muitas vezes meio abandonado pelo poder público. Eu frequento lá há mais de 15 anos, e é visível a diferença. Hoje, ela é presidente do Conselho Municipal de Turismo. A gente sabe que isso não é fácil, principalmente para uma pequena empresária. É um caso muito inspirador.
Outro caso que eu acho muito bacana é o do Engenho Triunfo, da Maria Júlia Baracho, que é de Areia, no interior da Paraíba. Ela começa, junto com o marido, empreendendo na produção de cachaça. Esse alambique cresce e se torna um dos principais atrativos turísticos da cidade. E aí ela se engaja também nessa governança de como é que vamos diversificar a visitação, trazendo eventos para a cidade, inclusive apoiando a iniciativa pública de captação de recursos, captação de eventos, mobilizando outros empresários. Então, eu vejo que as mulheres empreendedoras no turismo, elas levam o coletivo muito à risca. Elas sabem que não dá para fazer nada sozinhas. São duas empreendedoras que precisam pagar as contas e que tomam responsabilidade pelo coletivo dos seus destinos. Isso, para mim, é muito inspirador.
E essa questão das mulheres está muito ligada à construção social do feminino mesmo. As mulheres vivem compartilhando e cuidando.
Por isso que hoje se fala tanto da economia do cuidado. Há alguns anos, junto com outras profissionais do turismo, criamos um movimento chamado Mulheres do Turismo em Rede. Hoje ele é um grupo no WhatsApp com quase 700 mulheres de todo o Brasil. E eu sempre estou provocando essa pauta. Por que a gente tem tantas mulheres no turismo? Além desses valores femininos, os empreendimentos turísticos permitem que as mulheres exerçam as suas atividades de cuidado. São empreendimentos familiares, onde essas mulheres estão empreendendo, mas também estão cuidando dos seus filhos, cuidando dos seus pais, cuidando dos seus vizinhos.
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