Entre queijos e oliveiras, Alagoa constrói novo ciclo
Aos 1,2 mil metros de altitude, em meio à natureza exuberante da Serra da Mantiqueira, revela-se Alagoa, uma típica cidadezinha do interior mineiro, onde o tempo passa lentamente e o povo trabalha duro, mas sempre encontra um jeito de prosear, oferecer um “cafezim” e um “pedacim” do seu maior tesouro: o queijo.
Uma infinidade de quitandas, claro, acompanha o café, mas a estrela da companhia tem gosto de história. Sem fugir da tradição de presentear o Brasil com os melhores queijos, Alagoa, com menos de 3 mil habitantes, segundo o IBGE, apresenta uma peculiaridade: diferentemente do famoso “Queijo Minas Artesanal” (QMA), feito com leite cru, o queijo de Alagoa é cozido e remonta ao italiano parmesão, sendo classificado como “Queijo Artesanal Mineiro” (QAM). Porém, novas técnicas e um terroir original fazem com que o queijo produzido na cidade seja único no mundo e conquiste os mais refinados paladares.
Foi na Fazenda Entre Morros que a história começou. Hoje capitaneada pelo produtor rural Marcelo Fonseca de Andrade, a propriedade abrigou as primeiras produções no início do século passado.
“A produção de queijo em Alagoa começou há 100 anos, quando o italiano Pascoal Popa, que era sapateiro na Itália, veio para o Brasil e se casou com dona Luiza Altomari, uma professora. Ela foi contratada para dar aulas em Alagoa e, percebendo que não havia muito trabalho para sapateiro na cidade, sugeriu a Pascoal que fizesse queijo. Ele comprou leite dos vizinhos e utilizou uma receita italiana para produzir o queijo. Por muitos anos, o queijo de Alagoa foi chamado de parmesão devido à receita italiana usada por Pascoal Popa, mas existe uma grande diferença no modo de fazer e não existe uma receita como a nossa em nenhum lugar do mundo”, explica Andrade.
O sucesso do queijo entre chefs de cozinha como Alex Atala, Carlos Bertolazzi, Roberta Souza de Bret e Bruno Cabral começou a atrair visitantes para a cidade e hoje a atividade turística ajuda a fixar a população e a desenvolver outros setores da economia.
Segundo o secretário de Cultura e Turismo de Alagoa, César de Oliveira Chaves, o queijo é a mola da economia da cidade. Um em cada 16 habitantes é produtor da iguaria.
“Fomentamos o turismo por meio do IGR (Instância de Governança Regional) e aderimos à Associação das Cidades Históricas. Estamos trabalhando muito para aumentar o turismo em Alagoa e buscamos um investidor do setor de hotelaria”, anuncia Chaves.
Mas foi com o trabalho de Osvaldo Filho, o famoso “Osvaldinho”, que Alagoa ganhou notoriedade, a partir da criação da “venda digital” Queijo d’Alagoa MG, que comercializava queijos pela internet.
“Digo que sou um tropeiro digital. Em 2009, minha mãe pediu que eu ajudasse um pequeno produtor que estava em dificuldades. Ele vendia os queijos para os atravessadores a um preço irrisório e eu precisava fazer alguma coisa. Depois de pensar bastante, resolvi vender queijo pela internet. Parecia uma loucura, a internet aqui ainda era discada. O produto era tão bom que foi dando certo. Vendia principalmente para São Paulo e queria vender em Belo Horizonte também. Foi o Diário do Comércio que abriu as portas quando fui agraciado com o Prêmio José Costa. Quando desci do palco, dei uma entrevista para a Rádio Itatiaia e fiquei conhecido na Capital. Tenho muita gratidão por aquele momento”, relembra o empresário.
Alagoa faz parte do Circuito Turístico Terras Altas da Mantiqueira, junto com Aiuruoca, Bocaina de Minas, Itamonte, Itanhandu, Pouso Alto, São Sebastião do Rio Verde, Serranos e Virgínia.
De acordo com a turismóloga do Circuito, Patrícia Siqueira, depois de um período de reestruturação, o Circuito Terras Altas da Mantiqueira passa por uma fase de expansão.
“Existe um trabalho de estruturação do turismo para que ele seja seguro e responsável e consiga gerar renda para a população e levar as nossas cidades para o mundo”, explica Patrícia Siqueira.
Outra preciosidade da cidade é a produção de azeite. A plantação de oliveiras na Fazenda Cauré reúne oito espécies diferentes que dão origem ao azeite extravirgem Prado & Vasques. Segundo o responsável pela operação, Antônio Dias, normas rigorosíssimas são seguidas para garantir a qualidade do produto.
A produção de azeitonas deve girar em torno de 80 toneladas e a de azeites, em torno de 16 mil litros em 2025. Tanto a fazenda como a fábrica, que também produz azeite de abacate, recebem visitantes mediante agendamento.
“Para um azeite ser considerado extravirgem, além de qualidades físico-químicas, o processo de produção não pode variar. A azeitona colhida não pode encostar no chão em momento algum e deve estar embalada em forma de azeite em, no máximo, 24 horas. Na fábrica, o equipamento passa por uma limpeza criteriosa diária e o acesso é restrito, de acordo com os ambientes”, explica Dias.

Empreendedorismo local impulsiona a gastronomia no Sul de Minas
Famoso por suas águas, laticínios, café e outros produtos, o Sul de Minas é pródigo em uma gastronomia ao mesmo tempo ancestral e sofisticada. Em meio a tantos insumos de qualidade, restaurantes e chefs reinventam pratos, se esmeram em novos sabores e apresentações e recebem com o tradicional aconchego da mineiridade.
Em Passa Quatro, a chef Joana Rocha comanda o Kaporanga. A casa, que começou como um empório, há 10 anos, se transformou em restaurante e hoje ostenta uma coleção de prêmios. A ideia é valorizar os produtos locais com diferentes técnicas a favor de uma gastronomia contemporânea.
“A gente vendia produtos de outras pessoas e eu comecei a fazer algumas quitandas. Logo as pessoas passaram a comprar mais o que eu fazia do que o que vinha de fora e resolvemos montar um café, que logo tinha um grande público. Esses frequentadores começaram a pedir comida e acabamos virando um restaurante”, relembra Joana Rocha.
Na mesma cidade, o restaurante Monjolos tem uma proposta mais tradicional. Capitaneado pelo empresário João Antônio Nogueira Filho, que prefere ser chamado de Joãozinho Lau, o espaço aposta em mesas grandes para receber famílias com porções fartas da tradicional comida mineira. Tudo começou em 2011, quando ele deixou o curso de Direito e voltou para Passa Quatro.
“Ninguém me apoiou porque a agricultura estava em declínio na região. Meu pai me deu os piores trabalhos na fazenda e durante um ano eu me dediquei para provar que merecia morar aqui. Depois disso, montei a Queijaria Santo Antônio com um portfólio de produtos de fermentação natural e leite cru. A partir de 2017, comecei a receber turistas e as pessoas queriam almoçar na fazenda. Assim surgiu o Monjolos. No início, focamos na cozinha caipira da nossa região, com a galinha caipira, o leitão, a abóbora, que são ingredientes mais regionais. Agora, numa segunda fase, olhamos para os ingredientes da minha queijaria, para todo o território caipira e começamos a trazer elementos de fora. O nosso peixe de rio, por exemplo, é um surubim de pesca de anzol que eu fui buscar em Cana Brava, no Norte de Minas”, destaca Joãozinho Lau.
Na vizinha Alagoa, o show fica por conta do chef Rodrigo Inácio, no restaurante Dona Inês. Entre maravilhas da culinária mineira, cozinhar dentro de um queijo de 15 quilos é a especialidade da casa. Em um verdadeiro espetáculo que atrai turistas de todo o País, ele vai somando ingredientes como bacon, cebolinha, uísque e mel e criando um prato único, servido a cada um dos convidados. Segundo ele, o grande diferencial é o premiado Queijo de Alagoa.
“Começamos de uma forma muito simples e fomos aprimorando a receita. No início, por exemplo, não tinha o mel, que foi sugestão de um cliente. O macarrão na panela de queijo mudou a minha vida. Já tive aqui um cliente que veio de carro de São Paulo só para experimentar o macarrão. Isso é muito gratificante”, comemora Inácio.
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