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Turismo de base local impulsiona economia em Passa Quatro

Com natureza preservada, memória ferroviária e pequenos negócios, Passa Quatro estrutura o turismo como estratégia de desenvolvimento local
Turismo de base local impulsiona economia em Passa Quatro
Passa Quatro está localizada na Serra da Mantiqueira, no Sul de Minas | Foto: Reprodução Adobe Stock

No deslumbrante lado mineiro da Serra da Mantiqueira, no Sul de Minas, duas cidades oferecem história, natureza preservada, gastronomia e a típica hospitalidade mineira, baseada em sabores únicos e em uma conversa recheada de incontáveis “causos”. Passa Quatro e Alagoa, separadas por pouco mais de 60 quilômetros, pelas rodovias BR-381 e LMG-881, são cidades típicas do interior mineiro, com ruas limpas e casario preservado. Descobrindo o turismo como vetor de crescimento socioeconômico, ambas estão fortalecendo a estrutura para receber bem os turistas e abrigar empreendimentos privados. São, principalmente, os pequenos negócios os responsáveis por acolher os visitantes e mostrar a alma mineira.

Com quase 16 mil habitantes, segundo projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2025, Passa Quatro faz parte do Circuito das Águas, junto com Baependi, Cambuquira, Campanha, Carmo de Minas, Caxambu, Conceição do Rio Verde, Cruzília, Dom Viçoso, Jesuânia, Lambari, Olímpio Noronha, São Lourenço, Soledade de Minas e Três Corações.

Entre os muitos atrativos, a cidade guarda no passeio de trem, talvez, a sua maior preciosidade, aquela que afaga de maneira especial o coração dos mineiros. O chamado “Trem da Serra da Mantiqueira” é operado pela Regional Sul de Minas da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF) e funciona nos fins de semana e feriados. Ele parte da estação central de Passa Quatro, construída em 1884, e segue em direção à Estação Coronel Fulgêncio, no alto da Serra, próxima ao Grande Túnel, na divisa entre os estados de São Paulo e Minas Gerais, totalizando 20 quilômetros (ida e volta). Durante o trajeto, um violeiro vai animando ainda mais o passeio.

Trem da Serra da Mantiqueira
Turistas embarcam no Trem da Serra da Mantiqueira, passeio histórico operado pela ABPF | Foto: Diário do Comércio / Daniela Maciel

Na estação Manacá, é feita uma breve parada em que os turistas podem visitar uma feira de artesanato e guloseimas, enquanto a locomotiva é preparada para a subida da serra. Seguindo a viagem, o trem passa pelas corredeiras do Manacá e pela ponte Estrela.

A segunda parada é na estação Coronel Fulgêncio. No local, os passageiros podem conhecer a exposição fotográfica de minisséries filmadas ali, Mad Maria e JK, ambas da Rede Globo, fotos de máquinas e carros recuperados pela ABPF, além de registros da Revolução Constitucionalista de 1932. Após uma caminhada de cerca de 200 metros, é oferecido um passeio cortesia ao túnel, onde aconteceram batalhas intensas e sangrentas durante a Revolução.

O local foi um dos principais focos de combate entre as tropas paulistas, contrárias a Getúlio Vargas, e as forças federais e mineiras. A região estratégica do túnel foi palco de combates em trincheiras, com elevado número de mortos, e marcou um ponto crucial no conflito, com os paulistas buscando impedir o avanço federal e as forças federais tentando tomar a passagem que ligava São Paulo a Minas Gerais e ao Rio de Janeiro. Foi ali também que o governador de Minas Gerais, Benedito Valadares, conheceu um jovem médico e o convenceu a entrar para a política. Começava, então, a carreira do futuro presidente Juscelino Kubitschek.

Igreja Matriz de Passa Quatro
Igreja Matriz de Passa Quatro, um dos marcos históricos da cidade | Foto: Diário do Comércio / Daniela Maciel

De acordo com o secretário de Cultura e Turismo de Passa Quatro, Fabrício Cartier, a cidade tem duas temporadas turísticas. No início do inverno, a Semana Santa é o grande acontecimento, rememorando a tradição católica do município, herança da Coroa portuguesa. Como o município fica dentro do Maciço da Serra Fina, recebe muitos campistas que vão para fazer a travessia Itaguaré-Marins, a travessia da Serra Fina, visitar a Pedra da Mina e o Pico Campo do Muro.

“Em maio do ano que vem, estamos planejando um festival de cinema e, em junho, mais uma vez teremos as festas juninas. Em julho, temos o nosso tradicional Festival Gastronômico. Em 2025, o tema foi a ‘cozinha caipira’, baseada no porco e no milho. Em 2026, será ‘comida de vó’, a casa de vó que nos abraça e acolhe. Em agosto, temos uma das maiores corridas da América Latina, a La Mission, quando a cidade recebe, em média, 10 mil atletas e acompanhantes vindos do mundo inteiro. Depois, entramos numa pequena vacância e voltamos para a temporada de verão. Nesse período, temos visitas às cachoeiras, às trilhas e acampamentos nas montanhas”, explica Cartier.

Crédito: Imagem gerada com apoio de IA

Floresta Nacional de Passa Quatro, um espaço de preservação e encontro

Entre a natureza, um espaço tem uma missão especial: a Floresta Nacional (Flona) de Passa Quatro. Criada na década de 1940, é um espaço que reúne turistas e moradores para atividades ao ar livre ou para a simples contemplação. A área de 3,5 milhões de m² integra o Corredor Ecológico da Serra da Mantiqueira e o Mosaico de Unidades de Conservação da Serra da Mantiqueira. A Floresta abriga um importante fragmento florestal remanescente desse bioma, além de monocultivos de araucária, pinus e eucalipto.

Ideal para recreação ao ar livre e atividades educativas voltadas à conscientização ambiental e à conservação dos recursos hídricos e da diversidade biológica, tem como principal atrativo a Cachoeira de Iporã. Além dela, a área possui dois lagos ornamentais, praças, jardins, quiosques, capela, parque infantil, fonte de água potável, bosque sensorial e restaurante. A unidade também possui um viveiro de produção de espécies florestais.

No Centro Histórico de Passa Quatro, entre praças e jardins ornamentados por artistas locais, que contam histórias de heróis e personagens típicos da cidade, a artesã e empresária Teresa Maria da Costa foi pioneira, há cerca de 20 anos, ao montar a loja de artesanato Minas de Minas, hoje frequentada principalmente por paulistas e fluminenses.

“Antes, eu vendia roupa em Poços de Caldas, no Sul de Minas, e sempre fui apaixonada por artesanato. Quando vim morar aqui, a cidade não tinha nenhuma loja de artesanato. A ideia era vender artesanato local, mas, como são poucos produtores e estamos dentro da Estrada Real, resolvemos fazer uma curadoria de artesanato desse caminho, que vai de Diamantina até aqui. Três ou quatro vezes por ano, eu viajo para trazer coisas diferentes”, afirma Teresa Maria da Costa.

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