Projeto Estação resgata histórias ao longo da Estrada de Ferro Vitória a Minas
Com mais de um século de história, a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) passa a ser revisitada sob novas perspectivas. Até 2028, o Projeto Estação vai percorrer os 905 quilômetros da ferrovia que liga Minas Gerais ao Espírito Santo, com o objetivo de ressignificar memórias, histórias e personagens das comunidades que se desenvolveram ao longo dos trilhos.
A iniciativa aposta na fotografia e no audiovisual como ferramentas de preservação da memória ferroviária, reunindo relatos de moradores, ex-ferroviários e jovens que vivem no entorno das estações. O projeto é realizado pela Horus Planejamento e Gestão, com apoio da Vale e da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
Em menos de um ano, o Projeto Estação mobilizou 80 jovens, entre 16 e 25 anos, que participaram de mais de 190 horas de formação artística. Os participantes redescobriram histórias locais, paisagens, marcos arquitetônicos e personagens anônimos que ajudaram a construir a trajetória ferroviária no Sudeste do País.

Ações nos municípios e resultados do primeiro ciclo
No primeiro ciclo da ação, foram contemplados municípios como Belo Horizonte, Barão de Cocais, Rio Piracicaba, João Monlevade, Itabira, Nova Era e Antônio Dias, totalizando um percurso de 172 quilômetros. Paralelamente, a equipe percorreu outros 44 pontos ao longo da ferrovia em Minas Gerais, ampliando o mapeamento cultural do território.
O trabalho resultou na produção de 240 fotografias, captadas por meio de smartphones, e em oito obras audiovisuais, que deram origem a sete instalações artísticas a céu aberto. As intervenções passaram a integrar o cotidiano de escolas, praças, palcos e estações ferroviárias, transformando a paisagem urbana e aproximando a população de sua própria história.
Entre os espaços ocupados estão:
- o interior da Estação Ferroviária, no Centro de Belo Horizonte;
- escolas estaduais e municipais;
- praças públicas e muros urbanos em cidades como Barão de Cocais, onde a arte passou a dialogar diretamente com o ambiente ferroviário.
Preservação da memória ferroviária e próximos passos
Para o coordenador-geral e idealizador do projeto, Preto Filho, a proposta vai além do registro documental. “A extensão férrea se tornou um ponto de conexão e de partida entre arte, território, memória e patrimônio imaterial. Além de dar voz às comunidades no entorno ferroviário, o projeto é uma das maneiras de incentivar o jovem em suas sensibilidades, em seu olhar para o mundo e também no universo das artes, de maneira totalmente gratuita”, afirma.
A visão de que a ferrovia extrapola a infraestrutura física é compartilhada pela ANTT. Para o diretor-geral do órgão, Guilherme Theo Sampaio, preservar a memória ferroviária é parte essencial de um transporte mais humano e integrado.
“A preservação da memória ferroviária é parte fundamental do compromisso da ANTT com um transporte mais humano, integrado e conectado às realidades locais. O Projeto Estação mostra que a ferrovia não é apenas infraestrutura — ela é território vivo, onde histórias, afetos e identidades se encontram. Ver comunidades transformarem sua própria memória em arte reforça nosso papel de garantir que o desenvolvimento do setor caminhe junto com a valorização cultural e social dos territórios que atravessamos”, destaca.
Ao longo do trajeto entre Belo Horizonte e o Porto de Tubarão, em Vitória (ES), a EFVM transporta cerca de três mil passageiros por dia e já superou a marca de oito milhões de usuários na última década. Nesse fluxo cotidiano, o Projeto Estação deu visibilidade a histórias reais de trabalhadores e moradores que ajudaram a construir a ferrovia, como ex-maquinistas, agentes de estação e ferroviários aposentados.
Um desses personagens é Agostinho dos Santos, que dedicou quase três décadas à EFVM. “Eu praticamente vivi dentro dos trens. Quando vejo o trem passando hoje, sinto saudade dos colegas, das paisagens e dos lugares onde trabalhei”, relata.

Perfil dos participantes
Outro ponto de destaque do projeto é o perfil diverso dos participantes. Dados de 2025 mostram que 69% das inscrições foram feitas por mulheres e 67% dos interessados se autodeclararam negros, reforçando o papel do Estação como instrumento de inclusão e democratização do acesso à arte.
Além das exposições físicas, o projeto lançou uma galeria virtual, ampliando o alcance das produções. Em Belo Horizonte, a mostra realizada no Espaço Cultural da Escola de Design da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) integrou o Circuito Liberdade, reunindo 72 fotografias e oito obras audiovisuais.
A exposição contou com a presença de nomes da fotografia, do audiovisual e da antropologia, que destacaram a importância da arte na preservação da memória e na reconfiguração dos espaços urbanos.
Até 2028, a expectativa é que o Projeto Estação passe por mais 23 comunidades ao longo do eixo Vitória–Minas, ampliando o registro de histórias, afetos e patrimônios culturais de mineiros e capixabas que fazem da ferrovia parte de sua vida cotidiana.
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