Desvantagem tarifária do Brasil salta quase 7 pontos com novas sobretaxas dos EUA
São Paulo – A desvantagem da tarifa paga por produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos em relação aos seus principais concorrentes cresceu de apenas 0,8 ponto percentual, antes da rodada mais recente de taxações, para 7,5 pontos percentuais.
Esse salto coloca o Brasil como o segundo colocado no ranking de países com pior acesso ao mercado americano, atrás apenas da China, mostra cálculo do economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale.
A conta foi feita com base no volume de produtos exportados pelo Brasil aos EUA em 2024 e na alíquota paga por cada um deles, descontando-se as reduções ou isenções concedidas pelos americanos, para chegar à tarifa média que é efetivamente paga pelos bens brasileiros.
No final do mês passado, entraram em vigor novas tarifas de 25% impostas pelo presidente americano, Donald Trump, que são exclusivas aos produtos brasileiros e aplicadas com base em investigação em torno de práticas comerciais consideradas injustas.
Passaram a valer também alíquotas entre 10% a 12,5% aplicadas a diversos países, incluindo o Brasil, por acusações de negligência nas importações de bens feitos com trabalho forçado. Na prática, elas substituíram as tarifas de 10% impostas pelos EUA ao mundo, que expiraram no mês passado.
Antes dessas novas sobretaxas, a taxa efetiva média brasileira era de 10,3%, ante 9,5% dos concorrentes. Depois delas, a tarifa brasileira aumentou a 16,6%, enquanto no caso dos outros países a sobretaxa efetiva média se reduziu a 9,1%.
“A tarifa que entrou no lugar da sobretaxa global de 10% tem isenções tão amplas que dois terços do comércio mundial ficaram de fora. Para quase todos os países, a troca foi um alívio. Para o Brasil não, porque carregamos em cima uma tarifa exclusiva de 25%”, diz Vale.
O governo Lula estima que 47,3% das exportações brasileiras hoje são atingidas pelas tarifas de Trump, considerando as rodadas recentes e a sobretaxa aplicada ao aço e ao alumínio em 2025.
“O Brasil ficou numa situação bem pior do que os outros países, não só pelo aumento da tarifa nominal, mas também quando se considera a tarifa efetiva, que pondera o volume de comércio com os EUA”, diz Constanza Negri Biasutti, gerente de política comercial da Confederação Nacional da Indústria (CNI). “A situação é crítica e preocupa muito a indústria.”
A tendência é que as tarifas mais altas tirem competitividade do Brasil no mercado consumidor da maior economia do mundo, afirma o economista da MB Associados. “Esse aprofundamento da diferença entre as tarifas efetivas do Brasil e dos concorrentes significa que o comprador americano tem 7,5 pontos de incentivo para trocar o fornecedor brasileiro”, diz.
Com base nos efeitos da tarifa de 50% ao Brasil que vigorou no ano passado, Vale estima que as exportações aos EUA podem cair entre US$ 1,7 bilhão e US$ 3,6 bilhões no primeiro ano, em um efeito que deve se intensificar à medida que o importador americano for revendo contratos e fechando novos com fornecedores alternativos.
No ano passado, o Brasil exportou US$ 37,6 bilhões aos americanos, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), uma queda de 6,7% ante 2024.
No limite, diz Vale, a perda anual pode chegar a US$ 10 bilhões daqui a quatro anos. “O Brasil teve um experimento quase de laboratório, porque a tarifa de 50% do ano passado atingiu parte dos produtos e poupou outra parte, e deu para comparar os dois grupos. O efeito no primeiro ano foi uma queda de cerca de 13% nas exportações atingidas.”
Ele aponta ainda que, quatro meses depois de a Justiça americana derrubar a tarifa de 2025, em fevereiro deste ano, o grupo que tinha sido tarifado ainda vendia 28% a menos do que os isentos.
“Ou seja, mercado perdido não volta sozinho”, diz Vale, para quem há risco de efeito prolongado do choque no comércio com os EUA. “O comprador pode olhar o exportador brasileiro com desconfiança, por temer que seja tarifado novamente. Essa incerteza é mortal para o comércio que, no caso da indústria, depende de contratos mais longos.”
Welber Barral, sócio do Barral Parente Pinheiro Advogados e ex-secretário de comércio exterior, lembra que as exportações para os EUA já vêm em queda desde o ano passado. No caso de muitos produtos, diz, houve diversificação das vendas a outros países, o que ajudou a amortecer o choque.
Barral afirma que há dois tipos de exportadores mais prejudicados pelo novo tarifaço.
“Um é o de commodities industriais, como produtos químicos, onde a margem é muito pequena e esses 7 pontos de desvantagem fazem bastante diferença”, aponta. “O outro tipo são os setores em que há muita concorrência estrangeira, como móveis, calçados, têxteis e confecções, onde a concorrência no mercado americano já é muito difícil por causa da competição com países asiáticos.”
Os especialistas explicam que a chance de diversificar mercados como reação às tarifas varia muito de acordo com o tipo de produto exportado. “O produto pesado e padronizado, como pedras, madeira, açúcar e sebo, perdeu volume rapidamente com as tarifas, mas também é mais fácil de redirecionar para outros mercados”, afirma Vale.
Por outro lado, produtos manufaturados de elevado valor, como máquinas, correm um risco no médio prazo, já que os contratos são de longa duração.
“As exportações de máquinas de alto valor quase não se moveram no primeiro ano do tarifaço, porque estão presas a contratos e homologação. Mas são justamente elas que não têm para onde ir se esse regime tarifário durar”, exemplifica o economista da MB Associados.
Lia Valls, pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV, aponta que as pequenas e médias empresas são as mais afetadas pela perda de competitividade brasileira.
“O comércio exterior é extremamente competitivo. Se você é uma grande empresa, uma multinacional global, já está em vários mercados, é mais fácil diversificar. Para as pequenas e médias, o custo para direcionar o produto para outros mercados é mais alto.”
Reportagem distribuída pela Folhapress
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