Agronegócio

Expansão das torrefadoras reforça protagonismo de MG como produtor de café especial

Estado concentra quase 900 negócios de torrefação e moagem, fortalecendo a identidade regional
Expansão das torrefadoras reforça protagonismo de MG como produtor de café especial
Produtora Luiza Lacerda / Foto: Arquivo pessoal

Minas Gerais, maior produtor de café do Brasil, também vem se consolidando como referência nacional na etapa que transforma o grão em experiência sensorial: a torrefação. Em dezembro de 2025, o Estado chegou a 890 negócios ligados à torrefação e moagem de café, 27 empreendimentos a mais do que o registrado em agosto, segundo dados da Receita Federal.

Do total, 746 são microempresas, 144 empresas de pequeno porte (EPP) e 122 estão enquadradas em outros regimes empresariais, o que evidencia o peso das pequenas estruturas no fortalecimento da cadeia cafeeira mineira.

A maior concentração das torrefadoras está no Sul de Minas e na Zona da Mata, regiões que reúnem diferentes origens produtoras e que vêm se destacando não apenas pela produção de grãos, mas também pela capacidade de agregar valor ao café por meio da torra, da identidade e da venda direta ao consumidor.

Ao aquecer grãos verdes (crus) em altas temperaturas, a torra desenvolve aromas e sabores, criando identidade para o produto. Para o produtor, o investimento se traduz em maior valor agregado e renda no campo.

Mudança no padrão de consumo

Para a analista da Unidade de Agronegócios do Sebrae Minas Danielle Fontini, o crescimento das microtorrefações é estratégico para a disseminação dos cafés especiais e para a mudança no padrão de consumo. “O Sebrae atua na promoção das regiões produtoras e isso contribui para que as torrefações descubram cafés diferentes. Muitas trabalham com marcas próprias, mas há também aquelas que oferecem cafés de várias regiões de Minas e do Brasil, permitindo que o consumidor conheça diferentes perfis e origens”, explica, destacando que o trabalho às regiões produtoras inclui aspectos como identidade, origem, qualidade, rastreabilidade e mercado.

“Na indústria, a busca é por volume e padronização. Já nas microtorrefações, o foco está na singularidade, no sensorial, em cafés diferentes dos demais”, destaca Danielle.

Esse movimento também é visto como uma forma de fortalecimento da renda no campo. Para o coordenador estadual de cafeicultura da Emater-MG, Bernardino Cangussu, a expansão das microtorrefações representa um avanço importante para a sustentabilidade da cafeicultura. “Quando o produtor passa a torrar o próprio café, ele deixa de vender apenas matéria-prima e passa a controlar uma etapa fundamental da cadeia, que é a agregação de valor. Isso aumenta a renda, reduz a dependência do mercado de commodity e aproxima o produtor do consumidor final”, afirma.

Segundo Cangussu, além do ganho econômico, há um impacto direto na valorização da identidade regional. “O café passa a chegar ao mercado com informação sobre origem, manejo e qualidade, o que fortalece as regiões produtoras e atende a um consumidor cada vez mais interessado em saber o que está consumindo”, completa.

Novas gerações investem em agregar valor ao produto

Essa lógica está presente na trajetória da produtora Adriania Santos, responsável por uma microtorrefação em Sete Lagoas, inaugurada em 2022. A produção familiar de café arábica está localizada no Sítio Benedito, a cerca de seis quilômetros de São João do Manhuaçu, na região das Matas de Minas, em altitudes que variam entre 900 e 1.200 metros, condição que favorece a qualidade dos grãos.

Após o falecimento do pai, Adriania decidiu que não venderia a propriedade da família. Permanecer na atividade, no entanto, exigiu uma mudança de estratégia, diante dos altos custos operacionais da lavoura. A alternativa foi ir além do mercado de commodity e investir na torrefação e na venda direta ao consumidor. “Café é feito de histórias”, resume a produtora. Para ela, o consumidor atual quer saber como o café foi plantado, quem produziu e o que está bebendo.

A produtora Adriania Santos investiu na criação de uma torrefadora /Foto: Arquivo pessoal

No Sul de Minas, a produtora Ilma Rosa Franco investe no segmento de microtorrefação há oito anos. Filha da quinta geração de cafeicultores, ela está à frente do Sítio Terra Nova, em Campestre, no Sul de Minas.

“Percebi que poderia ser um bom negócio, porque muitas pessoas pediam para eu torrar o café. Consegui agregar uma média de 50% de valor ao produto e ter controle total sobre a qualidade do café, do plantio à xícara”, explica.

Em uma propriedade de 68 hectares, Ilma produz cerca de 600 sacas por ano, das quais 120 são comercializadas como café especial, com pontuação acima de 80 pontos, conforme os critérios da Specialty Coffee Association (SCA). A venda do Café Rosa Franco ocorre por meio de WhatsApp, Instagram e em cafeterias.

Ilma Franco produz cerca de 600 sacas por ano, das quais 120 são comercializadas como café especial /Foto: Arquivo pessoal

Torrefação amplia renda e fortalece a autonomia dos produtores

A busca por maior autonomia e rentabilidade também motivou o investimento da produtora Luiza Lacerda na torrefação. “A ideia surgiu de aumentar a nossa renda tentando chegar ao consumidor final, no intuito de agregar valor ao produto e gerar mais empregos dentro do próprio sítio”, afirma. O principal desafio, segundo ela, foi o alto custo dos equipamentos, como torradores e moinhos.

O café produzido pela família vem da Forquilha do Rio, na região do Caparaó, reconhecida nacionalmente como origem de produtores premiados. Livre de agrotóxicos, cultivado por agricultura familiar e com mais de cinco títulos nacionais, o produto se diferencia pela origem e pela história.

Atualmente, a comercialização ocorre por meio de redes sociais, site e loja física, com cafeteria própria. As vendas crescem entre 20% e 30% ao ano, refletindo o aumento do faturamento. Para o futuro, a meta é lançar clubes de assinatura e ampliar a venda de cafés torrados, com o objetivo de que 70% da safra seja comercializada já beneficiada.

Esse cenário acompanha uma mudança clara no comportamento do consumidor. Para o diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Celírio Inácio, a procura por cafés especiais está em expansão. “Café não é tudo igual. Ele possui notas sensoriais diferentes e o consumidor está cada vez mais atento a isso”, afirma. Celírio destaca ainda o peso de Minas no cenário global: “Se Minas Gerais fosse um país, seria o maior produtor de café arábica do mundo”.

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