Agronegócio

Desafios e oportunidades: o impacto do acordo Mercosul-UE nos queijos, azeites e vinhos de Minas

Abertura do mercado europeu amplia a concorrência para vinho, azeite e queijo artesanal, enquanto produtores mineiros defendem ajustes regulatórios
Desafios e oportunidades: o impacto do acordo Mercosul-UE nos queijos, azeites e vinhos de Minas
Crédito: Divulgação Wagner Pena

Com o vislumbre da assinatura definitiva do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia, que acontece neste sábado (17), o ambiente para cadeias tradicionais e emergentes do agro mineiro começa a se redesenhar. No caso de produtos como queijo artesanal, vinho e azeite, o entendimento das entidades dos setores é que a abertura do mercado amplia a concorrência no curto prazo, mas também impõe um processo de adaptação que pode fortalecer a produção local, desde que acompanhado de ajustes regulatórios, sanitários e estruturais.

Para o presidente da Associação Mineira do Queijo Artesanal (Amiqueijo), José Ricardo Ozólio, o acordo deve ser encarado como um estímulo à organização do setor, e não como uma ameaça. Segundo ele, a entrada de queijos europeus no mercado brasileiro tende a ampliar a comparação direta com o produto mineiro. “Não devemos ter medo, mas encarar esse cenário como uma provocação para melhorar nossas relações comerciais e a forma de trabalhar. É algo que vai acontecer e precisamos estar preparados para fazer com que o nosso queijo artesanal passe à frente desse queijo europeu”, afirma.

Na avaliação de Ozólio, a principal resposta está na profissionalização da atividade e na revisão da legislação aplicada ao queijo artesanal. Ele aponta que a forma de produção europeia é distinta da realidade mineira e o diferencial do produto local pode ser reforçado. “É uma oportunidade para melhorar a legislação, reduzir custos, desenvolver a habilidade empresarial e valorizar mais o nosso queijo. Quando o consumidor tiver na mesa um queijo francês, um italiano, um português e um bom queijo mineiro, ele vai perceber a diferença”, ressalta.

Apesar da expectativa de maior visibilidade, o presidente da Amiqueijo destaca que a escala segue como um limite estrutural. Segundo ele, por se tratar de um produto artesanal, a capacidade de ampliação da produção é restrita. Além disso, há entraves sanitários que ainda impedem o acesso pleno ao mercado europeu. “Hoje ainda temos barreiras como tuberculose e brucelose. É preciso uma política de Estado para superar esses desafios e permitir que o nosso queijo também chegue lá com tarifa zero”, afirma.

Os azeites brasileiros

No setor de azeites, o impacto do acordo ainda é avaliado como indireto. Para o presidente da Associação dos Olivicultores dos Contrafortes da Mantiqueira (Assolive), Renato Pita Maciel de Moura, a produção brasileira ainda não tem escala para competir com o azeite europeu, nem no mercado interno, nem no externo. Segundo ele, o azeite nacional representa menos de 1% do consumo brasileiro e é absorvido integralmente pelo mercado doméstico. “Em termos de volume, não competimos com o importado. Por outro lado, a nossa produção é de qualidade superior aos azeites que normalmente chegam ao Brasil”, afirma.

Moura ressalta que a eventual redução da tarifa, hoje em torno de 10%, não altera de forma relevante o cenário do setor. Ele avalia que a possibilidade de exportação para a Europa ainda é distante e restrita a casos pontuais. “Não é uma questão só de tarifa. A produção é muito pequena e não há, hoje, um debate efetivo sobre exportação de azeite brasileiro para a Europa”, diz.

Expectativa da região da Mantiqueira para atual safra é de produção de cerca de 60 mil litros de azeite, maior que a de 2023 |
Foto: Divulgação / Maria Eduarda Rocha Antônio

O principal reflexo do acordo, segundo o dirigente, pode ocorrer na importação de equipamentos. Ele aponta que a indústria europeia, especialmente a italiana, é mais avançada na fabricação de máquinas para extração de azeite. “Isso pode aumentar a concorrência em termos de preço e facilitar a instalação de lagares com tecnologia mais eficiente e custo menor. Esse tende a ser o impacto mais relevante para a indústria brasileira”, avalia.

O presidente da Assolive também destaca que a olivicultura nacional ainda enfrenta desafios agronômicos significativos. Segundo ele, a oliveira não é plenamente adaptada ao clima brasileiro, o que afeta a produtividade. “Em 2025, por exemplo, a produção no Sudeste foi próxima de zero devido à falta de frio adequado na florada de 2024. A atividade ainda está engatinhando. O avanço passa por pesquisa, desenvolvimento de variedades mais adaptadas e manejo adequado. As pesquisas europeias pouco se aplicam ao nosso clima”, afirma.

Os vinhos

Já no setor vitivinícola, a avaliação é mais cautelosa. A vice-presidente da Associação dos Produtores de Uva e Vinho de Minas Gerais (UVA-MG), Elcy Caldas, aponta que a entrada facilitada dos vinhos europeus amplia as desvantagens competitivas enfrentadas pelos produtores mineiros. Segundo ela, a técnica da dupla poda, adotada no Estado, exige dois ciclos da vinha para uma única safra, o que eleva os custos de produção. “Esse modelo torna o cenário especialmente desafiador para os produtores mineiros”, afirma.

Elcy destaca que a produção brasileira ocorre em condições desiguais em relação à europeia. Enquanto países como Itália, Espanha e Portugal tratam o vinho como alimento ou patrimônio cultural e contam com subsídios, Minas Gerais enfrenta carga tributária elevada e é o único Estado que adota o regime de substituição tributária para o vinho. Segundo ela, os efeitos do acordo se estendem por toda a cadeia produtiva, com impacto direto sobre a agricultura familiar e o enoturismo, que funciona como motor da atividade no Estado.

Foto: Wenderson Araujo / Trilux

Para a dirigente, a redução gradual da tarifa de importação, de 27% para zero em até 12 anos, altera de forma significativa o ambiente competitivo. Ela avalia que o avanço do acordo não pode ocorrer de forma isolada. “É urgente que o governo brasileiro e o governo de Minas Gerais adotem políticas públicas estruturantes, com revisão da carga tributária e apoio à competitividade, para garantir que o vinho mineiro continue a prosperar”, afirma.

Na leitura de Elcy, o período de transição previsto no acordo não deve ser visto como prazo de espera, mas como uma fase crítica de transformação estrutural. Segundo ela, a estratégia passa por revisão tributária, fortalecimento da identidade do vinho mineiro e equiparação legislativa, com o reconhecimento do vinho nacional como alimento ou patrimônio cultural. “Essa equiparação é fundamental para garantir acesso a subsídios e políticas de incentivo semelhantes às que os produtores europeus já possuem”, afirma.

Apesar dos desafios, a vice-presidente da UVA-MG avalia que a infraestrutura das vinícolas não é hoje o principal gargalo. Segundo ela, o vinho mineiro já está consolidado e reconhecido pela qualidade. O ponto central, afirma, é criar condições para que o setor consiga competir em maior igualdade diante da concorrência europeia, aproveitando a janela de adaptação aberta pelo acordo.

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