Agronegócio

Importações mantêm pressão sobre pecuária leiteira

A importação de leite da Argentina e do Uruguai vem pressionando o preço para baixo
Importações mantêm pressão sobre pecuária leiteira
Minas Gerais é o maior produtor do País e detém 27,3% de toda a produção nacional | Foto: Divulgação Eduardo Seidl

Prejudicados pela alta importação de leite do Mercosul, produtores brasileiros continuam sob pressão. Leite em pó da Argentina e do Uruguai continuam chegando ao Brasil a preços abaixo do praticado no mercado interno de cada país, segundo as entidades. Representantes do setor devem se reunir com o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), Geraldo Alckmin, na primeira semana de fevereiro.

Entre as exigências a serem feitas, está uma maior celeridade na adoção de medidas antidumping e até ações provisórias até que seja encerrada a investigação da prática exercida pelos dois países vizinhos . O setor alega que as medidas vêm inviabilizando o negócio, segundo o presidente da Comissão Técnica de Pecuária de Leite da Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais (Faemg), Jônadan Ma.

“Nós estamos esperando uma medida do governo que é a aplicação imediata dos direitos provisórios (contra dumping) até que se encerre a investigação do processo. É preciso impor uma taxa ao produto importado para que ele não entre em competição com o leite nacional de forma desequilibrada”, afirmou o presidente da comissão da Faemg.

O cenário foi novamente debatido em uma live realizada pelo Sistema Faemg Senar nesta segunda-feira (26), que reuniu produtores, sindicatos, cooperativas, Sistema CNA, lideranças políticas e técnicos do setor. O encontro teve como foco a discussão de soluções e a busca por caminhos para reduzir os impactos das importações sobre a cadeia leiteira.

O problema se arrasta desde meados de 2022, quando houve aumento da importação de produtos lácteos pelo Brasil, principalmente leite em pó e muçarela de produtores argentinos e uruguaios. Em 2025, conforme informações da Faemg, o Brasil importou 2,1 bilhões de litros de derivados lácteos, sendo que a quase totalidade veio da Argentina (62%) e Uruguai (27%).

“Isso vem tornando inviável, totalmente deficitária a produção de leite por parte dos produtores, principalmente pequenos e médios, e até os grandes estão sofrendo. Nós estamos tendo uma grande importação de leite em pó do Mercosul. Em 2025, foram 2,14 bilhões de litros de leite (importado), isso equivale a uma entrada diária de 6 milhões de litros. É uma entrada totalmente fora do normal, correspondendo a praticamente 9% da produção nacional”, apontou Ma.

Preços baixos

O grande volume de importações ajudou a pressionar os preços para baixo. Jônadan Ma afirma que, atualmente, o litro foi comercializado pelos produtores mineiros a R$ 1,30 e que o preço de produção está entre R$ 1,90 e R$ 2,30. Este é o 10º mês seguido de queda no valor do preço do leite, aponta a Faemg.

No último Boletim do Leite, publicado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), divulgado agora em janeiro, o preço médio do leite cru – em novembro de 2025 – em Minas era de R$ 2,18 e, no Brasil, era de R$ 2,11. Isso representou o menor valor para o período desde 2021.

“Os produtores estão desanimando, saindo da atividade. Muitos rebanhos estão sendo liquidados e isso torna o Brasil menos competitivo e fragiliza a segurança alimentar”, disse Jônadan Ma.

Ele pontua que, frente ao cenário, os produtores de leite do Brasil vêm buscando aumentar a eficiência produtiva, melhorando a tecnologia, a genética e a alimentação do gado; capacitação e treinamento de mão de obra

Dados de 2024 apontam que o Brasil produziu 35,7 bilhões de litros, segundo a Faemg. Deste total, 9,7 bilhões de litros foram produzidos em Minas Gerais, o que equivale a 27,3% da produção nacional. O resultado coloca o Estado como maior produtor leiteiro do País.

Governo anuncia compra de mais de R$ 100 mi em leite em pó

No fim do ano passado, o governo federal afirmou, por meio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que como uma medida emergencial e para apoiar os pequenos produtores, irá comprar R$ 106 milhões de leite em pó. O produto deverá ser destinado a programas de segurança, como Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), para alimentar creches, escolas e centros sociais.

A medida causa um alívio momentâneo, até pelo volume ser considerado irrisório, mas que não aponta para uma solução definitiva. “O governo não pode deixar um setor tão importante para a economia e para a segurança alimentar ficar sofrendo uma situação que inviabiliza a continuidade da produção nacional”, alertou Ma.

Posição do Mdic

Questionado pela reportagem se há alguma medida que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic) vá tomar, o órgão afirmou que não pode comentar o andamento da investigação de dumping até o encerramento do processo.

O fim da fase probatória está marcado para o dia 4 de fevereiro, e a data para o parecer final do Departamento de Defesa Comercial (Decom) está previsto para 5 de maio.

“O Mdic informa que a investigação está em andamento”, disse a nota.

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