Projeto com catadores de Ouro Preto será mostrado fora do Brasil
Em Ouro Preto, MG, um projeto desenvolvido com associações de catadores será levado à Harvard University e ao MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos Estados Unidos, durante a Brazil Conference 2026. Trata- se de um trabalho de gestão integrada de resíduos fruto de uma parceria entre a UFOP e os galpões de reciclagem.
Alunos e pesquisadores do programa de Engenharia para a Sustentabilidade e Empreendedorismo Social (ESES) trabalham lado a lado com catadores de quatro associações para entender, mapear e aprimorar a reciclagem na cidade.
Essa experiência demonstra algo simples, mas frequentemente esquecido: a transição climática não ocorre só em fóruns internacionais nem envolve apenas grandes tecnologias: ela começa no cotidiano das cidades, especificamente na gestão dos seus resíduos.
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O fato é que Brasil ainda não consegue lidar com seu lixo nem valorizar o trabalho fundamental dos catadores: das quase 82 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos produzidos por ano no país, apenas 8,7% são efetivamente reciclados. Os catadores fazem a maior parte do serviço, mas não recebem salário. São trabalhadores informais. Os dados estão no estudo mais recente da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema).
Esses números colocam o país muito abaixo da média global e longe de considerar a reciclagem como política pública estratégica. Eles também mostram um abismo entre o discurso e a prática da economia circular no Brasil. Enquanto municípios como Ouro Preto experimentam modelos mais colaborativos, a grande maioria das cidades carece de coleta seletiva estruturada, triagem eficiente e incentivos à reciclagem.
Do ponto de vista climático, isso tem implicações profundas. O lixo que não é reciclado acaba em aterros ou lixões, onde a decomposição libera gases de efeito estufa como o metano, um dos mais potentes para o aquecimento global.
Ações como reciclagem, compostagem, que desviam os resíduos de aterros, podem representar reduções significativas nas emissões de gases de efeito estufa, como demonstrou um estudo elaborado pelo Projeto Andus (Apoio à Agenda Nacional de Desenvolvimento Urbano Sustentável no Brasil) em parceria com a Enap (Escola Nacional de Administração Pública).
É claro que a responsabilidade por soluções eficientes de reciclagem recai fortemente sobre os gestores públicos: prefeitos e prefeitas precisam estruturar programas de coleta, apoiar cooperativas de catadores e integrar políticas de resíduos com metas climáticas locais. Mas isso não significa que apenas o setor público deva agir.
O exemplo de Ouro Preto mostra que a solução passa por um caminho coletivo.
Universidades, empresas e comunidades precisam se responsabilizar pelos resíduos que geram: devem produzir conhecimento aplicado, inovar em logística reversa, desenvolver mercados para materiais reciclados e, principalmente, envolver a sociedade para que a reciclagem seja entendida como recurso, valor social e como parte da solução.
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