Agronegócio

Acordo Mercosul-UE abre espaço para produtos de maior valor agregado da soja mineira

Soja mineira pode ampliar presença no mercado europeu com o acordo, mas embarques seguem concentrados na China e em derivados como o farelo
Acordo Mercosul-UE abre espaço para produtos de maior valor agregado da soja mineira
Foto: Wenderson Araújo / Trilux - CNA

Com a aprovação provisória do Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE), o setor da soja em Minas Gerais vê a possibilidade de ampliar a presença no mercado europeu, ainda que a China siga como principal destino da produção brasileira. A avaliação de representantes do setor é que o tratado pode abrir espaço para crescimento das exportações, sobretudo de produtos com maior valor agregado, como o farelo.

Atualmente, cerca de 80% da soja brasileira é exportada para a China, enquanto a União Europeia responde por aproximadamente 8% do total. Para o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja em Minas Gerais (Aprosoja-MG), Fábio Meirelles Filho, essa diferença tende a permanecer mesmo com o acordo. “De forma nenhuma o mercado europeu supera o chinês. O consumo da China não se compara ao da Comunidade Europeia. O que esperamos é que, com o acordo, esse volume para a Europa possa aumentar um pouco”, afirma.

Segundo ele, o avanço do entendimento entre os blocos representa uma oportunidade de diversificação em um cenário internacional marcado por barreiras comerciais e instabilidades. “Depois da China, a gente tem que abrir novos mercados numa série de lugares. Essa abertura da Comunidade Europeia para assinar o acordo é uma oportunidade, não só para a soja, mas para vários produtos”, diz.

Na avaliação do dirigente, o principal ponto de atenção será a forma como o acordo tratará as exigências ambientais. “O que vamos saber é se, dentro do acordo, será feito algo para diminuir a complexidade que eles usam para dificultar as exportações brasileiras com base em questões ambientais”, observa.

Na Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), a expectativa é de impacto positivo para Minas Gerais. De acordo com a assessora técnica da pasta, Manoela Teixeira, somente em 2025 o Estado exportou cerca de US$ 54 milhões em soja para a União Europeia, com destaque para o farelo, que concentrou parte relevante desse valor. “O farelo é um produto importante porque enfrenta menos regras restritivas para entrar no mercado europeu. Com o acordo, a tendência é que os produtores consigam aumentar essas exportações”, explica.

“Basicamente, 90% do farelo que exportamos para a União Europeia é absorvido pela Alemanha, mas também há vendas para Países Baixos, Dinamarca, Itália, Polônia e Eslovênia, que são mercados considerados premium e que valorizam muito a origem do produto”, afirma.

Agro mineiro na vitrine do mundo

Segundo Manoela, além de reduzir a dependência da China, o acordo pode funcionar como vitrine para o agro mineiro. “Ao abrir o mercado europeu, criamos oportunidade de ampliar mercados e de agregar valor ao produto, o que pode gerar maior retorno de renda”, avalia.

Do ponto de vista dos produtores, o aumento das vendas, no entanto, esbarra em questões estruturais e de custo. Fábio Meirelles Filho afirma que a margem do produtor segue pressionada. “Hoje, a margem de ganho é praticamente nada. O custo de produção continua aumentando e ainda temos uma carga tributária que pesa muito. Isso pode comprometer a competitividade, principalmente em mercados com controle mais rígido”, diz.

Ele também ressalta que o Brasil tem potencial para expandir a produção sem avançar sobre áreas de vegetação nativa, mas aponta falta de investimentos. “O País tem condições de dobrar ou triplicar a produção recuperando áreas degradadas, investindo em qualidade de solo e tecnologias, sem desmatar uma única árvore. Mas isso exige um investimento robusto, que hoje não está acontecendo”, afirma.

Outro fator citado como oportunidade para o Brasil é o cenário geopolítico. Segundo o presidente da Aprosoja-MG, a guerra na Ucrânia reduziu a capacidade de fornecimento de grãos do país para a Europa, o que tende a aumentar a dependência do bloco em relação a países como o Brasil. “A produção ucraniana está cada vez mais estagnada por causa da guerra. Com isso, a dependência dos países europeus do Brasil aumenta”, aponta.

Selo verde deixa o Estado mais competitivo

Nesse contexto, a adequação ambiental aparece como elemento central para o acesso ao mercado europeu. Minas Gerais tem utilizado a plataforma Selo Verde como instrumento de rastreabilidade e conformidade socioambiental. “Talvez Minas seja um dos estados mais avançados nessa organização. O Selo Verde amplia as possibilidades para o produtor, porque quando você certifica a propriedade, ela fica apta a produzir diferentes culturas já atendendo às exigências internacionais”, afirma Meirelles Filho.

Dados da Seapa indicam que mais de 90% das propriedades mineiras nas cadeias de café, soja, pecuária bovina e florestas plantadas não apresentam associação com desmatamento. Para Manoela Teixeira, esse indicador coloca o Estado em posição estratégica diante das exigências europeias. “Isso puxa Minas para um lugar de destaque dentro do Brasil e fortalece a imagem do Estado como fornecedor confiável em mercados exigentes”, conclui.

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