Suspensão do acordo UE-Mercosul pode gerar perdas imediatas para setores da economia
A confirmação da suspensão do acordo entre a União Europeia (UE) e o Mercosul após um pedido de revisão jurídica do acordo por parte do Parlamento Europeu gerou reações em Minas Gerais. O setor que mais questionou a paralisação do acordo, que cria a maior área de livre mercado do mundo, com uma população com mais de 770 milhões de pessoas, foi o agro.
O Sistema Faemg Senar emitiu uma nota lamentando a suspensão e afirmou que “a decisão do Parlamento Europeu de submeter o Acordo Mercosul–União Europeia à análise da Corte de Justiça da União Europeia, aprovada em 21 de janeiro, cria incertezas e paralisa, na prática, a implementação de um dos acordos comerciais mais importantes para o agro brasileiro”, diz a nota.
Leia mais: Brasil busca agilizar validação interna de acordo UE-Mercosul após Europa congelar pacto
“A paralisação do acordo impede o avanço na diversificação de mercados e na agregação de valor às exportações. Além disso, o País perde competitividade frente a concorrentes que já possuem acordos preferenciais com a União Europeia”, destaca o presidente do Sistema Faemg Senar, Antônio de Salvo.
A reportagem procurou a Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) e a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) para comentar a suspensão e seus impactos na economia mineira. A Fiemg disse que ainda não tem posicionamento sobre o assunto. Já a Seapa, via assessoria, afirmou que a suspensão do acordo “é uma decisão do Parlamento Europeu e a Seapa não tem que se posicionar”.

O que é o acordo UE-Mercosul
A área de livre comércio entre os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai- membros fundadores com outras nações associadas) começou a ser negociada em 1999. Desde então, várias tentativas de encontrar um denominador comum para que barreiras comerciais fossem superadas e para fomentar um comércio de vários produtos gerados pelas nações dos dois blocos.
Depois de 27 anos, houve um acordo, assinado em 17 de janeiro de 2026. Na proposta de livre comércio, que abrange 30 capítulos, há temas estratégicos como comércio de bens e serviços, barreiras técnicas e sanitárias, facilitação de comércio, defesa comercial e desenvolvimento sustentável.
O novo bloco foi celebrado pelos setores produtivos nacionais, pois representa uma oportunidade histórica de ampliar o acesso a um mercado de alto poder aquisitivo. Por isso que o congelamento do acordo gerou frustração para o setor.
Impacto econômico do congelamento
Do ponto de vista tarifário, a não implementação do acordo pode postergar ganhos imediatos de competitividade dos produtos brasileiros no mercado europeu. O texto do acordo prevê a eliminação de tarifas pela União Europeia para 93% de sua pauta, com prazos de até dez anos. Por exemplo, já no primeiro ano de vigência, 39% dos produtos agropecuários brasileiros exportados ao bloco teriam tarifa zero, sobretudo em segmentos nos quais o Brasil já é altamente competitivo.
Para o Mercosul, 91% das mais de 10 mil linhas tarifárias seriam liberalizadas em até 15 anos, com 31% zeradas de forma imediata. “Essa assimetria garante previsibilidade, favorece o planejamento das exportações e permite uma abertura gradual do mercado interno. A paralisação do acordo, no entanto, adia investimentos e mantém custos adicionais de acesso ao mercado europeu”, conclui De Salvo.
Estratégico para expansão da economia brasileira
O Acordo Mercosul-União Europeia é estratégico para a economia brasileira, mas sua efetividade depende da harmonização regulatória, da preservação da isonomia competitiva e da proteção das concessões negociadas, especialmente diante de novas exigências ambientais adotadas pelo bloco europeu.
Por isso, a pausa forçada vai gerar transtornos. O professor de economia e reitor do Ibmec, Márcio Antônio Salvato, afirma que essa suspensão é como uma derrota, já que mesmo se a Corte Europeia não ver problemas no acordo, muito tempo já será perdido. “Se a justiça europeia falar que não tem nenhum problema jurídico, já se perdeu seis meses nesse processo e só depois entra em vigor. Se falar que precisa de alterações, volta para a mesa de negociações para ver quais são as alterações que devem ser feitas. É um atraso para esse acordo”, ressalta.
Salvato diz também que há um impacto imediato nos setores econômicos de todos os envolvidos, podendo atingir outras partes do mundo. “No curtíssimo prazo temos alguns efeitos imediatos. Quando se anunciou a suspensão o valor dos papéis de algumas empresas em bolsas de valores aqui, na Europa e pelo mundo foi afetado. Haverá um processo de revisão de investimentos que estavam previstos com a assinatura do acordo” explica.
Leia mais: Parlamento Europeu aprova revisão jurídica e congela acordo UE-Mercosul
Esperança provisória
O acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul pode funcionar antes da liberação da Justiça Europeia, de forma improvisada. O acordo pode ser validado parcialmente, provavelmente em março, disse um diplomata da UE.
“O acordo UE-Mercosul será aplicado provisoriamente assim que o primeiro país do Mercosul o ratificar”, disse um diplomata da UE à Agência Reuters. “Provavelmente será o Paraguai em março”, acrescentou o diplomata.
Com Agência Reuters
Ouça a rádio de Minas