Economia

Tragédia na Zona da Mata: ‘Apagão produtivo’ afeta 40% da indústria em Juiz de Fora e Ubá

Tragédia afeta importantes parques fabris e ameaça desestruturar a cadeia produtiva regional
Tragédia na Zona da Mata: ‘Apagão produtivo’ afeta 40% da indústria em Juiz de Fora e Ubá
Desastre natural que atingiu a Zona da Mata causou prejuízos para o setor produtivo em Juiz de Fora e Ubá | Foto: Fotos Públicas

As fortes chuvas que atingem a Zona da Mata provocaram um apagão produtivo em Juiz de Fora e Ubá, afetando cerca de 40% da capacidade industrial ativa das cidades. O cenário é considerado crítico para a indústria local, que sofre com a perda de estoques, maquinários, instalações elétricas e matéria-prima.

O prejuízo pode ganhar dimensões ainda mais extremas, já que ameaça desestruturar consideravelmente a cadeia produtiva regional. A região conta com importantes parques fabris, como o polo moveleiro de Ubá e o polo metal-automotivo de Juiz de Fora.

As informações foram detalhadas pela presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) – Regional Zona da Mata, Mariângela Marcon, ao Diário do Comércio. A dirigente destaca que a região atravessa, em 2026, um dos momentos mais críticos da história, superando todos os registros desde 1961, expondo a fragilidade das defesas físicas industriais.

O impacto, segundo a dirigente, ainda se estende a empresas dependentes de insumos daquelas afetadas e à oferta de mão de obra, uma vez que os próprios trabalhadores foram severamente atingidos pelos temporais. “Quem não teve a fábrica atingida pela água até consegue retomar parte da produção, mas há empresas que simplesmente não podem operar porque muitos funcionários moram em áreas de risco e perderam tudo. Neste momento, a prioridade é uma intervenção imediata, inclusive com apoio psicológico”, detalha.

Além de empresas de pequeno e médio porte, as consequências do desastre ameaçam a sustentabilidade operacional de gigantes como Mercedes-Benz e ArcelorMittal. Segundo análise da Fiemg, há possibilidade de paralisia total das companhias por falta de insumos via BR-040, que se encontra com interdições em diversos trechos, além do acesso de trabalhadores.

Atualmente, cerca de 130 mil moradores de Juiz de Fora vivem em áreas de risco. Muitos deles fazem parte da força de trabalho da indústria e foram diretamente afetados por deslizamentos e soterramentos.

O levantamento aponta ainda que unidades como a Nexa Recursos Minerais e a Pedreira Santo Cristo exigem monitoramento ininterrupto por causa do risco geotécnico. A medida foi adotada após a saturação crítica do solo, que aumenta a instabilidade em encostas e estruturas das barragens.

Principal polo moveleiro de Minas foi devastado

A cidade de Ubá, principal polo moveleiro de Minas Gerais, enfrenta crise sistêmica após um temporal, que em apenas três horas, elevou o rio Ubá para a marca histórica de 7,82 metros. Além de óbitos, a tragédia afetou polos industriais e comerciais, como o Calçadão, principal centro comercial da cidade.

Importantes lojas, como Onda, Flex e Intensa, foram completamente destruídas pela lama. O levantamento da Fiemg aponta que a perda de maquinário de marcenaria de alta tecnologia e o encharcamento de estoques, como madeira, representam um prejuízo financeiro que pode levar meses para ser solucionado.

Hoje, o polo em Ubá é composto por mais de 450 empresas e emprega cerca de 20 mil trabalhadores em uma população de 110 milhabitantes. Diferente de Juiz de Fora, a cidade não possui um centro industrial concentrado, com fábricas dispersas por regiões, o que teria pulverizado os danos e dificultado a coordenação de socorro inicial.

Medidas serão necessárias para evitar o colapso econômico da região

De acordo com Mariângela Marcon, diante da calamidade, a Fiemg iniciou a aplicação de diretrizes especiais para auxiliar as empresas a enfrentar uma das situações mais desafiadoras da história. “Foi realizado um trabalho de cruzamento de dados, com apoio de ferramentas de inteligência artificial e informações disponíveis na internet, o que permitiu uma análise sistêmica das indústrias afetadas”, pontua.

A ideia, segundo ela, é auxiliar financeiramente as empresas a se reerguerem, com interlocução junto aos governos municipal, estadual e federal para conseguir benefícios. “Se a empresa tem R$ 30 mil em caixa, ela vai priorizar pagar imposto ou recompor a matéria-prima que perdeu? Naturalmente, em momentos como esse, a sobrevivência do negócio fala mais alto”, explica a dirigente.

Diante disso, a Fiemg articula a prorrogação do prazo de recolhimento de tributos federais por 190 dias, como Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), Programa de Integração Social (PIS), Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e INSS Patronal. Além disso, é articulada a suspensão imediata de execuções fiscais e atos de cobrança administrativa.

Em paralelo, também são discutidas linhas de crédito e fomento junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), autorização para liberação imediata do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) na modalidade calamidade, além da isenção de multas e juros moratórios incidentes sobre débitos gerados durante o período crítico.

“Reiteramos que a celeridade na adoção destas medidas é condição indispensável para evitar o colapso econômico da região. O momento demanda responsabilidade pública, união entre as esferas governamentais e uma resposta proporcional à gravidade dos danos sofridos pela sociedade e pelo setor produtivo”, assinala Mariângela Marcon.

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