Insumos sobem até 50% e pressionam cadeia da indústria calçadista em Nova Serrana
O conflito entre Israel, Irã e Estados Unidos tem provocado uma pressão sobre a cadeia de fornecimento da indústria calçadista, o que já impacta Minas Gerais. Diante da instabilidade relacionada ao encarecimento de insumos petroquímicos, aumento de fretes internacionais e risco de desabastecimento apontado por entidades do setor, produtores de calçados têm sinalizado que os preços das matérias-primas já apresentam reajustes de até 50%.
Segundo o presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias de Calçados de Nova Serrana (Sindinova), Rodrigo Martins, a estimativa de aumento varia conforme o material e o segmento, com diferenças relevantes entre fornecedores. “Alguns estão sinalizando de 40% a 50% de ajuste, outros 10%. Ainda vamos ter que esperar essa situação se desenrolar para ter um percentual médio”, observa.
Ele explica que parte dos aumentos já começa a aparecer na cadeia de fornecedores, enquanto outros ainda estão apenas sinalizados. “Alguns, a gente sabe que esse aumento é direto. Às vezes é alguma resina, muitos desses produtos são chineses, e o próprio fornecedor lá já está tendo impacto. Outros são indiretos, algum componente derivado do petróleo, e isso acaba mudando o preço”, completa.
De acordo com o dirigente, não há reajuste generalizado, mas o movimento tende a se espalhar. “Alguns fornecedores estão sinalizando, outros ainda não receberam esse reajuste dos fornecedores. Então eles vão começar a repassar de forma gradativa e mais para frente”.
Pressão de custos com demanda fraca
Martins comenta que os aumentos nos custos chegam em um momento crítico, de mercado enfraquecido, o que limita a capacidade de repasse pelas indústrias. “O preço dos insumos está subindo, mas o mercado não está absorvendo porque não está havendo demanda. O fabricante, diante de um fornecedor que está sinalizando aumento, talvez não consiga repassar esse aumento por questão de mercado”, diz.
Segundo ele, o cenário é agravado pela fraqueza do consumo. “O mercado está travado, complexo e difícil. O consumo no Brasil caiu muito e o endividamento das famílias está elevado. Então há também um problema de demanda”.
Cadeia global sob estresse
Em comunicado, a Associação Brasileira de Empresas e Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), afirma que o cenário global de fornecimento de matérias-primas derivadas do petróleo se deteriorou rapidamente nas últimas semanas, com choque de oferta e rupturas logísticas. A entidade aponta aumentos recorrentes em polímeros, borrachas sintéticas, poliuretanos, adesivos e insumos têxteis e metálicos.
Segundo a associação, o setor também enfrenta elevação dos fretes marítimos, escassez de contêineres e prêmios adicionais de seguro em rotas internacionais, o que reduz a previsibilidade comercial e pressiona a matriz de custos das indústrias de componentes. A entidade afirma que os reajustes atuais representam repasse inevitável de custos impostos pelo cenário macroeconômico global.
Busca por novos fornecedores e materiais
Diante da incerteza, empresas da região de Nova Serrana já buscam alternativas para reduzir a dependência da cadeia atual. “Alguns estão buscando novos fornecedores, outros importação direta e também tecnologia para ganhar produtividade e absorver parte do ajuste da matéria-prima”.
Segundo Martins, o próprio sindicato organiza uma missão empresarial à China, em parceria com o Sebrae, para buscar materiais e soluções tecnológicas para o setor. A estratégia, segundo o dirigente, é diversificar a base de suprimentos e reduzir o impacto dos aumentos. “O mercado vai se reorganizar, como foi na pandemia, mas esses aumentos virão. A gente sabe que não tem como escapar”, encerra.
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