Economia

Orçamento familiar e crédito restrito elevam inadimplência do aluguel em Minas Gerais

Dívidas em atraso passaram de 2,73% em janeiro para 3,04% em fevereiro; maior avanço foi observado em aluguéis acima de R$ 13 mil
Orçamento familiar e crédito restrito elevam inadimplência do aluguel em Minas Gerais
Taxa de inadimplência passou de 2,73% em janeiro para 3,04% em fevereiro em MG | Foto: Diário do comércio/Mara Bianchetti

A inadimplência do aluguel em Minas Gerais registrou alta, com a taxa passando de 2,73% em janeiro para 3,04% em fevereiro. O avanço foi atribuído ao chamado ‘efeito tesoura’, com uma combinação de efeitos sazonais aliado ao atual cenário de crédito, que permanece em patamares restritivos.

Os dados são do Índice de Inadimplência Locatícia (IIL) da plataforma de tecnologia Superlógica, com análise de economistas e executivos do setor. No comparativo com o mesmo período de 2025 (2,89%), houve crescimento de 0,15 ponto percentual no descumprimento das obrigações com relação ao imóvel locado.

A tendência de alta também é observada no contexto nacional, que apresentou elevação nas dívidas após quatro meses consecutivos de queda. Em fevereiro, a inadimplência do aluguel chegou a 3,35%, número superior aos 3,29% registrados em janeiro.

Ao traçar o perfil dos inadimplentes mineiros, o índice revela que os moradores de imóveis residenciais de alta renda, com aluguel acima de R$ 13 mil, foram os que apresentaram o maior avanço nas taxas. Em fevereiro, houve alta expressiva de 3,81 pontos percentuais entre o grupo, com a inadimplência média atingindo 8,58%, frente a 4,77% em janeiro.

Já os imóveis na faixa de até R$ 1.000 registraram alta de 1,32 ponto percentual, passando de 5,76% para 7,08% em fevereiro. Em contrapartida, os locatários de imóveis com aluguéis entre R$ 2 mil e R$ 5 mil apresentaram os menores níveis de inadimplência no período, com taxas entre 2,7% e 2,8%.

No segmento comercial, os locatários de imóveis na faixa de até R$ 1.000 seguem com a maior taxa de inadimplência, de 7,98%, com alta de 0,76 ponto percentual na comparação mensal. Na sequência, aparecem os imóveis com aluguéis acima de R$ 13 mil, com taxa de 4,67%.

O economista Guilherme Almeida pontua que o chamado ‘efeito tesoura’ pode estar por trás do aumento na inadimplência do aluguel em Minas Gerais. O movimento resulta da combinação de dois vetores que pressionam o orçamento das famílias. “De um lado a gente tem efeitos sazonais, típicos de início de ano, do outro o cenário de crédito restrito, que ainda permanece em um patamar muito elevado, impactando o custo da dívida”, explica.

O primeiro trimestre do ano, segundo ele, é caracterizado pelo forte comprometimento do orçamento familiar com despesas obrigatórias, e principalmente com impostos, como IPVA e IPTU. Somado a isso, famílias ainda são pressionadas com despesas extras, como matrícula e material escolar.

“Tudo isso gera um aperto orçamentário. Início de ano também costuma ser a data-base dos principais reajustes, de contratos de aluguel. Isso pode gerar um peso adicional”, argumenta Almeida.

Juros elevados pressionam renda e ampliam risco de inadimplência

Quanto ao crédito, a política monetária em campo restritivo acaba gerando diversos impactos ao orçamento familiar. Segundo o economista, embora o mercado de trabalho esteja aquecido, com uma renda em patamares recordes, essa renda ela acaba sendo comprometida por essas despesas, que estão com um custo mais alto.

O cenário tende a atingir a maioria da população, incluindo os empresários, cujos fluxos de caixa foram, de certa forma, afetados pelos altos juros. “Tivemos juros em torno de 15% ao ano por um período prolongado. Isso afeta a saúde financeira das empresas e impacta inclusive a alta renda, refletindo-se nos aluguéis acima de R$ 13 mil”, afirma o economista.

Ainda assim, a tendência, segundo Almeida, é que rendas mais baixas, cujos aluguéis giram em torno de R$ 1.000 a R$ 5.000 sejam os mais afetados. Isso porque as famílias são mais sensíveis ao custo da dívida e ao crédito restrito, além de recorrerem com maior frequência ao uso do cartão de crédito, o que pode agravar o comprometimento da renda e dificultar o pagamento das despesas.

Diante desse contexto, executivos do mercado imobiliário mineiro se preparam para minimizar os impactos da inadimplência. Com a ajuda da tecnologia, as empresas conseguem mapear o perfil de cada cliente e introduzir processos que minimizam riscos durante a locação de imóveis comerciais e residenciais.

Ferramentas de garantia asseguram pagamento do aluguel às imobiliárias

A diretora da Orcasa Netmoveis, Flávia Vieira, explica que o cenário merece cautela, já que o aluguel no ano passado aumentou 12% e a renda não acompanhou esse avanço. Com isso, as imobiliárias mantêm critérios rigorosos na análise cadastral, o que contribui para conter a inadimplência em níveis mais baixos.

Uma das ferramentas mais assertivas é o uso do seguro fiança. A modalidade garante o pagamento ao locatário, transferindo o risco de inadimplência para a seguradora, onde o impacto tende a se concentrar. “Penso que é importantíssimo realizar a cobrança no menor prazo possível. Em caso de atraso, cabe negociação e parcelamento, e a garantia na modalidade de seguro agiliza muito esse processo e dá mais solidez ao contrato”, detalha a executiva.

Apesar dos entraves, Flávia Vieira destaca que o mercado de aluguel residencial segue aquecido, assim como o de andares corporativos, que opera com baixo nível de estoque. Já o segmento de lojas, mais pressionado pelo comércio eletrônico e pelos serviços de delivery, é o mais afetado.

Para os próximos meses, o cenário é de incerteza. “Estamos em ano eleitoral e o desempenho da economia vai depender dos desdobramentos nesse contexto. Além disso, há um problema gravíssimo no cenário internacional, com a guerra pressionando os preços dos combustíveis. É um momento difícil de prever”, finaliza a executiva.

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