Economia

Guerra no Oriente Médio ameaça competitividade das exportações de Minas

Minas Gerais e o mundo estão atentos com o desenrolar dos conflitos no Oriente Médio, o que pode gerar aumento logísticos em fretes e seguros
Guerra no Oriente Médio ameaça competitividade das exportações de Minas
Conflito no Oriente Médio tem potencial para afetar a economia global | Foto: Majid Asgaripour / Wana / Reuters

A tensão que o Oriente Médio enfrenta com a nova escalada de guerra em diversos países pode acender um alerta na economia brasileira – especialmente a mineira – em relação às exportações para a região e também quanto às importações. Os produtos brasileiros ainda não perderam força, nem houve recusa de pedidos ou descumprimento de contratos. Mas essa bonança pode ser temporária, graças a um fator que interfere diretamente no preço final de qualquer mercadoria: a logística.

“O impacto mais imediato e já observável do desentendimento entre os países da região do Oriente Médio é na logística global: pode haver aumento no custo de seguro e frete, desvios de rota e atrasos de navios que transitam próximos à região. Esse tipo de impacto costuma ocorrer em crises globais, como a da Covid-19. Outro efeito quase automático da violência é a alta no preço do petróleo, que eleva os custos de energia e impacta a indústria de forma ampla”, disse a coordenadora de Facilitação de Negócios Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Verônica Winter.

Atenção e tranquilidade

Minas Gerais tem como principal produto de exportação o minério de ferro, com valor superior a US$ 1,2 bilhão somente em 2025. Outros destaques do portfólio de vendas externas para países do Oriente Médio vêm do agronegócio: açúcar, com pouco mais de US$ 200 milhões em exportações, café (US$ 229 milhões) e carnes (US$ 142 milhões), nos primeiros lugares.

Tubos e perfis ocos, sem costura, de ferro ou aço, também são demandados pela economia da região, com US$ 269 milhões exportados. Apesar do volume considerável de produtos vendidos para países como Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Irã, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã, não há impacto imediato no comércio com essas nações, mesmo com a recente escalada de guerra.

A percepção de alguns setores produtivos é de que é preciso acompanhar os conflitos com atenção, mas o momento é de relativa tranquilidade.

“Apesar de relevantes, os países da região não são os principais parceiros comerciais para esses produtos. A China domina cerca de 80% das exportações em muitos itens. No período de 2021 a 2025, Minas exportou aproximadamente US$ 11,87 bilhões em soja para a China, enquanto o Irã — terceiro maior destino — recebeu US$ 460 milhões no mesmo período. A diferença proporcional é expressiva”, explica Verônica Winter.

Neutralidade é o melhor caminho

Tomar partido abertamente em um conflito dessa natureza poderia trazer complicações significativas. O Brasil mantém relações diplomáticas e comerciais relevantes tanto com países do Oriente Médio quanto com potências diretamente envolvidas na escalada.

Um alinhamento explícito poderia tensionar relações bilaterais, afetar a cooperação em temas como comércio, energia e defesa e reduzir a margem de atuação do País em fóruns multilaterais.
Além disso, uma postura mais assertiva poderia comprometer a capacidade do Brasil de se apresentar como interlocutor confiável ou potencial facilitador de diálogo – papel que o País tradicionalmente busca exercer no cenário internacional.

“O impacto das declarações brasileiras não decorre de envolvimento direto no conflito, mas da necessidade de administrar percepções em um ambiente altamente sensível. A estratégia, até o momento, tem sido preservar equilíbrio, coerência e prudência – elementos que, em contextos de crise internacional, são essenciais para proteger interesses de longo prazo”, afirma a doutora em direito internacional e professora do curso de relações internacionais do Ibmec/BH, Maria Bueno.

Dependência de petróleo

Apesar de o Brasil ser produtor de petróleo, ainda há dependência de importação de derivados e os preços domésticos acompanham o mercado internacional. Se o petróleo sobe, gasolina e diesel sobem.
Isso encarece toda a cadeia produtiva: desde o transporte rodoviário até a produção mineral, a atividade agropecuária e o frete marítimo – especialmente considerando a extensa malha rodoviária por onde escoa boa parte das mercadorias.

Em outras palavras: aumentam os custos das exportações mineiras e, automaticamente, reduz-se a competitividade no mercado externo, já que os produtos se tornam mais caros em relação aos concorrentes de outros países.

“Se houver comprometimento do Estreito de Ormuz, o efeito se amplifica, pois cerca de um quinto do petróleo mundial passa por ali. O reflexo imediato seria a alta do barril – já há notícias que apontam aumento de 50% nos valores dos combustíveis derivados de petróleo na Europa”, comenta a professora Maria Bueno.

Câmbio afetado

O economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Fundação Ipead), ligada à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Paulo Casaca, teme que o câmbio possa sofrer com a instabilidade no Oriente Médio, o que afetaria as exportações de carne para a região.

“A desvalorização do câmbio pode ocorrer de forma mais imediata. A incerteza geopolítica tende a enfraquecer o real frente ao dólar. Os impactos de maior prazo dependem do desdobramento do conflito e do que ocorrerá nas próximas semanas”, explica o economista.

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