Minas Trend começa com previsão de R$ 40 milhões em negócios e preocupação no setor de vestuário

Feira reúne 100 marcas em Belo Horizonte, enquanto dirigentes do setor alertam para perda de empregos, concorrência com importados e impactos de mudanças na jornada de trabalho
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Minas Trend começa com previsão de R$ 40 milhões em negócios e preocupação no setor de vestuário
Foto: Divulgação/ Fiemg

A 36ª edição do Minas Trend começou nesta terça-feira (20), em Belo Horizonte, com expectativa de movimentar mais de R$ 40 milhões em negócios e receber mais de 5 mil pessoas até quinta-feira (22). Enquanto expositores apostam no aumento das vendas, dirigentes alertam para o aumento dos custos, da concorrência com importados e para as mudanças na jornada de trabalho.

Promovido pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), o evento reúne 100 marcas em 191 estandes no BH Shopping, na região Centro-Sul, com coleções para o outono/inverno de 2027. Sob o tema “Made in Minas”, a feira contempla os segmentos de vestuário, moda infantil, bolsas, calçados, joias e bijuterias e busca aproximar fabricantes e lojistas em um período de desafios para o setor.

Escala 5×2 e fim de taxação federal

Entre as preocupações dos dirigentes estão o fim da tributação federal sobre compras internacionais de até US$ 50 e a aprovação no Senado para a substituição da escala 6×1 pela 5×2. Para os representantes empresariais, as duas questões afetam a competitividade da produção nacional e podem pressionar os custos das empresas e os preços ao consumidor.

O presidente do Sindicato da Indústria do Vestuário de Minas Gerais, Rogério Vasconcellos, argumenta que a discussão sobre a tributação das importações precisa considerar os efeitos sobre toda a cadeia produtiva, e não apenas sobre o vestuário. Segundo ele, a concorrência com produtos estrangeiros vendidos em plataformas digitais, como AliExpress, Shein e Shopee, ocorre em condições desfavoráveis para toda a indústria brasileira.

“O industrial brasileiro, o industrial mineiro, tenta, sim, levar o produto para dentro dessas plataformas. Mas, como disse o presidente Flávio Roscoe, da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), é uma concorrência totalmente desleal, porque o produto nacional, industrializado aqui dentro, é tributado e concorre com o mesmo produto feito lá fora, sem nenhuma tributação”, avalia.

O dirigente também critica o fim da escala 6×1. Na avaliação dele, a redução dos dias trabalhados sem uma compensação equivalente na produtividade pode elevar os custos operacionais, com reflexos sobre os preços de mercadorias e serviços.

“Não existe mágica. Esse custo será repassado em todos os setores, em todos os produtos, para todos nós, consumidores de qualquer coisa”, diz Vasconcellos. Ele acrescenta que a mudança afetaria não apenas a indústria de vestuário, mas também outros segmentos industriais e o comércio.

O cenário, segundo o dirigente, já se reflete no mercado de trabalho. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) citados por ele apontam a perda de 4.952 postos de trabalho em Minas Gerais nos últimos 12 meses na cadeia da indústria da moda, incluindo calçados, vestuário e acessórios. No Brasil, a redução teria chegado a aproximadamente 45 mil vagas no mesmo período.

“E falo que é um equívoco muito grande pensar que esse pessoal está vendendo pela internet. Não está, porque o que se vende pela internet é o produto importado. É o produto produzido lá fora, que está gerando empregos em outros países, não aqui no Brasil”, critica.

Dirigentes reduzem expectativa de crescimento

A avaliação de Vasconcellos é compartilhada, em parte, pelo presidente do Sindicato das Indústrias de Joias, Bijuterias, Folheados e Gemas de Minas Gerais (Sindijoias), Murilo Graciano. Para ele, os desafios econômicos e a pressão sobre o ambiente de negócios limitam as perspectivas de expansão das empresas, exigindo investimentos em capacitação e na busca por novos mercados.

“Não temos grandes expectativas de crescimento, mas apostamos sempre na resiliência das empresas que estão aqui e na capacidade de elas atravessarem esse momento”, comenta Graciano.

O dirigente destaca que as entidades representativas têm buscado fortalecer as empresas por meio de capacitações, da abertura de novos canais comerciais e da recuperação de mercados que perderam dinamismo. A estratégia, segundo ele, é ampliar as oportunidades de negócios mesmo diante das dificuldades enfrentadas pelo setor.

No segmento de bolsas e acessórios, o presidente do Sindicato das Indústrias de Bolsas e Cintos de Minas Gerais (Sindibolsas), fundador da grife Celso Afonso e expositor, Celso Luiz Afonso da Silva, também adota uma perspectiva cautelosa. Apesar de considerar o Minas Trend uma referência para o lançamento de coleções e para a identificação de tendências, ele não espera um salto expressivo nas vendas.

“Eu sou muito realista e não acho que dá para pensar em aumento de vendas. Estamos vivendo um momento político bastante complexo e isso, querendo ou não, interfere no comércio”, avalia. A expectativa da marca é registrar crescimento entre 5% e 10%, resultado que o empresário considera positivo diante do cenário atual.

Para Celso Afonso, a importância da feira vai além dos pedidos fechados durante os três dias de programação. O evento funciona como uma referência para avaliar a aceitação dos produtos e orientar decisões sobre as coleções e a continuidade das peças ao longo da estação.

“Então, ele é muito relevante e importante, principalmente se lembrarmos que Minas é um polo de moda extremamente pujante e reconhecido. Acho que o Minas Trend traduz isso, traz essa realidade para o mercado e transmite essa mensagem para o Brasil”, explica.

Expositores apostam em compradores de todo o País

Apesar das incertezas apontadas pelos dirigentes, empresas presentes no Minas Trend relatam expectativa positiva para a temporada de inverno de 2027. Para marcas que participam desde as primeiras edições, a feira representa uma oportunidade de concentrar atendimentos, apresentar lançamentos e consolidar pedidos de compradores que, em outras circunstâncias, precisariam ser visitados individualmente.

É o caso da Bibe e da Tribo da Preservação, marcas mineiras de moda infantil que participam do evento desde a primeira edição. A diretora de criação das duas empresas, Ana Maria Nolasco, afirma que a feira é estratégica para a apresentação de coleções desenvolvidas ao longo de seis meses e para a aproximação com lojistas de diferentes regiões.

As marcas trabalham com produtos que vão do enxoval de bebê a roupas para crianças de até 12 anos. Para o inverno de 2027, a expectativa é de um ano positivo, impulsionado pela percepção de maior disposição dos compradores para realizar pedidos.

“Nós temos certeza de que vamos iniciar um ano sensacional. Estamos vendendo o inverno de 2027, e essa coleção começa a chegar às lojas a partir de fevereiro e março do ano que vem. Já estamos sentindo os lojistas animados e o mercado mais aquecido”, avalia Nolasco.

A diretora destaca que a concentração de clientes no Minas Trend permite fechar negócios com compradores que vêm de estados distantes, como Amazonas, Rio Grande do Sul, Ceará, Rondônia e Roraima. Embora as marcas tenham representantes comerciais em todo o Brasil, a feira reduz a necessidade de deslocamentos. “Os pedidos são consolidados em três dias. Para nós, isso tem uma importância muito grande”, pondera.

Minas Trend 2026
Foto: Divulgação/ Fiemg

Joias e moda infantil ampliam programação

Além da rodada de negócios, o Minas Trend 36 reúne iniciativas voltadas à valorização da produção regional e ao intercâmbio entre diferentes polos da moda brasileira. Um dos destaques é o Minas Trend Kids, que reúne 21 marcas de moda infantojuvenil e conta com desfile exclusivo para os participantes do evento. A programação inclui ainda o desfile Moda Alagoas, que amplia a presença de referências criativas de outros estados.

No segmento de joias, uma exposição dedicada ao topázio imperial reúne 10 expositores de quatro estados brasileiros. Promovida pelo Sindijoias, a mostra apresenta diferentes interpretações da gema, com pedras doadas pela empresa Empire Mineração.

Segundo Graciano, a iniciativa busca valorizar a riqueza mineral mineira e demonstrar como o design e a inovação podem agregar valor às peças. A exposição também amplia a visibilidade da joalheria e das técnicas empregadas pelos profissionais do setor.

Serviço

Minas Trend 36: Made in Minas
Temporada: Outono/inverno 2027
Data: 20 a 22 de outubro de 2026
Local: BH Shopping, Piso Ouro Preto, Belo Horizonte (MG)
Horários: 20 e 21 de outubro, das 10h às 20h, e 22 de outubro, das 10h às 17h
Programação: Exposição Topázio Imperial, desfile Moda Alagoas e desfile Minas Trend Kids. Os desfiles fazem parte da programação fechada para participantes do evento.

Sobre o autor

Ana Luisa Sales

Repórter do Diário do Comércio desde 2025, graduada em jornalismo pela UFMG e especialista em ESG e sustentabilidade corporativa pela FGV.


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