PIB de Minas deve crescer até 2% em 2026, apesar de cenário econômico desafiador
A perspectiva para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) de Minas Gerais ao longo de 2026 é positiva, apesar do cenário desafiador. A estimativa é da Fundação João Pinheiro (FJP), que aponta para um crescimento entre 1,5% e 2% no Estado neste ano frente a 2025. Já a expectativa da instituição para o restante do Brasil é de manutenção da desaceleração na economia.
De acordo com os dados da FJP, o PIB estadual estimado apresentou crescimento real de 1,4% no ano passado, fechando com R$ 1,1 trilhão. Pesquisador e professor da fundação, Raimundo Leal avalia que 2025 já foi um período com resultado mais baixo e, por isso, não seria razoável esperar um desempenho ainda menor do Estado para 2026. “Eu apostaria que devemos ter uma continuidade no ritmo de crescimento”, acrescenta.
Segundo o especialista, esse otimismo pode ser explicado por alguns fatores. O primeiro deles é a expectativa de redução da taxa básica de juros, a Selic, por parte do Banco Central do Brasil. Leal ressalta que, embora os efeitos dessa queda ocorram com certa defasagem na economia real, ainda trata-se de uma boa notícia.
Outro fator é a situação atual do mercado de trabalho em Minas, considerada muito favorável, conforme Leal, com uma das menores taxas de desemprego do País e uma das mais baixas da série histórica. O estudioso da FJP ainda aponta a isenção do Imposto de Renda para pessoas que recebem até R$ 5 mil mensais, bem como a diminuição gradual da cobrança para quem ganha até R$ 7.350, como um alívio financeiro para quase 90% da população.
“Essa injeção causada pela isenção do imposto de renda deverá contrabalançar uma certa cautela das pessoas. No momento, ninguém está ‘metendo a mão no bolso’ especialmente para o consumo de alto valor e para o turismo”, declara Leal.
Já sobre o cenário nacional, o especialista defende que a expectativa é de continuidade do movimento de desaceleração da economia brasileira em 2026. Ele avalia que o crescimento nacional será inferior ao observado no último ano, passando de uma variação positiva de 2,3% para algo próximo de 2%.
Efeitos da alta do petróleo e do tarifaço

O pesquisador da FJP também comenta sobre o aumento do preço do petróleo devido aos conflitos no Oriente Médio. Leal lembra que, apesar da Petrobras não ter aumentado de forma significativa o preço do combustível que sai da refinaria, muitos postos de gasolina já estão, de maneira explícita, subindo os valores cobrados na bomba para o consumidor final.
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Todo esse cenário acaba impactando negativamente a inflação e atrasando o processo de queda da taxa de juros no Brasil. Apesar disso, Leal pontua que a elevação dos preços pode, indiretamente, gerar benefícios para a economia local, uma vez que o País é exportador de petróleo e derivados. Segundo ele, o aumento no preço da commodity no mercado internacional tende a gerar resultados positivos, inclusive, para o PIB per capita.
“Isso também acaba respingando em Minas Gerais, mesmo o Estado não sendo exportador de petróleo. Como isso favorece o Brasil, de maneira geral, ele acaba transbordando para o nosso Estado”, avalia.
Tarifaço não deve afetar Minas em 2026
Em relação às tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil em 2025, taxas essas que foram suspensas pela Justiça estadunidense, Leal declara que a economia mineira já absorveu todos os possíveis impactos dessas medidas no ano passado. Inclusive, o professor menciona que o setor metalúrgico, apontado como um dos mais impactados pela implementação do tarifaço, fechou o último ano com crescimento, contribuindo para uma melhora no desempenho da economia estadual na comparação com a nacional.
Ele destaca que a indústria de transformação, de maneira geral, apresentou leve alta de 0,6% no volume de valor adicionado, enquanto o conjunto da economia brasileira teve uma variação negativa de 0,2% em 2025. “Para entender tudo isso, é importante levar em conta a resposta do governo brasileiro e o fato de que as exportações mais prejudicadas, no caso do aço, não dizem respeito ao tipo que é produzido em Minas Gerais”, diz.
Por fim, outra condição que contribuiu para o bom desempenho do setor de metalurgia no Estado, ainda conforme Leal, está na atuação do governo federal para proteger o mercado interno de impactos da forte entrada do aço chinês. Ele avalia que essa ação também beneficiou a indústria mineira de transformação no ano passado.
Fiemg projeta desaceleração

De acordo com a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), a expectativa para 2026 é de continuidade do processo de desaceleração da economia mineira, observado ao longo da segunda metade do último ano. A entidade destaca que a agropecuária deverá apresentar perda de dinamismo, em função de uma safra de milho menos favorável e da reversão do ciclo pecuário.
Por outro lado, a Fiemg também estima que o mercado de trabalho ainda aquecido, aliado a medidas de estímulo fiscal em contexto eleitoral, tende a sustentar a demanda das famílias mineiras ao longo deste ano, conferindo maior resiliência ao setor de serviços.
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Quanto à indústria de transformação, a federação relata que há uma dicotomia em jogo: enquanto a reversão de parte das tarifas estadunidenses influencia positivamente o setor, elevadas taxas de juros domésticas se manterão em patamar restritivo por um período de tempo prolongado.
O economista-chefe da Fiemg, João Gabriel Pio, destaca que o panorama para 2026 deverá ser de política monetária restritiva. “O cenário indica que, mesmo com cortes previstos para a Selic, a política monetária deverá permanecer restritiva e, somada às incertezas nos contextos doméstico e internacional, continuará influenciando as decisões de consumo e investimento”, encerra.
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