Alta do combustível de aviação deve encarecer passagens aéreas e afetar o turismo
A iminência de reajuste no preço das passagens aéreas – em resposta ao aumento de 55% do querosene de aviação (QAV), anunciado nessa quarta-feira (1º) pela Petrobras – pode impactar setores estratégicos do turismo.
Para o presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens em Minas Gerais (Abav-MG), Alexandre Brandão, a alta de pelo menos 20% apontada por especialistas corrobora para um cenário preocupante. “Um bilhete que custa R$ 3.000 vai subir para R$ 3.600. Isso com certeza vai impactar no orçamento das famílias”, diz.
Segundo Brandão, o fato de Belo Horizonte ter uma posição geográfica estratégica, localizada próxima a São Paulo, Rio de Janeiro e cidades do Sul do País, pode contribuir para aumentar a demanda pelo transporte rodoviário. Mas, ainda assim, a expectativa é de alta nos preços para este modal.
O dirigente também acredita que os consumidores vão começar a optar por destinos mais próximos, com até 300 km de distância, em que seja possível ir de carro. “Nesse sentido, hotéis-fazenda e resorts devem ter uma maior procura”, analisa.
Ainda de acordo com Brandão, embora o reajuste esteja próximo de se consolidar, o cenário atual ainda não atrapalha planos de viagem. Para quem já tem férias marcadas, a recomendação, neste momento, é comprar as passagens o quanto antes. Acredito que nos próximos cinco dias, esse aumento ainda não deve chegar no bolso dos consumidores. As distribuidoras, provavelmente, já entregaram os combustíveis dessa semana, que deve ser usado até domingo e segunda. A próxima remessa, porém, já deve vir com os novos valores”, explica.
Reajuste sem anúncio direto
Segundo o economista e professor do Centro Universitário UniBH, Fernando Sette, as companhias conseguem absorver uma parte do reajuste de 55% do QAV, mas não por muito tempo e nunca de forma homogênea. “O primeiro ponto é que o reajuste foi parcialmente amortecido pela Petrobras ao permitir que as distribuidoras da aviação comercial arquem com apenas 18% em abril e parcelem o restante em seis vezes a partir de julho; isso suaviza o impacto de caixa no curtíssimo prazo, mas não elimina o aumento de custo”, explica.
Ainda de acordo com o especialista, o repasse raramente aparece como um anúncio formal de alta generalizada de passagens. “Ele costuma surgir por canais menos visíveis: redução de promoções, encarecimento das tarifas mais próximas da data do voo, corte de frequências e foco em rotas mais rentáveis”, diz.
Sette também afirma que além da alta no preço do petróleo e da duração do conflito no Irã, outro fator pode contribuir para aumentar a volatilidade das passagens aéreas: o prêmio de refino e logística do combustível de aviação. Segundo ele, o mercado não está precificando apenas um barril mais caro, mas sim o risco geopolítico na oferta, nos fluxos de transporte e nos derivados médios.
“A Associação Internacional de Linhas Aéreas (IATA) havia projetado, para 2026, um cenário relativamente benigno, com Brent médio (preço médio do petróleo) de US$ 62 e querosene de aviação em torno de US$ 88 por barril. O que se observa agora é um desvio brutal dessa hipótese-base, com o Brent já rondando a faixa de US$ 107–108 após a escalada do conflito, o que altera toda a matemática de custo do setor aéreo global”, analisa.
Para o Brasil, o câmbio, conforme aponta o economista, é ainda mais sensível porque atua em duas direções ao mesmo tempo: encarece o QAV, que segue referências internacionais, assim como encarece outros itens dolarizados, como leasing, manutenção, seguros e parte da dívida das companhias.
“Documentos da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e do debate setorial mostram que o preço da passagem depende não só de combustível, mas também de concorrência, sazonalidade, densidade de demanda, malha aérea, eficiência da frota e taxa de ocupação. Em termos objetivos: se o conflito for curto e o barril recuar, o repasse tende a ser parcial e transitório; se o conflito persistir e vier acompanhado de real mais fraco, o segundo semestre tende a registrar tarifas médias mais altas, menos assentos promocionais e possível retração da oferta em rotas de menor rentabilidade”, conclui.
Procurada pela reportagem do Diário do Comércio a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) informou que aguarda o detalhamento da medida apresentada pela Petrobras para mitigar o impacto da alta do QAV. A associação reafirma ainda que todos os esforços precisam ter efeito imediato para garantir a estabilidade de custos do setor aéreo e se mantém aberta ao diálogo para contribuir com o Governo Federal na busca de soluções que viabilizem a manutenção da conectividade do País e o acesso de mais brasileiros ao transporte aéreo.
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