Redes sociais viram estratégia de crescimento e geração de renda para profissionais em BH
Psicólogos, corretores de imóveis, advogados, nutricionistas, esteticistas e educadores físicos estão entre os profissionais que têm encontrado nas redes sociais um caminho para ampliar a visibilidade de seus trabalhos, conquistar mais clientes e até escalar serviços que antes dependiam exclusivamente do atendimento presencial. O que começou como uma vitrine informal tornou-se, ao longo do tempo, uma estratégia de negócio capaz de gerar receita e expandir fronteiras geográficas, sem ultrapassar os limites éticos de cada profissão.
Em Belo Horizonte, histórias de quem transformou o Instagram e outras plataformas digitais em aliadas da carreira mostram que o sucesso não vem de fórmulas mágicas ou de viralizações repentinas, mas de planejamento, constância e entrega de conteúdo útil.
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Por isso, o Diário do Comércio apresenta exemplos de profissionais que estão nessa jornada, seja no início ou já colhendo resultados concretos, como o aumento de cerca de 30% no número de clientes após a adoção das redes sociais. A reportagem também reúne dicas e orientações de especialistas do setor sobre como dar os primeiros passos nesse ambiente digital.
Psicólogo escalou o próprio trabalho por meio das redes sociais

Psicólogo com registro ativo há cinco anos e terapeuta desde 2012, Thiago de Paula, de 42 anos, atende pacientes presencialmente no bairro Estoril, na região Oeste de Belo Horizonte, e de forma virtual para todo o mundo. Desde o fim de 2024, o profissional passou a vender cursos on-line e a realizar atendimentos pela internet, escalando o próprio trabalho por meio das redes sociais. (Veja o Instagram dele aqui)
“Eu sempre gostei de tecnologia. Ao longo desses 13 anos como terapeuta, usei as redes sociais (primeiro o Facebook, depois o Instagram) como vitrine para o meu trabalho presencial. Em dezembro, dei um passo adiante e passei a vender cursos on-line. Hoje, gravo uma aula uma única vez, e ela continua gerando receita em escala. Antes, por questões de espaço e organização, eu conseguia atender no máximo 40 pessoas em sala. Agora, vendo 300 ingressos para um curso”, relatou.
Entre as vantagens do modelo digital, Thiago destaca:
- Não é preciso dar aula por aula. “Gravo uma vez e vendo a gravação”.
- Não é preciso estar presencialmente. Assim, o cliente pode assistir a qualquer hora, de qualquer lugar.
- Alguns alunos desistiam de vir a BH para fazer os cursos, por causa dos custos. Agora, “falo com qualquer pessoa no planeta”.
- Escalabilidade: hoje, “vendo o curso virtual mais barato do que o curso presencial, porém vendo muito mais cursos”.

Assim, Thiago comercializa seu próprio método de atendimento com hipnoterapia, em que o cliente aprende a tratar doenças mentais e emocionais usando a hipnose, além de outros cursos de psicologia e Programação Neurolinguística (PNL). Essa virada não foi de uma hora para outra. Ele relatou ao Diário do Comércio que tinha preconceito com o formato virtual e acreditava que não era possível entregar qualidade em cursos gravados ou no trabalho exposto nas redes.
“Eu vi o desempenho de outros profissionais, que não tinham a experiência que eu tenho, e estavam lá, falando, às vezes até sem qualidade. Então, relutei. Mas percebi que estar na internet é sobre o tempo de estudo que você tem. É sobre saber se vender no canal, que é digital. Então, venci meu preconceito e passei a entregar um trabalho com qualidade, profundidade e acompanhamento de clientes virtualmente. Hoje, além da venda dos cursos, faço a mentoria, que é semanal, em uma sala do Zoom, onde tiro dúvidas e acompanho os alunos”, completou.
Por fim, Thiago de Paula dá dicas para profissionais da psicologia ou de outras áreas que queiram usar as redes sociais para alavancar a atuação profissional. Segundo ele, a primeira é fugir da “fórmula mágica”.
“Há muito guru vendendo a ‘fórmula mágica’ para conseguir sucesso na rede social. Eu mesmo experimentei e comprei várias. Ela não existe. O mais importante é você escolher se vai para a rede social ou não. Se decidir ir, precisa entender aquela presença on-line como negócio e, portanto, não pode deixar a coisa solta”, disse.

- É preciso consistência. Se você decidir publicar só um vídeo por semana, é muito importante manter essa frequência.
- Não existe uma resposta imediata nas redes sociais (salvo quando alguém viraliza, o que é raro). Portanto, não inicie buscando viralização.
- Comece com o que você tem: as pessoas buscam o melhor estúdio e a melhor iluminação para começar. Você só precisa de uma câmera e de mostrar aquilo em que você acredita, com originalidade.
“Ninguém dos gigantes começou gigante. Todo mundo começou gaguejando e evoluiu”, encerrou.
Biomédica aumentou cartela de clientes em 30% após Instagram
Natália Salomão, de 37 anos, tem uma década de atuação em biomedicina. Desse período, o último triênio foi focado em adotar o Instagram profissionalmente para aumentar a cartela de clientes. Nos primeiros 12 meses desse uso, ela foi autodidata, e não deu muito certo. Natália relata que buscava seguir o máximo de pessoas possível, na expectativa de que seu perfil fosse seguido de volta e, assim, conseguisse interessados no trabalho. (Veja o Instagram dela aqui)
“Consegui um número bom de seguidores, mas baixa visualização. Então, decidi contratar uma profissional especializada. Ela sugeriu criar um outro Instagram e tentar algo orgânico, para que o público entendesse quem eu era de verdade, sem aquele desespero de seguidores”, lembrou.
Ela também é instrumentadora cirúrgica e atende nos bairros Santo Agostinho, na região Centro-Sul de BH, e Milionários, no Barreiro.

O resultado foi positivo. O número de clientes aumentou 30% depois que ela começou a usar o Instagram com a orientação de uma profissional especializada em redes sociais. “Hoje quem me segue é porque tem o desejo de ficar na minha página. São pessoas que realmente querem adquirir meus serviços. Quando um cliente me indica, geralmente ele passa meu Instagram. Então, vale muito a pena. É uma vitrine muito importante”, completou Natália Salomão.
Além de alcançar crescimento na quantidade de clientes, o trabalho na rede social ajudou a esteticista a aumentar o faturamento. Isso porque, segundo ela, os clientes veem e avaliam no Instagram a qualidade de procedimentos mais simples, como uma limpeza de pele e um tratamento capilar, feitos por Natália. “Eles sentem confiança e acabam fazendo um procedimento injetável, uma aplicação de toxina botulínica. Ou seja, fidelizo clientes que ganham confiança para fazer procedimentos de tíquete médio maior”, disse.

Para quem quer adotar o Instagram profissionalmente, Natália Salomão tem algumas dicas:
- Quanto mais seguidores, melhor? Não necessariamente.
- Crie vínculo com os seguidores: a pessoa precisa ver que você é real, que está disposto a ajudar e não apenas a vender um produto.
Atuante nas redes, jovem viu necessidade de se qualificar
Em 2018, Rane Ramos tinha 21 anos, 1,66 de altura e 84 quilos. “Beirava a obesidade. Faltava um ponto para isso”, lembrou a nutricionista, que hoje tem 29 anos. Na época, ela já usava as redes sociais para dar dicas de beleza e maquiagem quando decidiu melhorar a alimentação. Perdeu 28 quilos em seis meses e chamou a atenção das seguidoras. (Veja o Instagram)
“Elas me perguntavam como emagreci e eu comecei a contar o que deu certo para mim: não houve dieta secreta, foi mudança de hábito. Eu percebi que somos o que fazemos a maior parte do tempo. Ou seja, na maior parte do tempo eu como de forma saudável; os outros 10% não vão diferenciar tanto. Se estou em uma confraternização, eu como um doce e sei que isso não vai me engordar”, contou.

O compartilhamento da experiência na internet agradou Rane, que começou a ter mais interesse em entender sobre emagrecimento. Ela fez cursos técnicos na área de alimentação e iniciou uma graduação em nutrição. Está formada há um ano e segue ajudando mulheres que buscam a perda saudável de peso.
“A rede social me ajuda a divulgar meu projeto, chamado Magra Decidida. É como se fosse uma Netflix. Eu chamo de Raneflix. Toda semana, produzo e posto novos vídeos e desafios para as minhas meninas. Elas me acompanham e, como estão em grupo, não se sentem sozinhas, trocam experiências e se fortalecem nesse processo, que é a perda de peso”, afirmou.

Segundo ela, um dos conceitos tratados no clube de assinantes é a inversão de uma frase popular, que diz que é preciso emagrecer para ficar saudável. “É o contrário. É preciso ficar saudável para conseguir emagrecer. Para conseguir perder peso, você tem que ser saudável, comer comida de verdade. Não adianta emagrecer sem se manter saudável, pois se engorda novamente, perde massa muscular”, disse.
Mentor esportivo começa jornada on-line
Ex-jogador e técnico de futebol, além de profissional bacharel e licenciado em educação física, Renato Domingos, de 45 anos, decidiu aproveitar a experiência adquirida durante uma década e meia na área e se tornou mentor esportivo.
“É um trabalho em que guio atletas e seus pais no percurso à profissionalização no futebol. Entre os conceitos e técnicas, mostro o passo a passo, abordo a importância da saúde mental para o esporte e quais erros evitar. Ou seja, ajudo a desenvolver não só o talento, como também o potencial humano”, contou. (Veja o Instagram)
Essa atuação, iniciada em 2000, ganhou reforços no último semestre: além de toda a rede de contatos que Renato já tinha, ele fez cursos sobre mídias sociais e inteligência artificial e passou a manter um perfil no Instagram como forma de aumentar a clientela. Segundo ele, a prática tem facilitado a comunicação e aumentado o alcance com o público.

“Tenho identificado que a demanda de atletas por mentoria, seja em grupo ou individual, tem aumentado. Também está maior o número de seguidores, com mais visualizações, parcerias com instituições e convites para palestras”, declarou. No perfil, Domingos posta sobre assuntos pertinentes ao futebol, além de temáticas adequadas a pais e atletas. “Foco na gestão de carreira, saúde mental, parte tática, técnica e física, assim como estudos da área”, encerrou.
Especialistas dão orientações para quem quer começar
O primeiro passo para quem quer usar as redes sociais para ampliar ganhos e atrair mais clientes é anterior ao uso virtual em si.
“Antes de abrir a câmera ou escrever um texto, é preciso definir com clareza quem é esse profissional, qual problema ele resolve e para quem. Muitos erram ao tentar falar com todo mundo ao mesmo tempo. Redes sociais funcionam melhor quando o conteúdo conversa diretamente com uma dor específica do público”, afirmou o especialista em Gestão de Negócios e CEO da SIS Consultoria, Éber Feltrim.

Segundo ele, após essas definições, é importante organizar o básico: ter um perfil profissional bem preenchido, com foto adequada, descrição objetiva da atuação, cidade de atendimento e canais de contato claros.
Feltrim também indica como fator essencial a constância do trabalho virtual. Ou seja, não adianta postar muito em uma semana e desaparecer por um mês. De acordo com o especialista, é preferível começar com pouco, mas de forma regular, entendendo que o crescimento é gradual e cumulativo.
Especialista em Marketing e Gestão Comercial, a gestora da Una Pouso Alegre, Priscila Gomes, lembra que, com publicações frequentes, é mais fácil chegar aos resultados “a partir do momento em que você vai ter mais opções de datas e horários para analisar”.
Sobre o que falar nas redes sociais
Outro passo muito importante é decidir o que falar nesse espaço de orientação que é a rede social. Priscila Gomes sugere que o criador de conteúdo mantenha o foco no cliente. “A maneira de selecionar o que falar nas redes sociais é fazer o exercício de identificar quais pautas são possíveis e relevantes na sua área e para o seu cliente, quais pautas são desnecessárias e não entram nessa organização de conteúdos. Sempre o olhar deve ser para o público e para o cliente desejado”, disse.
O estrategista de marketing para empresas Bernardo Ribeiro complementa que a chave para escolher os conteúdos está em entender que a autoridade virtual não vem do “falar difícil” e, sim, de ser útil e resolver problemas. Segundo ele, muita gente comete o erro de transformar o conteúdo em uma aula técnica ou, no outro extremo, em algo raso demais, mostrando apenas lifestyle. O equilíbrio acontece quando o profissional traduz o conhecimento técnico para situações reais do dia a dia do cliente.

“Para simplificar, veja um exemplo no setor imobiliário: em vez de explicar o mercado em termos complexos, o corretor deve mostrar como aquela decisão impacta o tempo, o dinheiro e a tranquilidade da família do cliente. Quando você ensina com empatia e compartilha conhecimento, bastidores e opiniões reais, você deixa de ser apenas um profissional e passa a ser uma pessoa relevante. É isso que atrai o cliente certo. Isso vale também para um médico, um psicólogo ou um advogado que deixa de falar o óbvio e decide se aprofundar em conteúdos ricos”, disse.
O especialista em Gestão de Negócios e CEO da SIS Consultoria, Éber Feltrim, afirma que é importante o criador assumir uma postura educativa. “Redes sociais não são consultório, mas espaços de orientação. Quando o conteúdo ajuda, esclarece e antecipa dúvidas comuns, ele cria confiança, que é o principal ativo para converter seguidores em clientes”, completou. Veja outras dicas de Feltrim:
- A escolha dos temas deve partir da rotina real do profissional.
- As melhores pautas não estão em tendências virais e, sim, nas perguntas que se repetem no consultório, no escritório ou na clínica. “Quando um paciente pergunta várias vezes sobre o mesmo assunto, aquilo é conteúdo”, afirmou.
- Conteúdos educativos, explicativos e preventivos geram mais resultado do que tentativas de autopromoção.
- Explicar processos, esclarecer mitos, comentar mudanças de comportamento, orientar sobre erros comuns e mostrar bastidores da profissão aproxima o público e humaniza a autoridade.
“É importante também respeitar os limites éticos de cada área. Profissionais da saúde e do direito não precisam expor casos nem prometer resultados. O foco deve estar na informação qualificada e na orientação responsável. Redes sociais bem usadas funcionam como uma extensão da reputação profissional”, disse Feltrim.
Importante: profissionais regulamentados não podem tratar a comunicação digital como publicidade comum. Ou seja, existem limites claros sobre promessas de resultados, exposição de casos, uso de depoimentos, linguagem sensacionalista e autopromoção excessiva. Respeitar essas diretrizes não apenas evita problemas legais e sanções dos conselhos, como também fortalece a credibilidade do profissional.
Mais dicas: patrocínio, colaborações e frequência
Ainda de acordo com o especialista em Gestão de Negócios e CEO da SIS Consultoria, Éber Feltrim, do ponto de vista técnico, o primeiro erro é acreditar que só conteúdo orgânico resolve. Segundo ele, o alcance nas redes sociais é limitado, e o patrocínio, quando bem feito, acelera resultados. “Não se trata de impulsionar tudo, mas de investir estrategicamente nos conteúdos que já performaram bem de forma orgânica, o que indica interesse real do público”, declarou.
Outra técnica que pode ajudar é fazer colaborações, desde que façam sentido. Um exemplo positivo são profissionais complementares, que atendem públicos semelhantes e podem trocar audiência de forma qualificada, como médicos conversando com nutricionistas ou advogados dialogando com contadores, sempre com foco informativo.
Em relação à frequência, o ideal é encontrar um ritmo sustentável: para a maioria dos profissionais liberais, de duas a quatro postagens por semana já são suficientes para gerar presença, desde que haja consistência. “Mais importante do que quantidade é clareza de mensagem e regularidade”, completou Feltrim.
Por fim, o especialista lembra a importância de acompanhar os dados e resultados. Métricas como alcance, engajamento e salvamentos ajudam a entender o que funciona e a ajustar a estratégia. “Quem trata redes sociais como ferramenta de negócio precisa olhar para elas com a mesma seriedade que dedica à gestão financeira ou ao atendimento ao paciente”, encerrou.
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