Salário de profissionais do mercado digital cai em Minas, mas Estado se consolida como polo de tecnologia e IA

Remuneração média estimada recuou 3,92%, em um ano, enquanto Minas Gerais respondeu por 9,07% dos participantes de pesquisa nacional; especialista do setor aponta desafios na progressão de carreira e na retenção de talentos
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Salário de profissionais do mercado digital cai em Minas, mas Estado se consolida como polo de tecnologia e IA
Foto: Reprodução/ Adobe Stock

A remuneração média estimada dos profissionais de tecnologia e produtos digitais em Minas Gerais caiu 3,92% em um ano, passando de R$ 12,10 mil em 2025 para R$ 11,63 mil em 2026. Apesar do recuo, o Estado mantém uma posição de destaque no mercado: foi o segundo com maior participação na sétima edição do Panorama do Mercado de Produto 2026–2027, levantamento elaborado pela PM3, com 9,07% dos 2.337 participantes da pesquisa. São Paulo ficou na liderança com 48,07%.

A pesquisa aponta ainda que 32,07% dos profissionais do Estado ganham remunerações mais baixas, entre R$ 2 mil e R$ 8 mil. Já a proporção de respondentes que recebem mais de R$ 21 mil por mês caiu de 9,49% para 7,55% entre as duas edições.

Para o CEO da PM3, Raphael Farinazzo, o resultado não deve ser interpretado isoladamente como um enfraquecimento do mercado mineiro. Segundo ele, a alteração pode estar relacionada ao perfil dos profissionais que participaram do levantamento, além de fatores como migração de talentos, trabalho remoto e volume de vagas.

“Isso pode refletir uma base maior de profissionais em posições iniciais e intermediárias, o que não significa, necessariamente, um mercado menos dinâmico. Minha leitura é de um mercado heterogêneo”, destaca. Segundo Farinazzo, o setor mantém posições de alta remuneração, mas ainda tem o desafio de abrir mais caminhos de progressão para especialistas e líderes. “A faixa de liderança intermediária precisa de mais atenção, não só em Minas Gerais, mas em todo o Brasil”, completa.

Minas pode ampliar espaço em produtos digitais e Inteligência Artificial

Na avaliação de Farinazzo, Minas Gerais já reúne condições para se posicionar como um polo consolidado de Produto e Inteligência Artificial (IA). A participação no levantamento nacional e a mobilização de profissionais em eventos do setor são sinais da atividade desse ecossistema.

O executivo cita encontros da comunidade Pcamp Pocket realizados em Belo Horizonte, eventos que, em algumas ocasiões, segundo ele, superaram os números de São Paulo em quantidade de participantes. O Pcamp é considerado um dos maiores de gestão de produtos digitais da América Latina. Para o CEO, a adesão demonstra o interesse dos profissionais mineiros por capacitação, troca de experiências e networking.

O movimento também aparece nas empresas. Segundo Farinazzo, organizações com atuação em Minas Gerais recorrem à PM3 para capacitar equipes em gestão de Produto e Inteligência Artificial. Entre os exemplos está uma jornada de formação em IA realizada com a Localiza, companhia que surgiu na Capital e ganhou projeção nacional.

“O próximo salto não é só contratar mais profissionais de Produto. É abrir espaço nas decisões estratégicas dessas organizações para novas pessoas”, afirma.

Trabalho remoto amplia disputa por talentos

Raphael Farinazzo aponta ainda que a possibilidade de trabalhar à distância para empresas de outras regiões também muda a dinâmica de contratação em Minas Gerais. Profissionais que vivem no Estado podem disputar vagas nacionais e internacionais sem precisar se mudar, enquanto as empresas mineiras passam a concorrer com organizações de outros mercados pela contratação dos mesmos talentos.

Nesse cenário, salário competitivo, segundo o CEO, é importante, mas não basta para atrair e manter profissionais experientes. O Panorama aponta que a remuneração foi mencionada entre as três prioridades para a escolha de um novo emprego por 55,54% dos participantes. O modelo remoto ou híbrido apareceu em 49,08% das respostas, enquanto o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho foi citado por 43,35% dos respondentes.

A cultura organizacional também se destaca: foi escolhida como o fator mais importante na busca por um novo emprego por 21,01% dos respondentes, o maior percentual entre as alternativas quando considerada apenas a primeira escolha.

Para Farinazzo, esses resultados mostram que a retenção depende de uma combinação de condições. “Para reter talentos, as empresas precisam somar ao salário competitivo uma progressão clara, reconhecimento, problemas relevantes para resolver e espaço para influenciar decisões”, diz o CEO.

Inteligência Artificial transforma as competências exigidas

A expansão da Inteligência Artificial (IA) é outro vetor de transformação do mercado de produtos digitais. Na edição 2026–2027, o Panorama identificou que mais de 60% dos profissionais já utilizam IA frequentemente ou sempre para aumentar a produtividade ou no processo de desenvolvimento de produtos. O uso é mais intenso na análise de dados, atividade em que 70,09% dos participantes relatam essa frequência.

A tecnologia, entretanto, não elimina os obstáculos tradicionais da área. Decisões baseadas em dados foram apontadas por 52,42% dos respondentes entre os principais desafios enfrentados nas empresas. O uso de IA nos produtos apareceu entre as dificuldades para 34,66%, enquanto o gerenciamento de diferentes públicos envolvidos nas decisões (os chamados stakeholders) foi mencionado por 36,46%.

Os resultados, segundo o levantamento, indicam que a demanda por profissionais vai além do domínio de ferramentas tecnológicas. A capacidade de interpretar dados, compreender problemas dos usuários, alinhar áreas internas e relacionar decisões de produto aos resultados do negócio continua relevante.

Elaborado pela PM3, escola de negócios e produtos digitais do Brasil, o Panorama do Mercado de Produto 2026–2027 foi construído a partir de um questionário on-line, anônimo e autodeclarado, aplicado entre junho e agosto de 2026. A pesquisa reuniu 2.337 participantes, em todo o País, e abrange profissionais de gestão de produto, design, marketing, operações, dados, tecnologia, projetos e funções relacionadas, além de lideranças do setor. As remunerações médias são estimativas calculadas a partir das faixas salariais declaradas e devem ser interpretadas como indicadores da amostra, não como médias exatas de todo o mercado.

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa. 2º lugar no prêmio Adep-MG de jornalismo 2026


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