Gestão

Em Minas, Bjorn Lomborg aposta em análise de custo-benefício para elevar eficiência do gasto público

Curso com o cientista político dinamarquês na FJP reuniu gestores e reforçou a importância da priorização na formulação de políticas públicas
Em Minas, Bjorn Lomborg aposta em análise de custo-benefício para elevar eficiência do gasto público
Professor Bjorn Lomberg, do Copenhague Conseus Center, especialista em gestão pública e otimização de recursos | Foto: Maria Moura/ Fundação João Pinheiro

Um dos grandes dilemas do poder público brasileiro é saber utilizar bem os recursos oriundos dos impostos do contribuinte, eliminando brechas que possibilitam a corrupção. Isso é possível com o desenvolvimento de práticas de gestão e execução de projetos, movimento que a Fundação João Pinheiro (FJP) encabeça em Minas Gerais.

Uma das iniciativas da fundação foi trazer o cientista político e estatístico Bjorn Lomborg, professor, fundador e presidente do Copenhagen Consensus Center, da Dinamarca, para um curso de cinco dias na instituição. Considerado pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, Lomborg teve a missão de compartilhar seu conhecimento com secretários, gestores e toda a cadeia de planejamento econômico do Brasil.

O curso Best Things First: Benefit-Cost Analysis in Practice (Priorizando o que é melhor: análise de custo-benefício na prática), ofertado entre os dias 2 e 6 de fevereiro, na sede da FJP, reuniu profissionais de Minas Gerais e de vários estados. O segredo que queriam desvendar com o professor Bjorn? O “santo graal” da melhor forma de aplicar recursos públicos e extrair o melhor de cada projeto.

Em entrevista exclusiva ao Diário do Comércio, o professor adianta: não há recursos em abundância no mundo.

“Fundamentalmente, não há dinheiro suficiente para fazer tudo. E, se não conseguimos resolver todos os problemas, tentamos focar no melhor que podemos fazer com cada real gasto. Às vezes, focamos em problemas que têm muita saliência e, muitas vezes, as melhores políticas são um pouco desagradáveis. Então, tentamos investigar quanto custa, o quanto se pode fazer com isso e fazer o que é preciso com o que temos”, detalha.

Focar no que é importante

Uma das perspectivas trazidas pelo curso do professor Bjorn é saber focar no que é importante. Parece óbvio, mas Lomborg lembra que a dispersão na hora de escolher projetos pode ser fatal para uma boa política pública.

“Quando se trata de discussões públicas, a sensação é que devemos fazer todas as coisas boas, o que, claro, não é possível. O Brasil, por exemplo, que é conhecido por ser forte em desenvolvimento sustentável, promete sempre fazer todas as coisas boas para todos, mas não há dinheiro suficiente no mundo para isso. É preciso priorizar, mas ninguém quer falar sobre isso”, explica.

Ele sugere, ainda, elencar e avaliar o que é preciso fazer. “O que você quer fazer? Mais educação? Educação primária? Mais educação secundária? Mais infraestrutura de tráfego? Mais segurança pública? Não é possível fazer tudo, e uma forma de avaliar isso é pensar em quantos produtos sociais é possível gerar para cada real investido”, analisa.

Professor Bjorn Lomberg, do Copenhague Conseus Center- Especialista em gestão publica e otimização de recursos
Professor Bjorn Lomberg mostra a gestores brasileiros que é preciso focar no que realmente importa | Foto: Maria Moura/ Fundação João Pinheiro

Mais eficiência na educação

O cientista político dinamarquês também traz uma provocação polêmica sobre educação.

Para ele, remunerar melhor os professores não indica, necessariamente, maior eficiência no ensino e na aprendizagem.

A teoria de Lomborg é que a criação de planos estruturais, com metas e avaliação de resultados, pode ser mais eficaz do que apenas pagar mais aos profissionais. A alocação correta dos recursos seria, em sua visão, desenvolver metodologias capazes de extrair o melhor desempenho do profissional de forma mais funcional, impactando diretamente a vida do aluno.

Um exemplo citado por ele são planos estruturados para educadores: “Se você ajuda os professores com instruções muito claras sobre o que eles podem fazer a cada hora, isso pode influenciar de forma positiva o ensino. Aqueles que aplicam as instruções podem alcançar uma melhora de 20% a 40% na aprendizagem dos alunos. E isso fará com que eles se tornem melhores professores”.

Realidade brasileira

No curso oferecido pelo Copenhagen Consensus Center na Fundação João Pinheiro, houve uma troca de ideias entre os gestores, mas algo chamou a atenção do professor Bjorn Lomborg. Alguns participantes do curso não tinham uma percepção clara sobre o que poderia trazer o melhor custo-benefício.

O professor, porém, viu na situação a oportunidade de disseminar suas ideias e conceitos, para que gestores mineiros e brasileiros passassem a enxergar melhor como boas práticas de gestão podem fazer toda a diferença para quem ajuda a planejar e desenvolver cidades e pessoas.

“Para muitos dos participantes, escolher o que pode ser mais eficiente e com maior custo-benefício não é a questão mais relevante. Mas, honestamente, vi muitas oportunidades no curso e no contato com as pessoas para utilizar os modelos de custo-benefício no Brasil”, finalizou Lomborg.

Insightsmade in Brazil

Para a chefe de gabinete da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), Vanice Ferreira, o curso foi uma oportunidade para novos insights na gestão pública.

“A Codemge direciona investimentos e recursos para diversos projetos, em parceria com o Estado. Seria muito interessante realizar uma análise de custo-benefício antes da definição de quais projetos serão apoiados. Acredito que, com isso, qualificaríamos as escolhas e geraríamos maior valor com os mesmos recursos. Esse ciclo de melhoria contínua nas políticas públicas permite que tomemos decisões mais estratégicas, aprendamos mais rapidamente e geremos mais benefícios para a sociedade”, disse.

Já o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Almir de Oliveira Júnior, que também participou do curso, revelou que a parceria com o instituto já possui outros desdobramentos no Brasil, com colaboração para a troca de experiências e a adoção de metodologias que incrementem e melhorem a gestão pública.

“O grupo do Copenhagen Consensus tem discutido conosco metodologias relevantes para aplicação no Brasil, especialmente em áreas sensíveis à opinião pública, como segurança, saúde e educação. A visão do curso e os métodos do professor Bjorn ajudam nesse processo, pois se observa, por exemplo, uma dinâmica eleitoral que pode levar à adoção de medidas que sobrecarregam os cofres públicos com programas sociais, muitas vezes com resultados menos efetivos do que os divulgados”, diz.

Ele também reflete sobre seu papel na gestão pública. “Como técnicos do governo federal, nosso papel é orientar para que as mudanças nas políticas públicas sejam implementadas de forma incremental. Dada a limitação de recursos para solucionar todos os problemas sociais, as medidas devem ser implementadas de forma racional e planejada, visando à melhoria da qualidade da educação, à redução da violência, entre outros aspectos”, conclui.

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