Sob ataque no caso Master, BC vive clima de desconfiança com investigação interna
Brasília – O Banco Central vive um clima de desconfiança entre os servidores depois da abertura de uma investigação interna, a pedido do presidente Gabriel Galípolo, para apurar eventuais falhas no processo de supervisão e fiscalização do Banco Master.
De acordo com relatos de funcionários do BC, ouvidos sob condição de anonimato, as informações sobre o tema estão restritas a um grupo de servidores, e essa opacidade gera questionamentos e incertezas sobre a conduta de funcionários do banco. A maior preocupação relatada é que o BC e o seu corpo técnico se transformem em bode expiatório em meio à troca de acusações no caso.
O órgão regulador é conhecido pelo seu forte corporativismo e foi difícil até mesmo formar os membros da comissão de sindicância, de acordo com relatos obtidos pela reportagem.
Com o avanço da investigação, o chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana, e o chefe-adjunto da área, Paulo Souza, entregaram seus cargos de confiança. A saída foi oficializada na quinta-feira (29) no Diário Oficial da União (DOU).
Para um servidor da autoridade monetária, não está claro se os colegas deixaram suas funções comissionadas para permitir um avanço mais imparcial das investigações pela corregedoria do BC ou se eles foram obrigados a deixar os cargos de confiança porque já foi identificada alguma falha pela sindicância.
O risco de resistências do chamado “RH do BC” [recursos humanos] à abertura da sindicância entrou no radar de Galípolo ao pedir a investigação interna após a liquidação do banco Master.
Mas não há até o momento um sentimento generalizado de apoio ou de repulsa ao escrutínio que está sendo conduzido a pedido do presidente do órgão. No quadro funcional, muitos estão desconfiados e tentando entender o que, de fato, aconteceu no escândalo envolvendo o Banco Master e seus desdobramentos.
Servidores questionam, por outro lado, se o intuito do descomissionamento dos chefes do departamento de Supervisão Bancária tenha sido para preservar a investigação, uma vez que o atual diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, não se afastou.
Outro interlocutor relata o sentimento de insegurança, sobretudo em departamentos envolvidos diretamente no caso Master. Na visão dele, o sigilo em torno dos motivos para abertura da investigação leva a crer que o objetivo final da sindicância é apontar culpados, e a falta de proteção legal é prejudicial para o trabalho da autarquia.
Entre dirigentes do setor bancário, a leitura da decisão do presidente do BC foi a de que ele é o primeiro a ter interesse em identificar o que aconteceu para que não haja dúvidas sobre a condução técnica do caso. Outra percepção é que Galípolo não autorizaria essa sindicância se não tivesse seguro de que ela vai trazer resultados positivos para o BC, inclusive de aprendizado.
Até o momento, não há acusações formais contra os dois servidores afastados do BC. De acordo com uma fonte a par dos procedimentos, a análise não é uma caça às bruxas. O plano é usar o episódio envolvendo o caso Master como uma autópsia para aperfeiçoar procedimentos e condutas se eventos semelhantes vierem a ocorrer no futuro.
O processo está sendo conduzido sob sigilo pela corregedoria do BC. Ainda não há prazo para o término da investigação. Havia a expectativa de que um primeiro relatório fosse elaborado até o fim de fevereiro, mas a área tem total autonomia no caso, e a análise pode levar mais tempo em caso de desdobramentos e novas sindicâncias.
Em nota, a ANBCB (Associação Nacional dos Auditores do Banco Central), que representa uma parcela dos servidores, disse seguir acompanhando com atenção as investigações em curso relacionadas ao caso Master e confiar no trabalho “técnico, colegiado e responsável” do BC.
Segundo a entidade, os servidores atuam com base em processos “formais, documentados e colegiados”, especialmente em áreas sensíveis como fiscalização, supervisão e resolução de instituições financeiras.
“Esses procedimentos incluem mecanismos permanentes de controle interno, rastreabilidade decisória, auditoria e prestação de contas, que amparam a correção técnica das decisões e permitem seu contínuo aperfeiçoamento institucional”, afirma.
“Avaliações conclusivas e eventuais responsabilizações devem ocorrer nos foros competentes, com base em fatos apurados, provas documentadas e pleno respeito ao devido processo institucional”, acrescenta.
Reportagem distribuída pela Folhapress
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