Azeite saborizado mineiro é eleito o melhor do mundo
Utilizado pela humanidade há mais de dois mil anos, o azeite já foi chamado de ouro líquido pela sua raridade e propriedades que favorecem a saúde. Dizem que os melhores são os europeus, mas no Brasil, ou melhor, em Minas Gerais, alguém é capaz de surpreender o mundo e anda conquistando os mais sofisticados e exigentes paladares, tornando esses azeites ainda mais saborosos.
Para contar essa história, o Diário do Comércio foi conhecer a Kochen Azeites Saborizados, em Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), e a sua fundadora, a sommelier de azeites Katya Salomão. Ela seleciona os melhores azeites do Sul de Minas e dá a eles sabores especiais.
Como surgiu o interesse pelos azeites?
A história começou lá atrás. Eu era bailarina da Fundação Clóvis Salgado, de Belo Horizonte, e precisava manter o peso. Então, com 14 anos de idade, mais ou menos, naquela fase em que a gente ganha peso com muita facilidade, na necessidade de controlar, eu fazia muito regime. Regime, naquela época, era salada e carne.
Eu venho de uma família síria, onde a gente consome muito azeite. Se você conhece algum sírio, sabe que ele não coloca azeite na comida, mas coloca comida no azeite. Aí, a minha avó paterna me ensinou a saborizar azeite para a dieta ficar mais fácil. A vida inteira saborizamos azeite para consumo dentro de casa. Aí, depois eu montei a academia, e minhas alunas pediam, quando faziam dieta, para saborizar azeite, mas eu fazia para uma aluna ou outra, era uma coisa super artesanal.
Até que um dia uma amiga pediu para eu fazer 30 garrafas de azeite para ela dar de presente de formatura. Aí, quem ganhava, gostava e pedia para eu fazer para dar de presente de Natal para os amigos e familiares. Então foi aí que eu vi que a possibilidade de negócio era real. Essas 30 garrafas viraram 400.
Então, quando eu vi que tinha possibilidade de transformar em um CNPJ, comecei a estudar. Até então, eu fazia com azeites que encontrava no mercado. Fiz um curso de sommelier de azeite na Itália e vi que eu fazia tudo errado. Eu falei: “Meu Deus, o pessoal gostava. Se eu fizer direitinho, então vai ser bem bacana”.
E dito feito. Aí a gente começou a fazer com mais critério, selecionando melhor o azeite. Com isso, conseguimos elevar muito a qualidade do produto. Só então fiquei confortável para mandar meu produto para fora. Mandei para um concurso na Itália, em 2022. Mandei seis sabores e voltei com três medalhas de ouro e três medalhas de prata. Isso, para mim, foi fabuloso.
Depois busquei outro curso de sommelier pelo Uruguai, mais um pela Austrália e outro novamente na Itália, sempre estudando e buscando melhorar a qualidade do produto. E o resultado foi que, em 2024, ganhamos o título de melhor azeite saborizado do mundo, na Itália. É estupendo porque a gente não tem essa tradição no Brasil.
O brasileiro está começando a entender de azeite. Até hoje eu escuto: “Nossa, eu gosto daquele azeite com gosto de azeitona”. Aquele azeite com gosto de azeitona é um azeite com defeito, e as pessoas não sabem disso. É muito legal, estamos começando a fazer azeite de qualidade muito bacana.
Então, essa característica que a gente está encontrando em Minas Gerais, no Rio, em São Paulo e no Rio Grande do Sul é muito interessante para posicionar bem o Brasil no exterior. Agora, o desafio no meu setor é que eu comecei com azeite saborizado, que não tinha no Brasil. Eu fui a primeira. O que eu faço é a reprodução da sabedoria dos meus ancestrais.
Eu aprendi com a minha avó, que aprendeu com a mãe dela. Então, é um caminho que a gente desbrava mesmo. A gente colocava o azeite na boca do cliente, para fazer ele degustar, provar, ver que é diferente, ver que é gostoso.

E Vespasiano, como aconteceu essa escolha?
Eu nasci aqui em Vespasiano e comecei no porão da fazenda. Depois chegou num ponto que não cabia mais. A gente precisava encontrar uma sede no perímetro urbano, principalmente por causa da expedição. Encontrar uma transportadora que aceite entrar numa estrada de terra, por exemplo, não é muito fácil. Então resolvemos vir para a cidade. Ainda estamos em obra. O projeto arquitetônico é fazer um celeiro para remeter à fazenda. Teremos um espaço de degustação logo na entrada.
E na fazenda vocês produzem os insumos, né?
Quase todos. O azeite eu compro de um fornecedor no Sul de Minas. E alguns insumos não têm no Brasil, como, por exemplo, o cardamomo e o pistache. O resto a gente planta, como alecrim, manjericão, tomilho, entre outros.
E assim você garante a identidade, o terroir do seu produto, certo?
Com certeza, é um ponto muito interessante. O manjericão que é plantado aqui vai apresentar um sabor; o que é plantado em outro local, outro sabor. O consumidor nem sempre percebe essas diferenças, mas ele sabe que gosta mais de uma marca ou de outra.
E plantar oliva, fazer azeite, está nos planos?
Por enquanto, não. É difícil e cruel. A oliveira depende de vários fatores para poder apresentar um resultado final. Primeiro, precisa do frio. As condições climáticas são determinantes. Depois, o solo. Não pode ser muito argiloso, a umidade tem que ser controlada. Enfim, são várias coisas que precisam ser observadas. E tem o controle de pragas.
Além disso, a azeitona só aparece uma vez por ano. Então você espera o ano inteiro pelo momento da florada. Se, no momento da florada, chove e a flor cai, aquela florzinha não vai virar fruto. Então é uma colheita perdida.
Se tiver dado tudo certo, pode vir uma praga ou até mesmo a formiga, que é um dos nossos principais desafios. Enfim, não existe certeza de uma colheita depois de um ano. Aqui em Minas, começa em janeiro, fevereiro, mais ou menos, para ter uma colheita boa. É muito comum um ano de boa colheita e outro não. É uma caixinha de surpresa. Já temos um pequeno pomar, mas essa região é muito quente. Então não tenho certeza de que teremos frutos.
Já são mais de 30 sabores. Como você escolhe? Os clientes costumam sugerir novos sabores? Já atendeu alguma sugestão?
Eu posso perder um mês pensando: “Preciso fazer um azeite novo” e não vem nenhuma ideia. E, do nada, vem um insight. Agora, quem ajuda muito é o cliente. Uma vez, um cliente falou assim: “Nunca pensou em fazer com mel?”. Está sendo desafiador para mim, ainda não consegui encontrar o caminho, mas estou tentando.
Eu estava numa feira em São Paulo e alguém sugeriu fazer com alho negro. Eu nunca tinha pensado nessa possibilidade. Aí eu fiz três receitas diferentes e chamei as pessoas para provarem. Recentemente eu estava no Brumadinho Gourmet e um cliente falou: “Nossa, eu sempre quis um de camarão”. Tentei e deu super certo.
Esse pioneirismo deve trazer uma série de estranhamentos, né? Desde uma fábrica de azeites numa região de mineração até um azeite brasileiro ganhando prêmio na Europa.
Nos concursos, os jurados não sabem o nome da marca nem a procedência antes do julgamento. Mas acredito que fiquem surpresos quando descobrem que é brasileiro, sim. Quanto a produzir aqui na região metropolitana, as pessoas já estão acostumadas. Temos uma série de produtos especiais, que vão do uísque e do iogurte ao azeite.
Eu acho que o mineiro tem um viés para o paladar que é muito interessante. Tem uma máxima no mundo do empreendedorismo de tudo que é relacionado à alimentação: se deu certo em Minas, você pode lançar no resto do Brasil que vai dar certo. O mineiro gosta de ir para a cozinha inventar, fazer as coisas. Então não é qualquer coisa que agrada o mineiro. Eu acho que essa exigência é transferida para o produtor. Então o produtor tem dois concorrentes: ele mesmo, que quer fazer uma coisa melhor cada vez mais, e os concorrentes.
Falamos do azeite, que é o grande carro-chefe, mas você tem outros produtos. O que você destaca?
O azeite é onde eu invisto mais, porque é pioneiro. Então eu quero ser mais conhecida por meio do azeite. Mas a fazenda é aqui pertinho e tem muita jabuticaba. Então a gente faz licor de jabuticaba. Também fazemos alguns antepastos, alho negro, uma sardela, um blend de cebola caramelizada, um pesto de tomate seco e um pesto de pistache para colocar na massa, que fica muito gostoso. O nosso creme balsâmico de morango é um sucesso também. A nossa linha é bem ampla, com cerca de 90 produtos.
E como as pessoas encontram os produtos?
Temos o e-commerce no www.costainzeitesaborizados.com.br. É o nosso canal de venda para o Brasil todo. O Instagram é @kochenazeitesaborizados. Também é nosso canal de venda. Temos ainda o WhatsApp comercial, que é o (31) 99788-6627. Por esses três canais é possível fazer a compra direta com a gente. Em Belo Horizonte estamos em vários empórios. Já estamos presentes em 17 estados do Brasil. E nas feiras. Eu amo fazer feira.
Para encerrar, dá uma dica para quem está começando a se interessar por esse mundo do azeite.
O azeite combina com tudo, da entrada à sobremesa. Você pode usar azeite em praticamente qualquer prato, lógico que para cada preparo um azeite diferente. Agora, um que eu brinco que é “feijão sem bicho”, como diz o bom mineiro, é o azeite pesto. Ele combina com tudo: massa, arroz, salada, queijo. É medalha de ouro na Itália. Então essa é a minha dica.
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