Empreendedorismo social avança, mas cobra alto custo emocional
Enquanto ganham espaço no debate econômico e social como agentes de transformação, empreendedores sociais enfrentam um paradoxo pouco visível: lideram iniciativas voltadas ao bem coletivo, mas lidam com altos níveis de sobrecarga, ansiedade e solidão, muitas vezes sem qualquer suporte psicológico. É o que mostra a pesquisa DNA do Empreendedorismo Social, realizada pelo Instituto Legado, que lança luz sobre as dimensões internas dessas lideranças e aponta limites para a sustentabilidade do impacto no longo prazo.
O estudo ouviu 67 lideranças de todas as regiões do Brasil e também do exterior, ao longo de quatro meses, por meio de formulários on-line, entrevistas individuais, grupos focais e atividades em ambiente virtual. A proposta foi ir além da coleta de dados e promover um processo de escuta qualificada e reflexão pessoal entre os participantes.
Um dos principais achados da pesquisa está na origem do propósito que move o empreendedorismo social. Para a maioria dos entrevistados, a motivação não surge de metas externas ou oportunidades de mercado, mas de transformações internas. Cerca de 70% afirmam que o propósito nasce da ampliação da consciência sobre o mundo, enquanto 28,8% relacionam essa motivação a experiências de dor pessoal e 25,8% a sentimentos de solidariedade.
Os relatos indicam que a percepção das desigualdades sociais, das violências e da exclusão funciona como gatilho para a ação empreendedora, muitas vezes após rupturas na trajetória profissional. “Eu trabalhava no varejo e percebi que aquilo não correspondia ao que eu acreditava. Ao estudar impacto socioambiental, entendi que era possível alinhar propósito e profissão”, relatou uma das participantes.
Segundo o presidente do Instituto Legado, James Marins, a pesquisa traduz em dados uma tese já defendida em suas publicações. “O movimento transformador nasce da consciência individual e coletiva. Ao mapear propósito, inovação e atitude psicológica em lideranças reais, conseguimos transformar teoria em evidência concreta para fortalecer o ecossistema de impacto”, afirma.
Custo emocional
Os dados revelam um descompasso entre bem-estar individual e organizacional. Em uma escala de zero a dez, as lideranças atribuíram nota média 7,2 ao próprio bem-estar, mas apenas 6,4 ao ambiente de trabalho. Entre os fatores mais citados estão sobrecarga, equipes reduzidas, dificuldade de conciliar vida pessoal e profissional e a solidão associada à posição de liderança.
O retrato emocional é marcado por contrastes. Sentimentos como esperança, motivação, gratidão e amor aparecem com frequência, sinalizando conexão com o propósito. Ao mesmo tempo, são recorrentes relatos de cansaço, ansiedade, angústia, solidão e insegurança, o que evidencia a pressão emocional do trabalho de impacto.
Apesar desse cenário, apenas 22% dos entrevistados afirmam ter acompanhamento psicológico regular. A maioria recorre a práticas individuais, como meditação, espiritualidade, leitura ou contato com a natureza, e aponta a ausência de estruturas institucionais voltadas à escuta e ao cuidado emocional coletivo.
“Esses dados precisam estar no radar de todo o ecossistema. O impacto não se sustenta se as pessoas que o promovem estão adoecendo ou se sentindo sozinhas”, alerta James Marins.
A pesquisa também analisou como essas lideranças percebem o mundo e tomam decisões. Cerca de 66% demonstram uma visão holocêntrica, voltada ao impacto sobre todas as formas de vida, enquanto 24% adotam uma perspectiva globocêntrica, focada no bem-estar da humanidade como um todo.
Mais de 60% avaliam que suas organizações operam com um propósito que vai além da missão formal. São iniciativas que buscam coerência entre discurso e prática e valorizam princípios como empatia, tolerância e responsabilidade coletiva na tomada de decisões.
Inovação além da tecnologia – No campo da inovação, o estudo aponta que a principal fonte de soluções no empreendedorismo social não está, necessariamente, em ferramentas digitais. Para 62,7% das lideranças, inovar significa mudar a forma de perceber os problemas sociais, antes mesmo de desenvolver novas tecnologias.
Quanto ao tipo de atuação, 42% dos projetos oferecem serviços diretos, como alimentação e educação. Outros 33% trabalham com mudança sistêmica e 36% atuam na transformação cultural, buscando alterar comportamentos, crenças e estruturas sociais. A maioria das soluções nasce da escuta dos territórios e da vivência direta com as comunidades atendidas.
A escuta promovida pela pesquisa evidenciou que muitos desafios enfrentados pelas lideranças de impacto são menos técnicos e mais emocionais e estruturais. A partir desse diagnóstico, o Instituto Legado criou o Programa Legado Interior, voltado ao fortalecimento das lideranças por meio do desenvolvimento humano e do bem-estar organizacional.
De acordo com o coordenador da pesquisa e do programa, Diego Baptista, a iniciativa é uma resposta direta às fragilidades identificadas. “O programa nasce da escuta de quem transforma o mundo por fora, mas muitas vezes se sente fragilizado por dentro. Cuidar das lideranças não é um complemento, é parte da estratégia de impacto”, afirma.
O programa reúne encontros on-line, imersão presencial, mentorias e apoio psicoterapêutico, com foco em segurança emocional, culturas organizacionais regenerativas e integração entre saúde mental e impacto social. A proposta é transformar o cuidado em prática estruturante das organizações de impacto.
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