Pop Kid vive a agitação da Praça Sete há mais de 30 anos
Para conhecer a alma de Belo Horizonte e seus habitantes é preciso entender uma das maiores expressões da Capital: os seus bares e botecos. E, para isso, o Diário do Comércio foi no coração da cidade, a Praça Sete, para conhecer um dos mais importantes bares do hipercentro, o Pop Kid, que completou 43 anos no finalzinho do ano passado.
O espaço agora é comandado por Leandro Câmara, membro da segunda geração.
Há 43 anos no centro nervoso, no coração da cidade. Você já viu a Praça Sete morrer e renascer muitas vezes. Qual o significado de estar nesse lugar?
Completamos 43 anos de existência e neste ponto da Praça Sete, estamos desde 1992. A gente participa aqui de uma maneira muito intensa no dia a dia da cidade. Acompanhamos as mudanças de uma maneira muito próxima. Claro que existem desafios como todo hipercentro das grandes cidades, mas, de um modo geral, é um privilégio.
O Pop Kid também passou pelas suas próprias transformações. Ele é herdeiro das lanchonetes Pop Pastel e Kid Batata, certo?
Sim, foram as nossas primeiras lojas, no início da década de 1980. Minha família antes mexia com material esportivo e precisava ter um estoque muito grande. E aí procuraram outra atividade que não tivesse essa característica de manter um estoque grande parado. E nesse tempo quase não tinha fast food em Belo Horizonte. Então a gente veio com essa ideia e teve uma aceitação muito grande, era uma novidade na época, uma comida rápida na hora e começou com o Pop Pastel e o Kid Batata. Uma só servia pastel e a outra, só batata inglesa recheada. E com o tempo, juntamos as duas e hoje temos o Pop Kid.
Vocês têm um público cativo que quer encontrar aquilo que gosta, mas também quer novidades. Como conciliar as duas coisas?
À medida que o tempo foi passando, a gente foi se profissionalizando, os processos foram melhorando. Essa questão do fast food já não era novidade, então, fomos nos adequando ao mercado, perdendo aquela característica de lanchonete e hoje somos um self service muito conceituado aqui no Centro, com uma qualidade excepcional. Foi de uma maneira natural, o mercado pediu essa atualização e a gente foi fazendo sem perder a nossa identidade, mantendo tanto a batata quanto o pastel no nosso cardápio. Essa tradição da batata, do pastel se mantém para as pessoas que têm essa memória afetiva das lojas do BH Shopping, do Shopping Cidade. Mas tivemos uma evolução no cardápio e principalmente na operação. Hoje somos, também, uma choperia à noite. O bar é uma coisa muito típica de Belo Horizonte, com mesa na calçada e música ao vivo.
Belo Horizonte é a “capital mundial dos bares”. Isso quer dizer que a concorrência aqui é enorme. Como é gerir um bar no Centro da cidade em um cenário como esse?
Eu acredito que as inovações, as tecnologias, as mudanças de processo, você tem que estar antenado, você tem que acompanhar, porém, acredito que o diferencial sempre vai ser as relações humanas. Tanto as relações com o seu cliente interno, os colaboradores, como com o seu cliente. Acho que as pessoas estão carentes de um bom atendimento, de serem acolhidas, de se sentirem especiais. Então, acredito que o nosso diferencial sempre passa pelo atendimento que a gente dá, muito humano, muito próximo. E quando vamos ver nossas avaliações no Google, de fato, a qualidade do nosso chope, da nossa comida é um padrão, mas o nosso diferencial é o atendimento.

Para garantir esse atendimento de excelência você precisa de uma equipe completa e bem treinada. Como você lida com a escassez de mão de obra que assola, praticamente, todos os setores?
Esse é um grande desafio dos tempos atuais. A mão de obra tem mudado e eu acredito que a gente consegue reter boa parte dos nossos funcionários pelo respeito que temos por eles. Isso faz diferença. Tem a questão de um bom salário, de uma carga horária compatível, de uma coisa que seja justa, e estamos conseguindo. Cabe a nós, empregadores, qualificar a equipe e entregar para eles uma condição melhor de trabalho. Isso passa por treinamento, tanto dos líderes quanto dos colaboradores, por qualidade do ambiente de trabalho, pelo respeito e também, obviamente, pela faixa salarial que você consegue pagar. E, devemos estar, realmente, dispostos a fazer mais do que a gente sempre já fez para conseguir reter essa mão de obra. Tenho gente que praticamente me viu nascer aqui. São funcionários de muitos anos.
Esse é um empreendimento familiar, você se formou aqui dentro?
Meu pai e meu tio são os fundadores. Aos 15 anos eu já participava da operação. Pra mim foi muito natural, não tive pra onde correr. É uma coisa que eu faço com muita boa vontade e que gosto muito.
E você já está preparando a terceira geração?
Minha filha é pequena, tem só cinco anos, mas já corre por aqui. Nossa perspectiva é de uma longevidade muito grande e eu espero que um dia ela possa vir trabalhar com a gente.
Você recebe consultas, por exemplo, de gente que quer ser um franqueado ou fazer algum tipo de parceria para levar o Pop Kid para outra cidade? Essa é uma possibilidade?
Sim, recebemos, mas por hora não é nosso objetivo. Também perguntam se damos treinamento de atendimento. Digo que, por hora, não fazemos isso. Pode ser uma consultoria mais para frente.
Voltando a falar sobre esse ponto na Praça Sete. Esse é um lugar por onde passam os festivais culturais, os protestos políticos, as comemorações das torcidas, entre outras manifestações. Como você se planeja para esses eventos mantendo a segurança e a qualidade do atendimento?
O planejamento tem que ser antecipado. Agora teremos o Carnaval, que é um movimento social gigantesco que acontece principalmente na Praça Sete. Então, vamos fazer toda uma ornamentação da casa, a gente cerca com grades para garantir a segurança. Já acompanhamos várias manifestações políticas, comemorações dos títulos dos nossos times. Precisamos prever isso e nos preparar na questão de segurança e até do número de mesas. Por exemplo, no Carnaval a gente quase se transforma num lugar de evento, porque o fluxo de gente é absurdo. No início, passamos alguns apertos porque antes Belo Horizonte não tinha Carnaval. A gente dava folga para os funcionários, então, no primeiro fomos super surpreendidos. Chegamos a fechar as portas porque não conseguíamos atender a demanda. Com o tempo, entendemos esse fluxo, como que a gente precisa se preparar e hoje na data contratamos freelancers, seguranças, fazemos o isolamento com as grades. Esse ano vai ter a Copa do Mundo, que é outro evento que mexe muito com a cidade, já nos preparamos também para isso. E tem os eventos que nos surpreendem como, por exemplo, as manifestações de categorias profissionais, mas conseguimos reagir rápido.
Após tantos anos, você deve ter uma coleção de “causos” pra contar. Você tem algum na lembrança agora?
Consigo lembrar de dois a três pedidos de casamento que aconteceram aqui dentro. Teve um que a história está no nosso Instagram, que até guardou a bandeirinha que vinha ornamentando a batata recheada na época. Hoje a gente recebe netos de pessoas que frequentavam as nossas lojas quando começamos, isso é muito recompensador.
Essas são provas do quanto o Pop Kid está integrado com a cidade, então?
Eu acho que o Pop Kid, além da atividade comercial, tem uma importância para a manutenção do espaço público, para trazer essa vida para a Praça Sete e o Centro da cidade. Hoje em dia, o Centro tem bons números de segurança pública, mas no nosso inconsciente, temos a imagem de um lugar perigoso, degradado. Então, acho que o Pop Kid ajuda muito a trazer vida, manter o ambiente organizado, limpo, onde o turista sai com uma boa imagem. Somos muito gratos a Belo Horizonte e temos certeza da nossa contribuição para o hipercentro. Acredito que o Centro vive um momento muito legal. Tem o Cine Brasil, todos esses espaços como o Terraço Niê, o Mira, que são rooftops em prédios históricos, então é uma nova maneira de utilizar o espaço urbano. O Centro é um lugar muito rico e a cidade merece que ele seja bem cuidado.
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