IA muda portas de entrada no mercado de trabalho e exige novas habilidades dos jovens
A vida laboral sempre seguiu uma lógica de começar por tarefas mais simples e cargos de menor importância e seguir uma progressão hierárquica na qual o trabalhador poderia ascender a partir de uma combinação de critérios objetivos e subjetivos ao longo do tempo. O advento da inteligência artificial (IA), com a automação das tarefas mais simples e repetitivas, no início desta década, porém, está mudando a lógica dentro das empresas.
Se, de um lado, o jovem trabalhador já não tem mais o primeiro emprego como uma etapa de formação, onde aprendia processos, desenvolvia habilidades e acumulava experiência para avançar na carreira, as empresas também precisam, agora, redesenhar funções e desenvolver novas oportunidades para que os profissionais recém-formados possam desenvolver não só competências técnicas, mas, principalmente, habilidades sociocomportamentais.
De acordo com a consultora de educação e internacionalização de carreiras e estagiária do Banco Mundial, Gabrielle Hayashi, o avanço da IA trouxe ganhos evidentes para empresas com ferramentas capazes de atender clientes, organizar informações, produzir conteúdos e apoiar decisões dentro da rotina corporativa em grande velocidade, mas também abriu novas questões sobre as relações de trabalho.
“Junto com o aumento de eficiência, surgiu uma preocupação: a possibilidade de que funções de entrada sejam reduzidas antes que os jovens tenham a oportunidade de construir experiência profissional. Ainda assim, as empresas vão continuar precisando dos jovens com a sua visão sobre o mercado, mas talvez com mais pensamento crítico e criatividade”, explica Gabrielle Hayashi.

Não há outro caminho: a IA precisa deixar de ser vista como uma ameaça ou uma ferramenta de produtividade e ser tratada como uma nova camada de conhecimento profissional.
Para jovens entrando no mercado, saber usar inteligência artificial pode se tornar tão importante quanto dominar idiomas ou ferramentas digitais. O desafio, então, para a academia e as empresas é garantir que os jovens tenham a preparação necessária para assumir essas novas funções e que sejam criadas oportunidades para que desenvolvam as experiências e habilidades que serão exigidas ao longo de suas carreiras.
“Agora, com o jovem podendo deixar o operacional com o suporte da IA, abre-se um pouco mais de tempo para que ele possa tomar responsabilidades maiores dentro do mercado de trabalho. Mesmo em posição de entrada, ele ganha tempo para explorar diferentes questões dentro das empresas, diferentes processos dentro do mercado, com supervisão, claro; mas tomando mais responsabilidades porque tem mais tempo sem as obrigações do operacional”, avalia.
Esse é apenas o início do movimento para que as empresas preparem esses jovens para serem os “seniores do amanhã”, capazes não só de criar os melhores prompts, mas também fazer a crítica aos resultados oferecidos pela IA, somando a eles camadas de criatividade e repertório advindos exclusivamente das experiências e interatividade entre humanos, identificando ou tomando, inclusive, riscos, que apenas a análise objetiva de um volume superestimado de dados não é capaz de revelar ou assumir.
Assim, as empresas precisam se posicionar no mercado e estar onde os jovens estão, utilizando a melhor linguagem para se comunicar com eles. Um bom processo de onboarding e um plano de carreira que mostre o que a empresa pode prover além do aspecto financeiro também é considerado fundamental pela especialista, que destaca, ainda, a necessidade de intermediação ativa da liderança nas relações intergeracionais dentro das equipes.
“No processo de onboarding, a empresa deve deixar claro como a IA é usada no trabalho, se existe treinamento, como será o processo de integração e quais os canais de conversa com a liderança. O plano de carreira deve considerar que o jovem integra o time, que quer ter flexibilidade e também se dedicar ao mesmo tempo, valorizando o senso de comunidade e a troca de valores com a empresa. E, pela primeira vez na história, as empresas podem ter até cinco gerações trabalhando juntas, então, os conflitos entre elas são naturais e exigem um processo de comunicação ativa e de intermediação por parte da liderança, a fim de verificar a satisfação individual do funcionário. Toda tomada de decisão deve ser realizada com base nos objetivos da empresa”, completa.
Estatuto do Aprendiz segue emperrado no Senado
Previsto para ser votado no dia 2 de setembro, o Projeto de Lei 6461/ 2019 – Estatuto do Aprendiz – foi retirado da pauta pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil), alegando pedidos de senadoras e a persistência de divergências políticas e em relação ao relatório apresentado. O texto havia sido aprovado em agosto de 2026 na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) com regime de urgência, mas ainda não passou pela votação final em Plenário.
A proposta estabelece regras para a aprendizagem profissional de jovens e pessoas com deficiência, alterando normas trabalhistas para incentivar a contratação de aprendizes, define direitos e deveres dos aprendizes e empregadores, e cria mecanismos para promover a inclusão social e profissional desses jovens.
Segundo o autor do texto, o deputado federal licenciado André de Paula (PSD-PE), as possíveis consequências da proposta incluem:
- Aumento das oportunidades de trabalho e renda para jovens e pessoas com deficiência.
- Maior inclusão social de jovens em situação de vulnerabilidade ou risco social.
- Incentivo à profissionalização e combate ao trabalho infantil.
- Melhoria na qualificação profissional dos jovens, preparando-os melhor para o mercado de trabalho.
- Criação de um ambiente mais seguro e educativo para o desenvolvimento dos aprendizes.
A expectativa é que o Estatuto do Aprendiz modernize as regras da aprendizagem profissional e ajude a reduzir a insegurança jurídica enfrentada por empresas e entidades qualificadoras. A expectativa é que a nova legislação crie condições para a abertura de até um milhão de novas vagas de aprendizagem nos próximos anos.
O presidente do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee), Humberto Casagrande, destaca que a proposta pode ampliar as oportunidades de primeiro emprego para jovens de 14 a 24 anos.
“Vamos passar de 700 mil vagas que o Brasil tem hoje para mais de um milhão de vagas. Precisamos do apoio de todos para que esse projeto seja aprovado. O Brasil precisa apoiar a nossa juventude, aprovando esse projeto e gerando milhares de novos empregos que os nossos jovens precisam”, afirma Casagrande. (com informações Brasil 61)
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