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Investidor relevante da Hapvida cobra mudanças no comando e venda de ativos

Gestora, segunda maior acionista, pede mudanças para superar "destruição de valor" e recuperar ações
Atualizado em 2 de abril de 2026 • 19:42
Investidor relevante da Hapvida cobra mudanças no comando e venda de ativos
Com mais de 16 milhões de beneficiários, a Hapvida realiza anualmente mais de 17 milhões de exames radiológicos | Foto: Divulgação Hapvida

A gestora de recursos Squadra Investimentos, dona de 6,98% do capital da Hapvida, propôs em uma carta a renovação do conselho de administração da empresa.

Segunda maior acionista da companhia, atrás apenas da família fundadora, a Squadra diz ter intensificado interações com a administração da companhia nos últimos tempos, mas pede mudanças para a formação do próximo conselho, que será definido em assembleia em 30 de abril.

A gestora tem cerca de R$ 18 bilhões em ativos sob gestão. Em seu histórico recente, a Squadra foi ativa em um caso contra a resseguradora IRB, quando, em 2020, publicou um relatório técnico de mais de 100 páginas apontando “inconsistências” e inflação de balanços da empresa.

Procurada, a Hapvida confirma que recebeu a carta mencionada. “O documento está sendo analisado pelo Conselho de Administração com a atenção necessária e a companhia se manifestará oportunamente sobre o assunto”.

Já a gestora não informa desde quando mantém investimentos na empresa. Pela central de sistemas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) é possível ver que a Squadra já tinha participação relevante na companhia em 2022. Após oscilações, a gestora voltou a atingir o patamar de 5% da empresa em março de 2025.

No documento, enviado nesta quarta-feira (1º) e ao qual a reportagem teve acesso, a Squadra aponta uma série daquilo que chama de erros na gestão da companhia do ramo da saúde e diz estar “frustrada” com as tratativas para mudanças no comando da Hapvida.

“Entendemos ser nosso dever fiduciário, como acionistas relevantes, reiterar as razões pelas quais julgamos serem cruciais mudanças na composição do conselho de administração e correções de rumo na condução dos negócios da companhia”, aponta o documento da Squadra, endereçado ao presidente do conselho da Hapvida, Candido Pinheiro Koren de Lima, e ao presidente Jorge Pinheiro, ambos da família fundadora.

A gestora afirma que a Hapvida protagonizou “uma das maiores destruições de valor da história do mercado de capitais brasileiro” desde o IPO, em 2018. No período, a ação caiu 85%, pontua a Squadra, enquanto o Ibovespa subiu cerca de 120%.

A Squadra apontou que aquisições relevantes diluíram a exposição ao negócio original e que a integração de ativos – especialmente após a fusão com a NotreDame Intermédica foi mal executada, estimando uma perda de valor de R$ 80 bilhões. Fora isso, apontou a evolução expressiva do endividamento da companhia do ramo da saúde.

A Hapvida vive uma tempestade perfeita depois de ver suas ações caírem 55,9% em 2025, pressionadas por resultados abaixo do esperado, consumo de caixa elevado e dúvidas sobre a capacidade da companhia de capturar sinergias da fusão com a NotreDame Intermédica, anunciada em 2021 e concluída em 2024. Este ano, os papéis acumulam perda de 27% e a companhia é avaliada em R$ 5,32 bilhões.

Dada a dificuldade da Hapvida de conseguir recuperar e ganhar escala nas operações no Sul e no Sudeste, a gestora sugere a venda de ativos nas regiões. “Julgamos, portanto, fundamental que o alto risco de execução dessa iniciativa seja comparado com o custo de oportunidade da alternativa estratégica de desinvestimentos e consequente simplificação operacional especialmente diante do nível atual de alavancagem, do insucesso acumulado na execução e da perda progressiva de valor dessas subsidiárias enquanto geridas pela companhia.”

A gestora pediu a adoção do voto múltiplo para a eleição do novo conselho e indicou três nomes para o pleito: Tania Chocolat, ex-chefe da CPP Investments no Brasil; Bruno Magalhães e Silva, ex-analista da Squadra; e Eduardo Parente, ex-CEO da Yduqs e chairman da Equatorial Energia. O sistema de voto múltiplo atribui a cada acionista um total de votos correspondente à participação de cada um na empresa. Nesse método, o acionista pode votar em múltiplos candidatos ou concentrar seus votos em apenas um.

O principal motivo da insatisfação é porque a administração recomendou nesta semana a reeleição do atual conselho “por unanimidade e sem quaisquer ressalvas”, com remuneração total prevista de R$ 57 milhões para o ano de 2026, o que representa cerca de 20% da estimativa de lucro da empresa para o período. “Trata-se da terceira maior remuneração total prevista para o atual exercício entre todas as empresas do Ibovespa, com base nas propostas de administração divulgadas”, diz trecho da carta.

A Squadra diz haver um “descompasso com a atual situação financeira da companhia e, sobretudo, com seu próprio desempenho ao longo dos últimos anos” e pede agilidade no processo de transição para um novo CEO na companhia.

A Hapvida é tida como a maior operadora de saúde da América Latina, com 15,9 milhões de beneficiários. No quarto trimestre de 2025, divulgou números considerados ruins, segundo analistas. O lucro líquido ajustado da empresa foi de R$ 180,6 milhões, uma queda de 64,9% em relação a igual período do ano anterior. As despesas, por sua vez, seguiram elevadas, com a companhia registrando prejuízo líquido contábil de R$ 29 milhões.

Em 2025, a Hapvida informou que sua base de clientes foi reduzida em 238 mil nas regiões Sul e Sudeste, sendo São Paulo um dos principais pontos de atrito. Enquanto isso, os dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram que as regiões apresentaram crescimento de 792 mil beneficiários no ano.

Depois de abrir o dia em queda, os papéis da companhia sobem cerca de 1% na tarde desta quinta-feira (2).

Conteúdo distribuído por Folhapress

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