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Livros refletem o presente entre cultura, memória e tecnologia

Lançamentos apostam na palavra para interpretar o mundo, entre memória, cuidado, tecnologia e exaustão contemporânea
Livros refletem o presente entre cultura, memória e tecnologia

Entre manuais que decifram o ambiente digital, romances que costuram memória em fragmentos e livros que iluminam personagens, instituições e debates urgentes, o conjunto de lançamentos a seguir desenha um retrato plural do presente. Em comum, essas obras apostam na palavra como ferramenta de entendimento e transformação, seja para organizar o excesso de informação, registrar legados culturais, ampliar repertórios sobre cuidado e direitos, ou propor caminhos para uma vida menos exausta. Em diferentes gêneros e formatos, cada título convida o leitor a olhar com mais atenção para as relações, para a história e para os sentidos que construímos no cotidiano.

Em “Clique aqui (Click here)”, Alex Schultz, apresentado como um dos maiores nomes do mundo digital, abre a caixa de ferramentas de quem esteve nos bastidores das redes sociais mais usadas do mundo. Com 364 páginas e preço de R$ 74,90, o livro publicado pela Best Business, do Grupo Editorial Record, busca responder ao que realmente importa em uma estratégia de marketing em um cenário saturado de estímulos. A narrativa combina fundamentos do marketing tradicional com seus desdobramentos nas novas tecnologias e insiste no valor da criatividade e das métricas certas. Ao percorrer técnicas consolidadas, como funil de vendas e mecanismos de conversão, Schultz também leva o leitor para o campo das disputas recentes por atenção, descrevendo como o uso de inteligência artificial ajudou empresas como TikTok e ByteDance a ganhar força no Ocidente e pressionar big techs já estabelecidas a reagir. O resultado é um manual que promete ser útil tanto para pequenos negócios quanto para multinacionais, com um recado central, fugir do senso comum e criar uma cultura de paixão pela criatividade com foco em resultados.

Já o romance “Pontos perdidos”, de Deborah R. Sousa, chegou ao público em e-book, depois de ter sido publicado em outubro, em versão impressa, pela editora Impressões de Minas. O texto parte de uma lembrança íntima, uma mulher da família cercada por contas coloridas, e a transforma em ponto de partida para uma narrativa sensível sobre memória, ausências e camadas invisíveis da vida de uma mulher. A protagonista, Maria Helena, lida com a morte da avó, que vivia com demência senil, e a perda abre uma busca por histórias apagadas, individualidades silenciadas e lacunas de origem e identidade. Construído em fragmentos, como um bordado que se recompõe aos poucos, o romance costura corpo, cidade, relações amorosas, tempo e ciclo hormonal, convidando o leitor a tecer identificações no ritmo do texto. A obra chega ao digital com recursos da Lei Complementar nº 195/2022, Lei Paulo Gustavo, com apoio do Ministério da Cultura e da Secult de Minas Gerais, e traz, na própria ficha técnica, a dimensão coletiva do trabalho editorial, com coordenação editorial de Elza Silveira e Wallison Gontijo, preparação de originais de Laura Cohen Rabelo e projeto gráfico de Elza Silveira. O e-book tem valor de R$ 10,00, enquanto o impresso é anunciado a R$ 65,00, com indicação de acesso ao digital por link e orientações de onde encontrar o livro físico.

Legado, memória e outras formas de narrar

A dimensão do legado cultural aparece de forma direta na biografia “Antônio Carlos Marques: sobrenome Cultura”, escrita pela jornalista Diandra Tomaz. O texto de divulgação apresenta Antônio Carlos Marques, popularmente conhecido como “O Professor”, como personagem ligado à cultura de Uberaba, com atuação em manifestações como teatro, circo, música, cultura afro-brasileira e cultura popular, além de ter presidido a Fundação Cultural que hoje leva seu nome. A autora, nascida em 1998, em Uberaba, propõe uma biografia organizada em três partes que foge da cronologia linear. Primeiro, o “despertar cultural do menino-mestre”, depois a “fé múltipla” e, por fim, a vida íntima, com meninice, amores, família e legado.

A literatura volta a experimentar forma e ritmo em “Retratos no espelho”, de José Cristovam, romance que se assume como um “filme escrito” e constrói sua narrativa apenas por diálogos. Com 628 páginas e preço de R$ 119,90, o livro, classificado como romance e anunciado com o subtítulo “Um filme de romance escrito”, se passa na região do ABC paulista e inicia quando um psicólogo decide revisitar um caso marcante de sua carreira, o da família Lebazi Estevam. A trama se move em narrativa não linear, dos anos 1960 ao início de 2020, e em cada conversa surgem fragmentos que compõem um quebra-cabeça de memórias, segredos familiares, conflitos conjugais, tensões entre pais e filhos, reencontros e mágoas. Sem descrições detalhadas de personagens ou cenários, o livro aposta na imaginação do leitor e ainda incorpora uma trilha sonora acessada por QR codes, em que canções citadas no próprio material acompanham o clima de cada cena.

Também guiado pelo olhar, mas em chave de manifesto visual e educativo, “Povo vivo”, de Marcos Goes, reúne reproduções de ilustrações criadas com tintas naturais e nanquim eco para retratar lideranças indígenas brasileiras descritas como vivas, atuantes e fundamentais na defesa dos povos originários e da natureza. Publicado pela Hanoi Editora, o livro apresenta, entre os retratados, nomes como Cacique Raoni Metuktire, Sônia Guajajara, Ailton Krenak, Davi Kopenawa e Joênia Wapichana, além de outras lideranças citadas no material. Ao abordar violências, massacres, demarcação de terras, políticas públicas e crise climática, a obra conecta arte, educação e responsabilidade social. A opção estética pelos pigmentos naturais, segundo o texto, tem dimensão espiritual e sustentável, associada a saberes transmitidos por gerações e a uma produção manual de baixíssimo impacto ambiental. A obra tem 56 páginas e custa R$ 169,90.

Crítica, cansaço e as relações no mundo contemporâneo

O cinema entra na lista por via ensaística com “Woody Allen, 90 anos”, livro organizado pelos críticos Marcelo Müller e Paulo Henrique Silva. A publicação, da editora Letramento, é apresentada como uma opção de presente de Natal. Com 208 páginas e preço de R$ 79,90, o volume reúne textos de dez autores, entre eles Ana Lúcia Andrade, Beatriz Saldanha, Bruno Carmelo, Gabriel Carneiro, Luiz Joaquim, Maria Caú, Neusa Barbosa e Sérgio Alpendre, além dos próprios organizadores. O material propõe tratar em detalhes a extensa filmografia do diretor, incluindo títulos menos debatidos, e investigar temas e especificidades mencionados como caros ao cineasta, como a paixão por Nova York e a aproximação com o cinema de Ingmar Bergman. Também reconhece a controvérsia em torno de Allen, sem colocar isso como apagamento de sua importância, e aponta uma lacuna, a bibliografia em português sobre o diretor seria pequena diante do peso de sua obra. As vendas são informadas pelo site da editora.

No campo da saúde mental e das dinâmicas sociais contemporâneas, “Exaustos: Imaginando saídas para o cansaço diário”, do psicólogo Lucas Freire, se apresenta como leitura de diagnóstico e, principalmente, de proposta. Publicado pela Buzz Editora, o livro parte do dado de que mais de 470 mil brasileiros foram afastados do trabalho por transtornos mentais em 2024, para discutir a exaustão crônica como mal social. Com olhar clínico e crítico, o autor descreve a ideia de “neuroprisão”, associada a estímulos incessantes e a fenômenos como dependência digital, vício em “scrolling”, medo de perder algo, dopagem química em busca de performance e cultura da imagem. A saída proposta passa pelo conceito de Playfulness, entendido como estado de engajamento livre, criativo e prazeroso. Na parte prática, o livro oferece exercícios e ferramentas, como Auditoria de 24 horas, Detox de Notificação e Plano de Ação Playfulness de 90 dias. A ficha técnica indica 208 páginas, com preços de R$ 49,90 e R$ 69,90, e-book e impresso respectivamente.

O universo das conexões e do empreendedorismo aparece em “Networking é o Princípio do Dinheiro”, do empresário e comunicador Daniel Gramigna, anunciado como “O Pai do Networking”. A obra é apresentada como prática e inspiradora, centrada em uma metodologia criada pelo autor para transformar conexões intencionais em resultados e prosperidade coletiva. Gramigna relata que o livro nasce de sua própria experiência, buscando inspirar o leitor a perceber o poder de conexões genuínas e da intenção por trás dos relacionamentos. O livro aponta a trajetória do autor como criador do GranClub grupo de negócios, com conexões que teriam movimentado mais de R$ 232 milhões em parcerias e oportunidades, além de citar suas associações profissionais e posição como embaixador de marca.

Conhecimento, memória e responsabilidade da palavra

A história da ciência e da educação mineira ganha registro de fôlego em “Escola de Minas de Ouro Preto – Livro do Sesquicentenário”, de Uoster Zielinski, publicado pela Editora Miguilim. A obra celebra os 150 anos da Escola de Minas da UFOP e reúne 715 fotos e ilustrações ao longo de 636 páginas e preço sugerido de R$ 189,90. O livro reconstitui a trajetória da instituição desde sua fundação em Ouro Preto, atribuída à visão de Claude-Henri Gorceix a convite de D. Pedro II, até sua integração ao sistema federal de universidades, abordando decisões históricas, episódios, personagens e práticas pedagógicas, como aulas práticas, cadernos e pesquisas de campo. O texto também dá destaque ao ecossistema cultural e estudantil, com repúblicas e museus temáticos, e apresenta Zielinski como artista formado em Desenho e Pintura pela Escola de Artes Visuais da UFMG e autor de outras obras publicadas pela Miguilim.

Fechando a lista, “O veneno da língua: O desafio evangélico de falar a verdade sem ferir”, do pós-doutor em Linguística Lucas Nascimento, desloca o debate para a responsabilidade da palavra no espaço público, especialmente em contextos cristãos. Publicado pela Editora Mundo Cristão, fundada em 1965, o livro investiga discursos que provocam indignação e humilhação e apresenta o que o autor chama de “veneno da língua”, com exemplos de falas que reforçam estigmas e violam a dignidade de grupos vulneráveis.

A proposta é adotar uma interpretação mais cuidadosa e aplicar a “presunção de humilhação”, reconhecendo que certas falas podem ferir mesmo sem intenção, além de desenvolver quatro competências para construir um discurso sem preconceito, que passa por escuta, definição de objetivo, escolha de palavras e ajuste de tom e ritmo. Com 160 páginas, o livro é vendido a R$ 59,90.

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