Projeto leva vinhos de Minas Gerais ao mercado europeu com foco em rótulos premium
Duas vinícolas de Minas Gerais são destaques em uma iniciativa estruturada para inserção de rótulos brasileiros no mercado francês: Bárbara Eliodora, de São Gonçalo do Sapucaí, e Estrada Real, de Caldas, ambas no Sul de Minas. As duas participam da primeira fase do projeto Vin du Brésil, que quer ampliar a presença do vinho brasileiro na Europa, a partir da inserção de rótulos de produção limitada e com preços entre 15 e 50 euros no varejo.
No caso da vinícola Bárbara Eliodora, o projeto marca a primeira entrada estruturada da bebida no mercado francês. Para o produtor da fazenda, Henrique Bernardes, esse movimento representa um passo para consolidar a vitivinicultura do Sul de Minas no cenário internacional. “Participar deste movimento representa colocar Minas Gerais no mapa do vinho mundial com identidade própria. É mostrar que o Brasil, e especialmente o Sul de Minas, pode produzir vinhos de altíssimo nível, com personalidade e consistência”, observa.
Apesar do vinho já ter sido exportado para o Reino Unido, agora, com a entrada na França, Bernardes acredita que é o início de uma internacionalização com um posicionamento mais claro e estratégico.
Segundo o produtor, o diferencial dos rótulos apresentados ao público europeu está diretamente ligado às condições climáticas da região e às escolhas enológicas adotadas. “Nosso terroir de inverno seco, com dias ensolarados e noites frias, permite maturação lenta e equilibrada, preservando frescor e concentração. A técnica da dupla poda reforça ainda mais esse perfil. A partir disso, nossas escolhas enológicas buscam respeitar a fruta e a tipicidade do Syrah no Sul de Minas, trabalhando extrações precisas, uso criterioso de madeira francesa e diferentes abordagens de vinificação para criar vinhos elegantes, com estrutura, frescor e assinatura própria”, explica.
A estratégia comercial também foi estruturada para atender ao posicionamento premium do projeto, com produção limitada e foco em valor agregado. “Esse posicionamento premium está alinhado com nossa filosofia desde o início: produção limitada, foco em qualidade e não em volume. […] A ideia é entregar vinhos com profundidade e identidade, competitivos internacionalmente nessa faixa de valor”, afirma.
Avanço do vinho mineiro
Para Bernardes, a presença de duas vinícolas mineiras na estreia da iniciativa reforça o avanço da vitivinicultura do estado. “Representar Minas Gerais nesse momento é uma grande responsabilidade e também um orgulho. Minas tem história, cultura e uma nova vitivinicultura em plena ascensão. Levar esses vinhos para fora é abrir caminho não só para a nossa vinícola, mas para toda a região”, comenta.
A iniciativa reúne, nesta primeira fase, seis vinícolas brasileiras, duas de Minas Gerais e quatro do Rio Grande do Sul, com um primeiro lote de 12 rótulos. O projeto Vin du Brésil foi estruturado para inserir vinhos brasileiros no mercado europeu por meio de degustações e ações gastronômicas voltadas ao público especializado, priorizando reputação e não volume de vendas.
Além da estratégia comercial, o projeto aposta na experiência cultural e gastronômica como porta de entrada. A iniciativa é liderada pelo chef francês Benoit Mathurin, pelo jornalista e influenciador Xavier Van Kerrebrouck, pelo empresário italiano Giovanni Montoneri, e por Guilherme França, responsável pela curadoria estratégica e articulação internacional.
Segundo o sócio da Intrust Associates, Guilherme França, a expansão ocorrerá de forma seletiva até o fim de 2026. “Nossa expansão é pautada pelo rigor estratégico, e não apenas por volume. Selecionamos exclusivamente vinícolas convidadas que passaram pelo crivo técnico dos sócios. Minas Gerais consolidou-se como um celeiro de excelência e certamente terá novos representantes em nosso portfólio, reforçando a identidade premium que entregamos ao mercado europeu.”
Desafios para entrada no mercado europeu
Apesar dos produtos mineiros apresentarem qualidade premium, a chegada ao mercado francês, com preços que traduzem a singularidade do produto nacional é desafiadora. Isso porque, segundo Xavier Van Kerrebrouck, há um desconhecimento sobre a produção enológica brasileira. “Havia uma absoluta falta de conhecimento sobre vinhos brasileiros, bem como os preconceitos em relação a vinhos exóticos, como os do Brasil.”, explica o jornalista.
No entanto, apesar da resistência inicial, os vinhos tintos têm surpreendido o público. “A maior surpresa para os consumidores franceses foram os vinhos tintos, que se mostraram notavelmente frescos. Eles esperavam vinhos encorpados e intensos. É claro que os vinhos brancos e espumantes também fizeram muito sucesso”, finaliza Van Kerrebrouck.
Ouça a rádio de Minas