Thronus Medical planeja produzir medicamentos à base de cannabis em Minas até 2030
Liderada pela médica mineira Mariana Maciel, a biotech canadense Thronus Medical tem planos de produzir medicamentos à base de cannabis no Brasil até 2030. A expectativa é que a escolha recaia sobre a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).
Fundada há seis anos, a startup tem no portfólio nove produtos, sete deles com a tecnologia powerNano, incluindo uma apresentação intranasal e dois mastigáveis soft, distribuídos na América do Norte, América Latina e Europa.
A powerNano reduz as partículas de cannabis a cerca de 17 nanômetros e as encapsula em solução hidrossolúvel. Isso pode aumentar em até 10 vezes a absorção dos princípios ativos, reduzindo o tempo de início de ação de duas horas para uma faixa entre 10 e 30 minutos, com biodisponibilidade que pode chegar a 80%, a depender do ativo. É essa tecnologia que sustenta a linha Bisaliv e as tinturas powerNano produzidas atualmente.
Sem a tecnologia, apenas de 6% a 8% dos princípios ativos extraídos da cannabis sativa chegam à circulação sistêmica do corpo, e boa parte do potencial terapêutico do medicamento se perde antes de fazer efeito.

“Temos um hub na Europa que exporta diretamente para o paciente no Brasil. Ter produção no nosso País é um plano. O Brasil é diverso, criativo, aberto à inovação. Temos muitas pesquisas nas universidades e incentivos estatais para empresas inovadoras, inclusive em Minas. A Biominas, por exemplo, coloca cientistas em contato com investidores para encurtar o caminho entre a bancada e a prateleira. E o meu desejo é poder produzir no Brasil para baratear e facilitar o acesso a esses medicamentos e se for em Belo Horizonte, ainda melhor porque é a minha terra e onde já existe um ambiente de negócios favorável com outras empresas do mesmo setor”, explica Mariana Maciel.
A empresa mantém ainda a Thronus Education, braço responsável pela certificação de médicos na prescrição de canabinoides, reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC) por meio da Afya Educação.
A trajetória também rendeu reconhecimento pessoal a Mariana Maciel. Suas pesquisas levaram à integração à Society of Cannabis Clinicians, organização americana sem fins lucrativos dedicada à educação de profissionais de saúde sobre uso médico da cannabis. Em 2023, ela foi listada pela Kaya Mind, entidade de referência em dados do setor, como executiva de destaque. Em 2025, foi condecorada pela Abfip/ONU (Associação Brasileira das Forças Internacionais de Paz, da Organização das Nações Unidas).
“Investir em educação é fundamental para que o segmento dos medicamentos à base de cannabis avance. Precisamos que os médicos tenham acesso a informações científicas seguras e que se qualifiquem para aplicar essas novidades. Ainda existe um sistema de crenças que tira a cannabis do discurso científico para isolá-la no noticiário policial que afeta, inclusive, os médicos. Sem o apoio e conhecimentos dos profissionais de saúde, não temos prescritores das fórmulas e os pacientes perdem uma oportunidade de tratar doenças graves e que trazem grande sofrimento”, diz.
E é da própria experiência que Mariana Maciel tira uma lição sobre a necessidade de dar espaço para a divulgação científica. Durante sua formação em medicina não teve uma aula sequer sobre o uso medicinal da cannabis ou sobre o sistema endocanabinoide, que é um grande regulador do corpo humano, composto por receptores, moléculas próprias do corpo e enzimas. Ele ajuda a manter o equilíbrio interno ao controlar funções como dor, humor, apetite e sono.
Depois de completar a residência médica no Brasil, foi como imigrante no Canadá que ela teve acesso à informação.

“Sempre tive o sonho de ser empresária, construir um legado na área da saúde, mas não tinha encontrado o caminho. Quando cheguei ao Canadá, comecei a trabalhar num restaurante, mas em três meses fui contratada como médica em um projeto que trabalhava com cannabis medicinal. Aí fui estudar e vi que tinha evidências científicas e comecei a quebrar minhas convicções. Depois, fui trabalhar numa clínica especializada e vi como os pacientes melhoravam. Foi aí que comecei a desenvolver a tecnologia powerNano. A gente precisa educar a população e principalmente os médicos porque quem tem dor, tem pressa”, frisa.
Os próximos passos da indústria farmacêutica que se dedica aos medicamentos à base de cannabis devem seguir tendências como melhores sistemas de entrega de medicamentos (tecnologia farmacêutica interna do corpo humano), canabinoides com cadeias moleculares menores, formulações personalizadas (medicina de precisão a partir de testes genéticos).
“Precisamos falar mais sobre o sistema endocanabinoide. Ele existe no nosso corpo e a maioria das pessoas não sabe. Ele precisa ser regulado para regular os demais. Atualmente os cientistas trabalham principalmente para melhorar os mecanismos de absorção dos princípios ativos, assim as doses podem ser menores, mais eficientes e baratas. A powerNano surgiu com esse objetivo e agora vamos lançar uma linha com canabinoides menores já no segundo semestre”, anuncia a fundadora da Thronus Medical.
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