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Ease Labs aposta em novo ciclo da cannabis medicinal

CEO da empresa, Gustavo Palhares explica que como a marca supera as fake news em torno do setor e também projeta expansão internacional

Em março de 2020, quando a Anvisa publicou o marco regulatório que abriu oficialmente o mercado de medicamentos à base de cannabis no Brasil, poucos setores estavam prontos para apostar naquele terreno. Gustavo Palhares estava.

Advogado de formação, com passagem pelo mercado de fusões e aquisições em São Paulo e um mestrado nos Estados Unidos, ele voltou ao Brasil em busca de algo que chamava de propósito e encontrou, na interseção entre o rigor do mercado farmacêutico e o potencial inexplorado da cannabis terapêutica, o que se tornaria a Ease Labs.

Seis anos depois, a empresa que ele cofundou com Guilherme Franco, sediada em Belo Horizonte e com unidade industrial em Vespasiano, é uma das referências do setor no país. Mais do que fabricar medicamentos regulados pela Anvisa e distribuídos em farmácias de todo o Brasil, a Ease Labs construiu uma cadeia verticalmente integrada, da extração na Colômbia, onde opera desde antes de muitas regulamentações brasileiras permitirem o cultivo, até a pesquisa e o desenvolvimento de novas formulações.

Agora, com a atualização regulatória de janeiro de 2026 abrindo espaço para novos produtos e, pela primeira vez, para a exportação, a empresa olha para fora.

Para entender como se constrói um mercado do zero e o que significa fazer isso a partir de Minas Gerais, o Diário do Comércio entrevistou, com exclusividade, o cofundador e CEO da Ease Labs.

Como surgiu a ideia da Ease Labs e de que forma sua trajetória como advogado o levou a atuar nesse segmento?

Sou advogado de formação e tive algumas experiências empreendendo ainda jovem. Depois, segui minha carreira como advogado especializado em M&A (fusões e aquisições). Morei por dez anos em São Paulo, fiz um mestrado nos Estados Unidos e trabalhei por um período no país. Quando retornei ao Brasil, me reconectei com Guilherme Franco, meu cofundador, e estávamos em busca de um propósito profissional.

A partir dessa inquietação, começamos a analisar o mercado de saúde brasileiro. Percebemos que era um setor com diversas necessidades e que, se construíssemos um negócio da forma correta, poderíamos gerar um impacto positivo na vida das pessoas. Dentro desse universo, passamos a estudar o mercado farmacêutico, que é dominado por grandes indústrias, apresenta crescimento consistente e possui altas barreiras de entrada.

Ao mesmo tempo, o mercado de cannabis vinha sendo regulamentado em diversos países, com forte ritmo de expansão e evidências de grande aceitação dos produtos. Ao entendermos que, no Brasil, a Anvisa regulamentaria esse segmento dentro do arcabouço regulatório farmacêutico, identificamos uma oportunidade de unir esses dois mundos.

Foi assim que criamos a Ease Pharma, hoje uma indústria farmacêutica especializada em medicamentos à base de cannabis regulados pela Anvisa e comercializados em farmácias de todo o Brasil. Ao longo dos anos, seguimos uma estratégia de especialização e verticalização das operações.

Atualmente, contamos com a Semeya, fabricante de insumos farmacêuticos de cannabis no Brasil, e com a Ease Labs Colômbia, operação responsável pelo cultivo e pela extração da planta. Como essas atividades ainda não são permitidas no Brasil, a estrutura na Colômbia nos permite integrar toda a cadeia produtiva e garantir maior eficiência operacional.

Qual é a importância de a regulamentação da cannabis medicinal ter sido estruturada sob a ótica da indústria farmacêutica?

A principal diferença entre um medicamento e produtos menos regulados está na segurança oferecida ao paciente, além das garantias de qualidade e eficácia do tratamento. Nesse sentido, a Anvisa teve muito cuidado para cumprir seu papel de proteger a saúde pública e, ao mesmo tempo, criar mecanismos regulatórios que permitissem o desenvolvimento desse mercado de forma organizada.

O objetivo foi estabelecer condições para que o setor crescesse de maneira sustentável e ampliasse o acesso dos pacientes a alternativas terapêuticas capazes de contribuir para a melhora de diferentes patologias.

A agência teve a coragem de dar o primeiro passo ao criar o marco regulatório que entrou em vigor em março de 2020. Em janeiro de 2026, esse marco foi atualizado com novidades que devem impulsionar ainda mais o mercado, sem abrir mão dos elevados padrões de qualidade exigidos para os produtos.

Essas regras garantem que os medicamentos sejam produzidos por indústrias farmacêuticas que possuem a infraestrutura, os processos e a tecnologia necessários para oferecer ao paciente soluções seguras, eficazes e com qualidade comprovada.

A Anvisa é reconhecida internacionalmente pela qualidade de sua atuação regulatória?

Sim. Tivemos a oportunidade de interagir com agências reguladoras de diversos países desenvolvidos e a Anvisa não deixa nada a desejar. Em muitos aspectos, ela está até à frente de órgãos reguladores bastante consolidados no cenário internacional. Trata-se de uma instituição que conquistou respeito global e se posiciona como referência em seu campo de atuação.

No caso da cannabis medicinal, a Anvisa criou um modelo regulatório que tende a colocar o Brasil em posição de destaque no mercado, com foco em qualidade, padronização e segurança para os pacientes que utilizam esses produtos.

Para nós, isso tem um significado especial. Somos uma empresa brasileira e mineira, com sede em Belo Horizonte e operação farmacêutica em Vespasiano. Temos muito orgulho de estar entre as pioneiras e de sermos uma das referências desse mercado em desenvolvimento.

O pioneirismo tem seus desafios, entre eles a ausência de uma cadeia produtiva consolidada. Foi isso que motivou a decisão de verticalizar a produção?

Sem dúvida. A verticalização foi uma necessidade estratégica para garantir maior robustez e segurança no abastecimento, especialmente porque entendíamos que a demanda por esses produtos cresceria de forma consistente ao longo dos anos.

Além disso, a especialização em diferentes etapas da cadeia produtiva gera diferenciais tecnológicos importantes. Isso nos permite desenvolver produtos com características próprias, maior controle de qualidade e capacidade de inovação, oferecendo ao mercado soluções cada vez mais diferenciadas e adequadas às necessidades dos pacientes.

A Ease Labs poderia estar instalada em qualquer lugar do mundo. Quais fatores, competitivos e afetivos, influenciaram a escolha por Belo Horizonte?

Eu e Guilherme Franco, meu cofundador, nascemos em Belo Horizonte, então existe, naturalmente, um vínculo afetivo muito forte com a cidade e com Minas Gerais. Belo Horizonte é uma cidade excelente para viver e empreender, mas a decisão vai além da questão emocional.

Minas conta com profissionais altamente qualificados, muitos dos quais passaram a fazer parte do nosso projeto ao longo da trajetória da empresa. Além da competência técnica, essas pessoas compartilham um jeito muito próprio de trabalhar e empreender, algo que considero uma característica marcante da cultura mineira.

Acredito que o empreendedor mineiro costuma ter uma gestão próxima, disciplina na alocação de capital, responsabilidade nas decisões e uma visão de crescimento construída passo a passo, de forma consistente. Essas características contribuíram de maneira decisiva para a formação da nossa cultura empresarial, que tem uma identidade profundamente mineira.

A unidade da Colômbia é responsável pelas etapas de cultivo e extração da cannabis utilizada nos produtos da empresa?

Sim. Na Colômbia realizamos tanto o cultivo quanto a extração, sempre dentro de um ambiente farmacêutico controlado e seguindo rigorosos padrões de qualidade.

Já no Brasil, conduzimos as etapas de padronização e fabricação dos insumos farmacêuticos. Na Semeya, nossa unidade farmoquímica, produzimos o IFA (insumo farmacêutico ativo) e o IFAV (insumo farmacêutico vegetal). Na Ease Pharma, fazemos a fabricação dos produtos acabados que chegam ao mercado.

Até recentemente, o cultivo de cannabis não era permitido no Brasil. Com a nova regulamentação, que entra em vigor em agosto, passa a ser autorizado o cultivo de plantas com até 0,2% de THC, provenientes de genéticas ricas em canabidiol.

Diante desse novo cenário, estamos estudando um processo gradual para trazer ao Brasil parte das operações que hoje realizamos na Colômbia. Uma vantagem importante é que iniciamos nossa atuação naquele país muito cedo. Adquirimos uma empresa que já possuía sete anos de experiência no mercado e desenvolveu uma tecnologia de extração bastante avançada. Nossa intenção é transferir parte desse conhecimento e dessa tecnologia para o Brasil de forma progressiva.

A regulamentação ainda passará por um processo de implementação e amadurecimento, mas, sem dúvida, ampliar as etapas produtivas em território nacional – especialmente em Minas Gerais – seria muito positivo para a empresa.

O mercado de cannabis medicinal ainda enfrenta preconceitos, desinformação e fake news. Como a empresa trabalha para superar esses desafios?

Nossa principal estratégia é investir em uma comunicação técnica e de alto nível, especialmente junto à comunidade médica, que é a principal referência para os pacientes e desempenha um papel fundamental na prescrição desses tratamentos.

Estamos falando de produtos controlados. Embora recentemente tenham passado da tarja preta para a tarja vermelha, continuam exigindo acompanhamento médico, o que torna a orientação profissional um elemento essencial para o uso adequado e seguro.

Por isso, nosso foco está em levar informação qualificada aos médicos. Temos observado uma adesão crescente da classe médica às terapias baseadas em cannabis e aos produtos que desenvolvemos. Ao mesmo tempo, também buscamos ampliar o acesso à informação para a sociedade, já que ainda existe muita desinformação sobre o setor. Muitas pessoas, por exemplo, acreditam que os produtos disponíveis no mercado são exclusivamente importados, quando já existe produção nacional regulamentada.

Ainda assim, atuamos dentro de limites regulatórios bastante claros. Não podemos estimular a demanda nem influenciar diretamente a decisão do paciente. Por isso, nossa comunicação é predominantemente técnica, educativa e direcionada aos profissionais de saúde.

A maioria das pessoas associa os medicamentos à base de cannabis às soluções orais em gotas. Com as mudanças regulatórias, novas apresentações devem chegar ao mercado?

As soluções orais foram os primeiros produtos disponibilizados nesse mercado e, por isso, acabaram se tornando o formato mais conhecido pelo público. No entanto, a atualização regulatória publicada neste ano ampliou as possibilidades de administração desses medicamentos, permitindo o desenvolvimento de novas categorias de produtos.

Essa mudança abre espaço para o lançamento de apresentações voltadas, por exemplo, ao uso tópico, ampliando as opções terapêuticas disponíveis para médicos e pacientes.

Como empresa pioneira e especializada no segmento, a Ease Labs pretende construir um portfólio completo, capaz de atender às diferentes aplicações clínicas dos medicamentos à base de cannabis. Por isso, além das soluções orais, estamos trabalhando no desenvolvimento de produtos de uso tópico e também de cápsulas, ampliando as alternativas de tratamento oferecidas ao mercado.

O uso de medicamentos à base de cannabis é mais conhecido no tratamento de condições como dores crônicas e epilepsia, que muitas vezes afastam as pessoas do trabalho. Nesse contexto, os avanços nessa área também geram impactos econômicos, além dos benefícios à saúde?

Sem dúvida. Quando a qualidade de vida do paciente melhora, os benefícios vão muito além do aspecto clínico. Em muitos casos, as pessoas passam a demandar menos o sistema público de saúde e conseguem retomar suas atividades produtivas, voltando ao mercado de trabalho e recuperando sua autonomia.

Esse impacto também se estende às famílias. Muitas vezes, familiares precisam dedicar parte significativa do seu tempo aos cuidados do paciente. Quando o tratamento proporciona uma melhora consistente, essa sobrecarga diminui, permitindo que essas pessoas também retomem suas atividades profissionais e tenham mais qualidade de vida.

Há ainda um aspecto relevante do ponto de vista da gestão pública. Hoje, em muitos estados, a aquisição desses produtos ocorre por meio de decisões judiciais ou compras realizadas a preços de mercado. Quando programas estruturados são implementados e a compra é feita em volume por meio de licitações, o poder público consegue obter preços mais competitivos e ampliar o acesso da população aos tratamentos.

Além disso, esse modelo contribui para reduzir a judicialização da saúde, gerando mais previsibilidade e eficiência para o sistema. Atualmente, já fornecemos produtos para o SUS em São Paulo e temos o interesse de ampliar essa atuação também em Minas Gerais.

A Ease Labs já trabalha com planos de expansão internacional?

Sim. A atualização regulatória publicada neste ano trouxe uma novidade muito relevante para o setor ao permitir a exportação tanto de produtos acabados quanto de insumos à base de cannabis. Essa mudança amplia significativamente as oportunidades para empresas que atuam nesse mercado.

Temos a ambição de nos tornar um exportador e de levar a expertise desenvolvida no Brasil para outros mercados. Acreditamos que estamos contribuindo para alcançar um dos objetivos centrais da regulamentação: fomentar a criação de um polo tecnológico capaz de posicionar o Brasil como uma referência global na indústria de cannabis medicinal.

À medida que o setor amadurece e a capacidade produtiva nacional se fortalece, enxergamos um potencial importante para que empresas brasileiras passem a competir internacionalmente, exportando tecnologia, conhecimento e produtos com elevados padrões de qualidade.

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