Futuro Futuro: a Ficção Científica Brasileira no Embate Entre o Amor e o Algoritmo
No próximo dia 23, desembarca nos cinemas Futuro Futuro, o aguardado longa de Davi Pretto, vencedor do Festival de Brasília de 2025. O filme, ambientado em um futuro indeterminado, apresenta o solitário e desmemoriado K, um homem à deriva em um mundo sob o cerco de uma epidemia que, ironicamente, não mata o corpo, mas devora o que nos define: a memória.
Estamos, portanto, no terreno da ficção científica brasileira. Sim, ela existe, mas, desta vez, nos devolve a imagem de uma nação assombrada pela repressão, pelo clima, pelo sombrio, pela precariedade.
Em Futuro Futuro, a tecnologia se torna um espelho da nossa desorientação atual. Quando os personagens, algo amnésicos, são submetidos a uma máquina que dispara estímulos aleatórios, o filme não está apenas criando um cenário ficcional; ele expõe a natureza alucinante da nossa navegação nas redes sociais e das nossas consultas quase “tarológicas” com as IAs, nas quais a imagem deixou de representar o mundo para, deliberadamente, alterá-lo.
Não há, aqui, heróis. A ideia de heroísmo desaparece, substituída por uma passividade paralisante. O protagonista, diante de uma distopia sugestiva de um iminente apocalipse, encarna o torcedor que grita diante da TV, acreditando influenciar um jogo sobre o qual não tem domínio algum. É a metáfora máxima da nossa impotência política: a ilusão de que postar, opinar ou reagir nos confere alguma efetividade real.
Entre tecnologias que formatam nosso pensamento e algoritmos que ditam nossos comportamentos, o filme nos confronta com uma verdade existencial desconfortante: talvez não exista mais contra quem lutar, pois a distopia que nos governa já se tornou indistinguível da nossa própria realidade.
Ainda assim, é um cinema que não se rende ao niilismo. A ideia de que o ser humano é essencial ao outro, e de que precisamos mais do olhar alheio como espelho do que da expansão de nossas próprias fronteiras, não é apenas um consolo; é um chamado à ação.
Futuro Futuro encena essa necessidade no embate entre o humano e o algoritmo: de um lado, a precariedade de um rosto que já não guarda memória; do outro, o Oráculo, uma inteligência artificial que usurpa o passado e escaneia o que resta de nossa subjetividade para devolvê-la em fragmentos.
Às tantas, quando as certezas se esgotam e os conhecimentos se revelam parciais e finitos, resta o amor. Ao propor algo que escapa ao racionalismo frio e mecânico dos algoritmos, a obra de Pretto encontra sua verdadeira dimensão. É nesse espaço, entre a ruína da tecnologia e a urgência do afeto, que o filme revela, enfim, a sua razão de existir.
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