86 para a meia-noite

Fixar a contagem no número em questão não representa alívio ou estabilidade diante do fim dos tempos
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86 para a meia-noite
Foto: Reprodução Adobe Stock

“Hábito insano de viver à beira do precipício.” (Antonio Luis da Costa, professor)

Este nosso mundo do bom Deus, onde o tinhoso insiste em implantar seus traiçoeiros enclaves, parece disposto a transpor, a cada dia, a linha divisória que o separa do caos definitivo. Como produto da irracionalidade, que campeia desarvoradamente por tantos domínios da atividade humana, vivemos sob ameaças renováveis a cada amanhecer. Aí estão, desafiadoras, as belicosas desavenças geopolíticas, as tragédias climáticas, os funestos efeitos da injustiça social e tantas outras mazelas indicativas de que a humanidade insiste em flertar com a perspectiva própria ruína.

E o relógio do Juízo Final, como se comporta diante de tudo isso? É justamente nesse cenário de sobressaltos que os diagnósticos periódicos dos sábios, responsáveis pelo mecanismo, ganham contornos dramáticos. O famoso Doomsday Clock, mantido, desde o final da Segunda Guerra Mundial, pelo Bulletin of the Atomic Scientists, conserva, na atualidade, os ponteiros fixos em 86 segundos para a meia-noite, marca estabelecida em janeiro de 2026.

Para parte da opinião pública, fustigada pelo negacionismo de ocasião, a imobilidade do relógio soa como contradição. Afinal, se o mundo parece pior a cada notícia, por que o alarme não avança? A resposta reside na própria característica técnica da ferramenta. Longe de ser um termômetro emotivo ou esquema de adivinhação profética, o relógio é fruto de um rigoroso método científico, alimentado por peritos globais e prêmios Nobel. A métrica não oscila ao sabor do noticiário. Calcula o acúmulo frio de riscos existenciais, da ameaça atômica ao avanço sem freios da inteligência artificial.

Fixar a contagem em 86 segundos do abismo não representa alívio ou estabilidade. Significa, antes, o atestado de que queimamos toda a margem de segurança que a diplomacia e a razão conseguiam sustentar. O problema, agora, é a anestesia moral. O hábito insano de viver à beira do precipício como se ele fosse apenas paisagem. Os cientistas já mediram a exatidão do perigo com pontualidade matemática. Resta saber até quando a humanidade continuará fingindo que o tempo não está se esgotando.

Em novembro próximo, seguindo o calendário dos cientistas, uma nova avaliação sobre o rumo da história contemporânea será colocada sobre a mesa. Se os ponteiros vão avançar ainda mais rumo à meia-noite ou permanecer estáticos na iminência do desastre, ou até mesmo retroceder, dependerá das escolhas que a liderança global persiste em adiar. O relógio dos sábios cumprirá o seu papel. Resta saber se a humanidade despertará a tempo de ouvir os sinais emitidos.

Enquanto isso, em Gaza, Ucrânia, Sudão, na Cordilheira do Himalaia e em outros pontos da aldeia global …

Cesar Vanucci
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Cesar Vanucci

Jornalista ([email protected])


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