Capacitação para uma ‘Fala Líder’

Credibilidade não se impõe pelo cargo ou pela retórica
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Capacitação para uma ‘Fala Líder’
Foto: Reprodução Adobe Stock

O mundo mudou. E a comunicação mudou junto. Ela é multi: multiformato, multimeios, multifontes. Há muita gente falando, produzindo, interpretando e consumindo informação. As relações também se multiplicaram, assim como as interrelações entre os públicos de uma organização.

Uma informação dirigida a determinado grupo dificilmente permanece restrita a ele. Circula, é compartilhada e reinterpretada. Públicos se cruzam e se influenciam permanentemente. Nesse ambiente complexo, a comunicação dirigida, capaz de considerar as particularidades de cada público, deixa de ser sofisticação e se torna necessidade. E nos obriga a rever como preparamos nossas lideranças para comunicar.

Durante muito tempo, essa preparação esteve associada ao Media Training. Executivos e porta-vozes eram treinados para lidar com a imprensa, organizar mensagens e responder a perguntas difíceis. Nada disso perdeu importância. O que mudou foi o tamanho do universo no qual essa competência está inserida. É dessa percepção que parte o trabalho que venho desenvolvendo em parceria com Cláudia Silva, especialista em oratória, na preparação de lideranças para o relacionamento com diferentes stakeholders.

É de Cláudia a expressão Fala Líder, que vai muito além de falar bem. Pressupõe assertividade e segurança, mas exige conteúdo, consistência, capacidade de argumentação e, principalmente, reconhecer quem está do outro lado.

O problema do Media Training tradicional talvez não esteja no que ensina, mas no que hoje é preciso ensinar além dele. Uma liderança comunica quando concede uma entrevista e também quando conversa com empregados, comunidades, autoridades, fornecedores ou parceiros. Sua fala não é mera manifestação individual. É a organização que fala por meio dela. Já não basta saber o que dizer. É preciso saber o que dizer, para quem, como, quando e em que contexto.

A essência da mensagem deve ser preservada – coerência é fundamento da credibilidade. Mas isso não significa repetir para todos as mesmas palavras e argumentos. Públicos diferentes têm interesses, expectativas e sensibilidades distintos. Comunicação dirigida não é produzir diferentes versões da realidade. É compreender essas diferenças para falar a cada interlocutor.

E há outra dimensão essencial: a escuta. A comunicação com stakeholders exige saber perguntar, ouvir e compreender. Comunicar não é apenas transmitir uma posição institucional. É estabelecer uma relação.

Uma Fala Líder não se impõe pelo cargo ou pela retórica. Comunica com clareza e segurança sem perder a capacidade de ouvir; sustenta posições levando em conta o interlocutor; adapta a linguagem sem alterar a essência.

O Media Training continua necessário, mas precisa encontrar seu lugar dentro de uma formação mais ampla. A Comunicação pode orientar, preparar e apoiar. Mas são as lideranças que, diariamente, estão diante dos diferentes públicos e são a face mais concreta da organização.

Em um mundo em que todos falam, escutam, interpretam e repercutem, comunicar deixou de ser apenas uma competência de quem trabalha com Comunicação. Para quem lidera, passou a fazer parte do próprio ato de liderar.

José Guilherme Araújo
Sobre o autor

José Guilherme Araújo

CEO da Ideia Comunicação


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