Custos da indústria de alimentos

A busca por uma marca própria de qualidade pode ajudar a amenizar os gastos elevados para os empresários do setor
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Custos da indústria de alimentos
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O petróleo em patamar elevado e a perspectiva de um El Niño muito forte já influenciam o planejamento da indústria de alimentos para o próximo ano. Os efeitos devem chegar ao frete, à embalagem e à matéria-prima nos próximos meses, mas há alternativas concretas para atravessar esse ciclo com margens preservadas.

Em 17 de setembro, a Petrobras reajustou o diesel em R$ 1 por litro, aumento compensado por uma subvenção federal de mesmo valor, com prazo inicial de 30 dias. Na prática, o custo foi adiado. A NOAA, agência norte-americana de oceanos e atmosfera, estima em mais de 90% a probabilidade de um El Niño muito forte entre a primavera de 2026 e o verão de 2027. Como nada disso chegou ainda ao preço final, indústria e varejo têm uma janela valiosa para se planejar.

A alta do Brent encarece o diesel do frete e as resinas das embalagens, que subiram de 70% a 80% entre o fim de fevereiro e o início de abril, segundo a Abiplast. No milho, o contrato para março de 2027 era negociado na B3, no fim de setembro, cerca de 17% acima do indicador Cepea/Esalq. Em snacks, produto leve e de preço unitário baixo, a embalagem passa a disputar espaço com o próprio alimento na composição do custo.

Do outro lado da gôndola, o consumidor tem pouca folga no orçamento e as marcas próprias ganham espaço. Repassar integralmente o aumento ao preço final não é uma boa alternativa. O consumidor pode migrar para a opção mais barata, o varejista tende a reduzir o espaço de quem deixa de vender e a indústria, com menor volume, vê os custos fixos pesarem mais sobre cada unidade, o que corrói a margem que o repasse pretendia proteger.

O caminho mais sustentável é compensar parte da alta com eficiência. A marca segue competitiva quando o consumidor reconhece nela qualidade comparável à dos líderes por um preço justo e a encontra sempre disponível no canal em que costuma comprar.
Há quatro frentes principais de antecipação. A primeira é comprar cedo, de forma escalonada e com base em dados de giro por região e previsão de produção. A segunda é encurtar a distância até o ponto de venda, com distribuidores regionais que conhecem o mercado local, repõem com agilidade e reduzem a dependência de poucas grandes redes.

A terceira é diversificar o portfólio com linhas de maior valor agregado, que permitem ocupar faixas de preço em que o consumidor aceita pagar mais por atributos como ingredientes, apelo nutricional ou experiência de consumo. O produto de entrada abre caminho para as versões de maior valor da mesma marca.

A quarta é investir em tecnologia e gestão. A automação reduz a variabilidade e o consumo de energia e matéria-prima por unidade, e os indicadores de perda permitem corrigir desvios em dias. Na logística, roteirização, consolidação de cargas e negociação antecipada com transportadoras ajudam a conter o impacto de um eventual fim da subvenção ao diesel.

Essas estratégias só se convertem em resultado quando acompanhadas de método. Os custos de 2027 chegarão para toda a indústria, mas o impacto sobre cada empresa dependerá das decisões tomadas agora. Quem se antecipar terá condições de encerrar o ciclo com uma operação ainda mais eficiente do que a que tinha ao entrar nele.

Pedro Rodrigues
Sobre o autor

Pedro Rodrigues

Diretor-executivo da Milho de Ouro


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