Gestão financeira é a chave para valor e crescimento de startups do jurídico no Brasil
O ecossistema de legaltechs no Brasil atravessa um processo claro de amadurecimento. Se, em um primeiro momento, a inovação jurídica esteve fortemente associada à automação de tarefas, à digitalização de fluxos e ao uso inicial de inteligência artificial, hoje o debate é outro: como transformar inovação em empresas sólidas, escaláveis, auditáveis e atrativas para investidores e compradores estratégicos.
Nesse contexto, a gestão financeira e, de forma ainda mais específica, a correta leitura e tradução contábil da realidade econômica das startups jurídicas, tornou-se um dos principais vetores de criação ou destruição de valor.
Ainda é comum no mercado brasileiro tratar a contabilidade como uma função meramente acessória, voltada ao cumprimento de exigências fiscais e societárias. Essa visão é especialmente nociva para startups, e em particular para legaltechs, cujo modelo de crescimento raramente segue a lógica tradicional de empresas maduras.
Grande parte das legaltechs opera durante anos sem faturamento relevante ou com receitas incipientes, sendo integralmente sustentada por aportes de capital realizados por investidores, via subscrição de ações ou quotas. Esses recursos são direcionados para desenvolvimento tecnológico, estruturação de equipe, validação de produto, expansão comercial e posicionamento institucional.
O erro conceitual ocorre quando a contabilidade se distancia da lógica econômica real da operação, registrando o capital social em valores que não refletem os aportes efetivos; mantendo recursos por tempo indefinido em contas transitórias, como adiantamentos ou reservas, sem o devido respaldo societário; ou tratando despesas cobertas por investidores como prejuízos acumulados. Nessas situações, as demonstrações financeiras acabam transmitindo uma imagem de fragilidade patrimonial, quando, na verdade, houve investimento estruturado e deliberado. Esse desalinhamento entre os registros contábeis e a realidade da gestão compromete a qualidade das análises e pode distorcer decisões estratégicas.
Uma contabilidade desalinhada não é um problema apenas técnico. Ela afeta diretamente o valuation da empresa, a governança interna e a percepção de risco por parte de terceiros. Em processos de auditoria, due diligence, rodadas de investimento ou M&A, prejuízos acumulados elevados, capital social reduzido e histórico confuso de aportes funcionam como verdadeiros “alertas vermelhos”. Muitas vezes, esses números não refletem má gestão, mas sim falta de acompanhamento técnico adequado.
Por isso, defender que a contabilidade traduza fielmente a realidade econômica não é maquiagem de balanço, é sim governança responsável. Na Aleve LegalTech Ventures, adotamos uma abordagem rigorosa e contínua no acompanhamento financeiro das legaltechs do nosso portfólio. Esse trabalho envolve revisar, de forma recorrente, se os aportes realizados estão corretamente refletidos no capital social, se as despesas foram adequadamente classificadas, se há coerência entre patrimônio líquido e histórico de investimentos e se a contabilidade está preparada para resistir a uma análise externa criteriosa. Ao acompanhar passo a passo cada startup, conseguimos antecipar riscos, corrigir distorções e estruturar a empresa para crescer com segurança.
Do ponto de vista do investidor, empresas que sabem contar corretamente sua história financeira transmitem maturidade, profissionalismo e visão de longo prazo. Não se trata apenas de números positivos, mas de números coerentes, defensáveis e bem estruturados. As legaltechs do nosso portfólio são desenvolvidas nesse sentido para que cheguem ao mercado com essa maturidade, possuindo patrimônio líquido alinhado aos investimentos recebidos; apresentando governança clara e organizada; preparadas para auditorias e processos de M&A; prontas para demonstrar, com clareza, como cada aporte contribuiu para a construção do negócio.
O crescimento sustentável das legaltechs brasileiras passa, necessariamente, por uma gestão financeira mais técnica, integrada e estratégica. Advogados, empreendedores e investidores que compreendem essa lógica deixam de enxergar a contabilidade como um fim em si mesma e passam a utilizá-la como instrumento de geração de valor. É nessa leitura profunda, criteriosa e contínua que se constrói riqueza real, sustentável e transferível no mercado de inovação jurídica.
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